Politica

Quem é o aselha dentro do PSD?

Salvador Malheiro voltou a atacar os críticos e é acusado de promover cisões. A discussão começou com o vice de Rio a acusar Campos Ferreira de ‘falta de ética e lealdade ao PSD’.

O vice-presidente do PSD, Salvador Malheiro, utiliza o Twitter com frequência e tanto ataca o Governo como os colegas de partido que não alinham com a direção. O vice de Rui Rio acabou o ano agastado com as críticas feitas por Luís Campos Ferreira e respondeu-lhe nas redes sociais promovendo mais uma polémica entre sociais-democratas.
Malheiro não gostou de ouvir Luís Campos Ferreira dizer ao Expresso, poucos dias depois de renunciar ao mandato de deputado, que «se Rio for autenticamente aselha não pode ser candidato a primeiro-ministro».

Campos Ferreira até foi apoiante de Rui Rio nas eleições internas, mas desiludiu-se pelo caminho e lamenta que o partido não tenha conseguido afirmar-se como alternativa ao Governo socialista. O ex-deputado não largou o cargo sem deixar pistas para o futuro e defende que Luís Montenegro é um candidato «muito forte». 

Os críticos de Rio não escondem que se reveem nas palavras de Campos Ferreira. O ex-vice-presidente do grupo parlamentar, Carlos Abreu Amorim, defende que o social-democrata fez  «uma análise lúcida mas desiludida da situação do PSD».

A reação do vice-presidente do PSD também foi rápida. No mesmo dia da entrevista, Salvador Malheiro não evitou o confronto com os críticos e acusou o ex-deputado de «falta de ética e lealdade ao PSD ao qual tudo deve desde 2002», ano em que foi eleito, pela primeira vez, deputado na Assembleia da República. «O que vale é que quem decide as eleições é o povo, e não deputados da Assembleia da República que nas suas terras perdem repetidamente eleições. O aselha não será ele?», acrescentou o autarca de Ovar, que lançou dúvidas sobre as razões que levaram Campos Ferreira a renunciar ao mandato de deputado. «Poderia ter também dito quais as verdadeiras razões porque sai de deputado. Quais serão?», questionou. Campos Ferreira prefere não responder às insinuações do dirigente social-democrata. «Estou fora da política. Fiz o que tinha a fazer até ao último segundo e agora estou fora», garante ao SOL. 

A polémica poderia ter acabado por aqui, mas o presidente da distrital de Setúbal fez questão de se envolver na discussão para acusar a direção de estar a dividir o partido. «Posso ser aselha, mas ainda consigo perceber que uma equipa numa Comissão Política Nacional deve unir e não dividir. Deve motivar e não mandar este tipo de bocas arrogantes e descabidas», escreveu Bruno Vitorino, na sua página do Facebook, acrescentando que «quem diz isto, ou se retrata, ou deixa de ser vice presidente do PSD».

Ao SOL, o líder da distrital de Setúbal explica que tem mantido o silêncio sobre a liderança de Rui Rio, mas não podia deixar de reagir porque a direção do PSD está «a contribuir para dividir o partido». Bruno Vitorino é bastante crítico da situação atual do PSD. Lamenta a falta de debate interno e avisa que é preciso promover uma «reflexão» dentro do partido. «Não podemos ignorar o que ouvimos na rua e os estudos de opinião. Temos de perceber aquilo que nos é transmitido». 

PSD promete não entrar no discurso fácil e populista

A forma como Rui Rio está a fazer oposição ao Governo socialista tem sido alvo de vários ataques dos críticos internos. O PSD colou-se à mensagem de Ano Novo do Presidente da República para explicar, mais uma vez, a estratégia de Rui Rio. «O PSD tem resistido e vai resistir a dizer mal de tudo e de prometer tudo e mais alguma coisa e de entrar no discurso fácil e populista», afirmou André Coelho Lima. A garantia foi dada pelo dirigente social-democrata, numa conferência de imprensa no Porto, depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter alertado para o risco de destruir a democracia com «promessas impossíveis» e «apelos sem realismo».  Do lado do PSD pode contar com «uma oposição séria e responsável».

Críticos juntos na Convenção da Europa e da Liberdade

Alguns dos maiores críticos de Rui Rio vão juntar-se na Convenção da Europa e da Liberdade, que se vai realizar na Culturgest, em Lisboa, nos dias 10 e 11 deste mês. 

Luís Montenegro, Pedro Duarte, Miguel Pinto Luz e Miguel Morgado participam no encontro. O presidente do PSD, Rui Rio, foi convidado, mas não aceitou participar na iniciativa que é vista como uma discussão de ideias para criar uma alternativa à geringonça. Quem não rejeitou o convite foram os lideres do CDS e da Aliança. Assunção Cristas fará o encerramento e Santana Lopes vai falar na abertura do segundo dia da convenção promovida pelo Movimento Europa e Liberdade. 

Participam também o ex-líder do PSD, Luís Marques Mendes, e os ex-presidentes do CDS Paulo Portas e Ribeiro e Castro. 

A conotação desta iniciativa com uma espécie de ‘estados gerais’ da direita levou à desistência de alguns socialistas. Os nomes de António José Seguro e Francisco Assis chegaram a ser anunciados como oradores, mas os dois socialistas declinaram o convite. «Não posso, como é por demais evidente, participar num encontro que passou a ser publicamente anunciado como uma espécie de ‘estados gerais’ do centro-direita, tendo em vista a afirmação de um projeto alternativo de poder. E não posso por razões tão simples quanto inultrapassáveis. Com efeito, não faço parte do centro-direita português e nunca reneguei a minha condição de homem da esquerda democrática e de militante do PS», explicou Francisco Assis, um dos poucos críticos da geringonça dentro do PS.

O Movimento Europa e Liberdade, em resposta ao eurodeputado, garantiu que o encontro encontro não pretende ser os ‘estados-gerais’ da direita. Paulo Carmona reafirma, porém, que nenhum defensor da Europa pode «rever-se num governo apoiado por comunistas, trotskistas, extrema-esquerda e novos oportunistas da situação, o que não quer dizer que não se reveja num governo PS sozinho, ou apoiado por forças europeias e progressistas, como está nos genes do partido fundado por Mário Soares».