Sociedade

Morreu "Mata-sete", o serial killer português do massacre do Osso da Baleia

Morreu, aos 69 anos, o serial killer que ficou conhecido como “Mata-Sete”, na sequência do massacre do Osso da Baleia. Foi na ilha francesa da Córsega, onde vivia há 16 anos, que Vítor Jorge morreu em circunstâncias ainda por apurar.

Tinha 69 anos, e vivia há 16 na Córsega, após ter cumprido apenas 14 de uma pena de 20 anos, a máxima na altura em que foi condenado. Foi libertado em outubro de 2001, por bom comportamento. Andou uns tempos por Inglaterra, tendo visitado o filho, que segundo escreveu no diário, antes dos crimes, quis poupar “para que a semente do mal possa perdurar”. Voltava a Portugal todos os anos, para passar o mês de agosto, andou por Nice, mas foi naquela ilha francesa conhecida como o berço de Napoleão que passou os últimos anos. Chegou a ter uma companheira, Christine, quase 30 anos mais nova, e foi vivendo do que lhe aparecia; entre biscates, fez limpezas no aeroporto de Córsega, deu serventia a pedreiros... Morreu com pouco mais em seu nome do que os crimes que cometeu na noite de 1 para 2 de março de 1987. E se o nome Vítor Jorge é banal, a alcunha “Mata-Sete” persistirá, como um arrepio que desperta a lembrança do dia em que, a sangue frio, tirou a vida a sete pessoas à facada, a tiro e à paulada. Entre elas a mulher e a filha mais velha, ainda adolescente. Até àquele dia, Portugal não tinha, na sua história recente, outro episódio que lhe tirasse o sono como aquele.

Seriam precisas semanas para que se fixassem com exatidão os contornos do brutal crime que fez os primeiros títulos de jornais na manhã do dia 4, depois dos corpos de quatro jovens terem sido descobertos na Praia do Osso da Baleia, em Pombal – o quinto cadáver só daria à costa dias mais tarde. Antes, e não muito longe dali, a 2,5 quilómetros da casa do homicida, na aldeia de Amieira, tinham sido encontrados os corpos da mulher e da filha no pinhal de Leiria. Vítor Jorge tentara ainda matar a segunda filha, Sandra. Mas ao ser levado ao local, e vendo a mãe e a irmã – esta ainda respirando depois de cinco facadas, o mesmo número de golpes que a mãe sofreu pelas costas – pediu ao pai que a ajudasse, implorou-lhe pela vida, ofereceu resistência, e conseguiu escapar, alertando a vizinhança.

O serial killer português será sepultado naquela ilha francesa. Quanto ao funeral, só deverá realizar-se na próxima semana, pois a marcação está ainda dependente de procedimentos burocráticos. Isabel Jorge, a prima que o acolheu em França, disse ao “Correio da Manhã” que os papéis precisam de ser assinados pelos dois filhos. Sandra continua a viver na Marinha Grande, já Manuel vive em Inglaterra. Ela tinha 14 anos e ele 10 na fatídica madrugada em que o pai cometeu os crimes. Ela foi atraída por Vítor ao pinhal, dizendo-lhe que precisava de ajuda pois tinha atropelado alguém – a mesma desculpa que usara com a mulher, Carminda, e a filha Anabela. Já o filho não deu por nada. Foi encontrado na cama, a dormir, com uma avultada soma de dinheiro em notas. Entre a centena de páginas do diário onde “Mata-Sete” fazia promessas aos seus demónios, lia-se o seguinte plano: “Vou então tentar assassinar de uma forma brutal mais duas ou três raparigas e em seguida as milhas filhas. Porquê liquidar as minhas filhas? Para que não sejam pasto dos prazeres dos carniceiros que por aí vagueiam, e como Anabela se relaciona com qualquer um que lhe aparece, sem se importar com sua origem ou estado civil, é uma forma de a ‘poupar’ a desgostos e choques no futuro. Tentar não matar, mas ferir fortemente a minha mulher (para que ela sinta bem na alma o peso da recordação) e poupar o meu filho para que a semente do mal possa perdurar.”

Segundo a prima, além de ter problemas cardíacos, Vítor tinha um cancro no estômago, e foi isso o que o matou, mas amigos atuais ouvidos pelo “Correio da Manhã” garantem que ele terá finalmente conseguido pôr fim à vida. Era sabido que já o tinha tentado em outras 13 ocasiões, fosse recorrendo a medicamentos ou ao gás. Deverá ter morrido ainda na noite de 29 de dezembro mas, porque vivia sozinho, só foi encontrado na segunda-feira, dia 31.

Além de toda a perturbação e sofrimento, da sua tão mal contada biografia noturna, das muitas agruras que passou na infância, vendo a mãe trocar de companheiros e prostituir-se à sua frente, Vítor nunca aceitou o facto de também a mulher ter sido vítima de abusos, e de só ter sabido que não era virgem já tarde, quando já se sentia demasiado envolvido. Era um homem consumido não só por noções de pureza, como, e por contraste, pelos vícios da sociedade, pela corrupção moral e sexual, e nos seus escritos é notório o quanto o obcecava a ideia de que as filhas, iniciando a sua vida sexual, se vissem arrastadas para esse abismo. Terá procurado ajuda especializada, ou até junto de um padre, mas queixava-se de que não fizeram caso das suas aflições. Embora fosse visto pelos vizinhos como um homem pacato, eram conhecidas as discussões violentas com a mulher, e no diário assume que lhe batia, segundo ele, em resposta às constantes provocações de Carminda. Contínuo e cobrador da agência do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa na agência da Marinha Grande, sentia-se humilhado pelos colegas, e especialmente pelo gerente, que constava na lista das pessoas que planeava matar. Era ainda fotógrafo de casamentos e batizados nas horas vagas, e o massacre ocorreu no seguimento da festa de anos que fora contratado, a de Leonor Tomás, de 24 anos. Empregada de limpeza no Hospital Universitário de Coimbra, tê-la-á conhecido numa outra festa, um batizado em Pombal onde os seus serviços de fotógrafo foram contratados. Depois disso, os dois encontraram-se algumas vezes e terão mantido uma relação romântica.

Se faltava ainda uma pressão no gatilho para lançar Vítor na espiral de violência que há muito vinha prometendo, terá sido a mágoa de saber que a única mulher que confessa ter amado apenas brincava com ele. Aparentemente, Leonor estava até de casamento marcado com o namorado, José Pacheco, um jovem de 22 anos, aspirante da Força Aérea e que se tornaria uma das vítimas do massacre na Praia do Osso da Baleia. Não se sabe se Leonor chamou Vítor para fotografar a festa como um favor ou se o fez para provocá-lo, mas este aceitou a proposta, e, além do material fotográfico, na mala da sua carrinha, uma Renault 4 L branca, levou uma caçadeira e uma faca de mato. Depois esperou que as pessoas fossem deixando a festa, e, no fim, eram apenas seis. Com 38 anos, ele era de longe o mais velho, e ofereceu boleia aos restantes. Os cinco que convenceu a irem até à praia e que ali foram mortos ao tiro e à paulada. Quando a GNR chegou à praia, encontrou um pedaço de cartão junto ao corpo de Leonor. “Isto foi porque tu quiseste”, lia-se de um lado. Do outro dizia: “Os outros foram por arrastamento”.