Opiniao

Oposição sem aliança…

No estado atual do PSD, é fácil prever que a Aliança lhe subtrairá votos já nas próximas europeias

O título desta crónica poderia ser outro, remetendo-nos para «a política do ressentimento» de que nos fala Francis Fukuyama numa interessante entrevista à Visão. O filósofo e cientista político nipo-americano ficou famoso a nível global desde que escreveu ensaios como O Fim da História e o Último Homem, em que antevia o colapso dos totalitarismos marxistas e a universalização das democracias liberais ocidentais como forma de governo.                                                                                                                                                                                                                      Nem uma nem outra profecia se materializaram. Os totalitarismos marxistas perderam terreno, mas não foram erradicados. E o liberalismo a Ocidente tem marcado passo, com o avanço de sistemas de governo de natureza populista. 

E é neste ponto que Fukuyama associa a ‘política do ressentimento’  ao «crescimento dos totalitarismos e dos movimentos populistas dentro das democracias estabelecidas», devido a um fenómeno social «de sentido de perda» por parte das classes médias. Uma pressão que explicará o definhamento e a desilusão com as esquerdas.  

As esquerdas minguaram pela Europa fora e, na Península Ibérica, embora derrotadas, arranjaram ‘geringonças’ para ‘saltar o muro’. Se olharmos o mapa político europeu, e compararmos os perfis entre 2000 e 2017, observa-se que os partidos socialistas e sociais-democratas perderam o pé, vergados às pesadas derrotas sofridas em França, Alemanha, Holanda ou Itália.

O Governo monocolor socialista em Portugal, com o apoio parlamentar das esquerdas comunistas, é uma exceção e uma originalidade.

A experiência contaminou a vizinha Espanha, cujo partido socialista – que esteve de rastos – recuperou terreno, perante a falência de um Partido Popular minado por casos de corrupção, chegando ao Governo também sem ser eleito.

Lá, como cá, temos dois primeiros-ministros não eleitos a governar, de braço dado com as esquerdas radicais. E, lá como cá, ambos sonham com a legitimação eleitoral, beneficiários da apatia da direita – que, no caso português, tem em Rui Rio uma flagrante nulidade e em Assunção Cristas um andamento ‘poco vivace’…  

Ficou demonstrado que os populismos por cá têm outras assinaturas, que não condizem com qualquer extrema-direita inexistente – embora convenha ao Governo falar dela, como se fosse o diabo à espreita em cada esquina. 

Em contrapartida, temos uma extrema-esquerda ativa, marxista e trotskista, partilhada entre comunistas ‘da ferrugem’, com menos operariado e mais funcionalismo, e comunistas ‘caviar’, cosmopolitas e com títulos académicos. 
Somos uma singularidade europeia – depois de desaparecem os partidos comunistas históricos em Espanha, França ou Itália, enquanto na Grécia se forjou um pacto de extremos, à esquerda e à direita. 

Por aqui, os medos cultivados sobre a direita têm condicionado o espetro político. A novidade foi a Aliança, de Santana Lopes, que sempre correu em pista própria, embora com prestações desiguais. 

A discrição tem sido o seu sinal mais continuado, o que não condiz com o estilo do fundador, mais dado a ‘partir a loiça’. 

Esboçou esta vocação na mensagem de Natal que colocou no Youtube, ácido q.b. para o Governo, mas que pode ser ‘sol de pouca dura’ .  

No estado atual do PSD, é fácil prever que a Aliança lhe subtrairá votos, provavelmente já nas próximas europeias, com a escolha de uma personalidade próxima de Belém para cabeça-de-lista.

Santana guarda-se para outros embates, elegendo a cambalhota dada pelos «partidos coletivistas e situacionistas», como destrata o PCP e o Bloco. Ou seja: ‘anda por aí’… 

Fukuyama falava de ‘raiva’ e ‘vergonha’ como sendo «os drivers para envolver as pessoas na política».

Mas a vergonha é algo que não faz parte do ADN de muito boa gente, e o PS é um exemplo disso. Atuou como se não tivesse a menor responsabilidade no ‘aperto de cinto’ imposto pela troika para tirar o país da bancarrota em 2011 – e tinha toda; explorou o ressentimento como se lhe fosse estranho; fingiu que virava a ‘página da austeridade’ e deixou-a no mesmo sítio ou pior; e não se importa de sacrificar princípios desde que sirva para ‘salvar a pele’. É urgente a oposição. Mas, como está, sem uma aliança não vai longe...