Desporto

Benfica. Agora não houve luz que valesse a vitória

Pouco mais de um mês depois de ter sido salvo por uma visão de Luís Filipe Vieira, Rui Vitória caiu mesmo. O interino Bruno Lage vai orientar as águias frente ao Rio Ave.

À segunda foi de vez. Ou à terceira: depende do prisma para onde se quiser olhar. A terceira derrota no campeonato, sofrida logo no segundo dia de 2019 no Algarve (2-0 no terreno do Portimonense) deixou Rui Vitória na corda bamba pela segunda vez em pouco mais de um mês; desta feita, não houve notícia de Luís Filipe Vieira ter visto mais nenhuma luz... a não ser a da rescisão imediata com o treinador.

A 29 de novembro, recorde-se, o presidente do Benfica tomava a decisão - contra o que havia ficado estipulado numa reunião entre toda a direção - de manter Rui Vitória no cargo, logo após a goleada sofrida em Munique, para a Liga dos Campeões (5-1), e numa altura em que o Benfica só havia ganho dois jogos em sete. Então, o líder da SAD encarnada justificava a decisão unilateral com uma noite quase em branco no Seixal, passada a refletir e meditar e terminada com uma «luz» que o levou a optar pela permanência do técnico. «Há quem diga que sou um visionário, que parece que vejo mais à frente. Por vezes tenho ‘feelings’. Aconteceu com o [Jorge] Jesus [em 2013] e no fim fomos campeões; agora voltou a acontecer. O tempo dirá se tenho razão ou não», disse na altura.

Vitória recebe tudo a que tem direito

Neste momento, já será pacífico dizer que, desta feita, o ‘feeling’ de Vieira falhou redondamente. É verdade que, depois dessa espécie de epifania do presidente encarnado, o Benfica arrancou para uma série de sete vitórias consecutivas; não é menos verdade também que, à exceção das goleadas a Feirense (4-0) e Braga (6-2), na Luz, nunca conseguiu entusiasmar, somando quatro triunfos por 1-0.

A contestação ao treinador voltou a subir de tom com a paupérrima exibição na Vila das Aves, para a Taça da Liga, onde o Benfica arrancou o empate (1-1) e a qualificação para a final four a ferros. O discurso de Vitória no fim do jogo, onde dizia que a sua equipa não havia jogado melhor por «não ter a necessidade de ganhar» a partida, levou os adeptos ao desespero e aumentou ainda mais a animosidade para com o técnico de 48 anos. Começava a ficar cada vez mais claro que a permanência de Rui Vitória no comando técnico do Benfica estava por um fio, e assim sucedeu na última quinta-feira: às 20h35, a CMVM divulgou o comunicado emitido pelos encarnados com a oficialização de um princípio de acordo para a rescisão de contrato «com efeitos imediatos» com Rui Vitória.

O acordo entre as duas partes ainda não estava finalizado até este sábado, nomeadamente no que respeita à questão dos salários a que Rui Vitória e o resto da sua equipa técnica teriam direito - estava ligado contratualmente ao Benfica até ao fim da próxima temporada. Tudo indica que as águias continuem a honrar o seu compromisso até que o técnico encontre um novo clube - o que poderá acontecer a curto prazo: na quinta-feira à tarde, horas antes de ser oficializada a rescisão entre Vitória e o Benfica, a imprensa da Arábia Saudita já avançava com esse cenário e garantia que o técnico irá assinar em breve pelo Al Nassr, atual segundo classificado da liga saudita e que tem sido comandado interinamente por Hélder Cristóvão, ex-treinador da equipa B encarnada.

Em três anos e meio no Benfica, Rui Vitória conquistou seis troféus, com destaque para os dois campeonatos nas duas primeiras temporadas após ter sucedido a Jorge Jesus - que havia vencido os dois primeiros desse inédito tetra encarnado. Venceu mais uma Taça de Portugal, uma Taça da Liga e uma Supertaça, mas nunca conseguiu afastar totalmente a sombra de Jesus - e os desaires nos clássicos e principalmente na Liga dos Campeões, onde protagonizou na época passada a pior campanha de sempre de um clube português (seis derrotas em seis jogos, um golo marcado e 14 sofridos), também não ajudaram em nada.

Deixa o comando técnico das águias com uma percentagem de 67,93 por cento de vitórias: 125 em 184 jogos (mais 28 empates e 31 derrotas). Agora, tornou-se o primeiro treinador do Benfica a ser demitido no decorrer de uma temporada desde Fernando Santos, à primeira jornada de 2007/08.

Nem Fonseca nem Jesus

Como seria de esperar - e como já havia acontecido em novembro -, de imediato surgiram dezenas de rumores e nomes apontados ao banco encarnado. De Rui Faria, ex-adjunto de José Mourinho, a Luís Castro, atual treinador do Vitória de Guimarães, passando por Paulo Fonseca, Vítor Pereira, Leonardo Jardim ou o próprio José Mourinho - além, claro, de... Jorge Jesus.

Para já, porém, será um homem da casa a assumir o comando da nau encarnada este domingo, na receção ao Rio Ave (que também irá estrear novo técnico, Daniel Ramos): Bruno Lage, até aqui o timoneiro da equipa B. O técnico de 42 anos possui largo historial no Benfica, sempre nas camadas jovens. Licenciado em Educação Física, Saúde e Desporto, chegou ao clube encarnado em 2004/05, com 28 anos, depois de passar por alguns clubes do distrito de Setúbal (de onde é natural), assumindo o cargo de treinador da equipa B dos juvenis. Passou também pelos juniores e iniciados e voltou aos juvenis entre 2009 e 2012, sagrando-se campeão nacional de iniciados em 2008/09 e de juvenis em 2011/12). No fim dessa época aceitou o convite do Al Ahli, dos Emirados Árabes Unidos, para orientar a sua equipa de juniores em 2013. Na época seguinte subiu para a equipa B e em 2015/16 juntou-se à equipa técnica de Carlos Carvalhal, acompanhando-o no Sheffield Wednesday e no Swansea. Decidiu esta temporada aceitar o desafio de regressar ao Seixal para suceder a Hélder Cristóvão na equipa B encarnada, tendo agora pela frente o primeiro grande desafio da carreira como técnico principal.

Na sexta-feira, Luís Bernardo, diretor de comunicação do Benfica, negou na CMTV qualquer contacto do clube encarnado com Jorge Jesus e Paulo Fonseca. Segundo o dirigente encarnado, só esta segunda-feira o clube se irá começar a debruçar na questão do novo treinador, estando esse dossiê a ser gerido em exclusivo por Luís Filipe Vieira, mas nem o treinador do Shakhtar Donetsk nem o do Al Hilal estarão, para já, nas cogitações do presidente encarnado, de acordo com Luís Bernardo. O próprio empresário de Paulo Fonseca, Marco Abreu, confirmou não ter recebido qualquer abordagem por parte das águias. «Ao contrário do que tem sido noticiado, nem eu, na qualidade de seu agente, nem o Paulo Fonseca, fomos contactados pelo Benfica, um grande clube português e europeu que merece todo o respeito. Neste momento, porém, o Paulo tem contrato com o Shakhtar Donetsk por mais 18 meses e está focado nos objetivos do clube», salientou o agente.

No que respeita a Jorge Jesus, já em novembro Luís Filipe Vieira, embora ressalvando não poder prever o que aconteceria no futuro, garantia que o ex-técnico do Sporting «nunca foi hipótese» nem sequer chegou a ser contactado no sentido de um regresso ao cargo que ocupou entre 2009 e 2015 e deixava-lhe mesmo uma indireta: «Nenhum treinador virá cá para fazer o projeto dele, mas sim o do Benfica». A verdade é que Jesus parece estar a vivenciar um esfriar das relações com os dirigentes do Al Hilal. O técnico luso chegou à Arábia Saudita com enorme cartel e fez por justificar esse estatuto, somando 13 vitórias consecutivas; nos últimos seis jogos, todavia, venceu apenas dois e viu a margem pontual para o segundo classificado descer consideravelmente: neste momento soma quatro pontos de vantagem sobre o Al Nassr, que tem um jogo em atraso. Nos últimos dias, enquanto dava conta da chegada iminente de Rui Vitória, a imprensa saudita escrevia também que Jesus estava prestes a ver terminada a sua ligação ao Al Hilal e não por qualquer convite do Benfica, mas apenas pela insatisfação da direção do clube para com os últimos resultados.