Internacional

Michelle Bolsonaro. O elo evangélico do Presidente brasileiro

Que Michelle Bolsonaro tivesse discursado primeiro que o Presidente do Brasil na tomada de posse, quebrando o protocolo, e dando importância à língua gestual, diz muito do poder da primeira-dama sobre Jair Bolsonaro. Fervorosa crente evangélica, que todos os domingos interpreta os sermões para os deficientes auditivos, quer ser mais do que ‘bela, recatada e do lar’, como a sua antecessora.

 

Para o pastor José Valandro Jr., líder da Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro, o momento define-se assim: «Nós estamos vivendo um sonho que é ver um Presidente que tem temor a Deus. É uma emoção um homem que fala de Deus, que pede uma oração na diplomação, uma leitura da Bíblia. Nunca aconteceu isso na história do Brasil.» Desconhecido para muitos milhões de brasileiros, teve direito a convite pessoal para assistir à tomada de posse do Presidente Jair Bolsonaro por ser o pastor da igreja frequentada pelo chefe de Estado e pela primeira-dama, Michelle de Paula Bolsonaro.

Fervorosa evangélica, foi Michelle quem levou Bolsonaro a deixar de ser católico, a casar, em 2013, numa cerimónia evangélica presidida por um dos mais conhecidos pastores evangélicos brasileiros, Silas Mafaia, a ser batizado em 2016, na altura da votação do impeachment de Dilma Rousseff, no rio Jordão, em Israel, por outra conhecida figura evangélica brasileira, o pastor Everaldo, líder do Partido Social Cristão.

Numa altura em que o peso do eleitorado evangélico cresce a olhos vistos no Brasil (no último censo, realizado em 2010, a percentagem de inquiridos que se afirmava evangélico era de 22%, mas acredita-se que a percentagem já ande pelos 30% nesta altura). Como dizia, em junho, ao SOL Lamia Oualalou, jornalista franco-marroquina que trabalhou como correspondente no Brasil durante mais de uma década e escreveu um livro sobre o fenómeno, «está em curso uma revolução conservadora no Brasil», e nunca como nesta última eleição presidencial isso se refletiu tanto nas urnas. E a chave para Bolsonaro conquistar esse voto foi Michelle.

Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro, nascida em Ceilândia, Brasília, em 1980, conheceu Jair Bolsonaro quando era secretária parlamentar na Câmara dos Deputados, tinha ela 26 anos e uma filha de uma anterior relação. O deputado federal, de 51 anos, chegou a contratá-la para o seu gabinete no Congresso, mas teve de a despedir depois do Supremo Tribunal Federal ter vedado o nepotismo. Nove dias após ser contratada, os dois assinavam um pacto pré-nupcial, dois meses depois casavam-se no civil.

Casado e divorciado duas vezes, com filhos dos anteriores casamentos, Jair Bolsonaro reverteu uma vasectomia a pedido de Michelle e converteu-se à fé evangélica para voltar a casar pela igreja, desta vez outra que não a católica, na Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Malafaia, que a sua mulher então frequentava. O mesmo Silas Malafaia, citado pelo G1, diz que a primeira-dama «gosta de trabalhar nos bastidores». Que é dura na educação das duas filhas e que o próprio Jair Bolsonaro «nem se mete, com medo». «Ela já deixou bem claro: ‘o espaço da casa é meu, quem manda aqui sou eu’», afirmou a deputada do PSL Joice Hasselmann no Jornal Nacional da Globo.

O próprio presidente disse dela num tempo de antena dedicado às pessoas com deficiência, que é «uma mulher forte e sensível, dedicada à causa das pessoas com deficiência». Daí que o seu discurso em língua gestual na cerimónia da tomada de posse, rompendo o protocolo, falando primeiro que o Presidente, seja simbólico. A plateia até podia ser maior do que o costume, mas passar as palavras para a língua gestual é algo que a primeira-dama faz há anos, todos os domingos, traduzindo os sermões do pastor José Valandro Jr. para os crentes que não podem ouvir as palavras.

«Michelle é uma mulher muito segura, muito pé no chão. Ela está vivendo esse momento, mas, ao mesmo tempo, está guardando muita coisa no coração. Ela está muito em paz e com muitos sonhos de ajudar, com sua influência, aqueles que mais precisam nesse país. O coração da Michelle é um coração de ação social, solidariedade e generosidade», referiu Valandro Jr.

Se a ex-primeira-dama Marcela Temer foi considerada pela Veja como «bela, recatada e do lar», Michelle quer participar «de todos os projetos sociais possíveis» e a forma como roubou protagonismo no dia da tomada de posse mostra que está disposta a ter uma presença menos discreta e mais interventiva.