Biblioteca Pessoal

Os dez livros que mais gostei de ler em 2018

Ao meu lado ergue-se uma pequena torre com quase meio metro de altura - uma seleção dos dez livros publicados em 2018 que mais gostei de ler. A imponência da pilha só é superada pela substância do conteúdo. Começaria por um livro um pouco improvável - mas lá está, se só escolhesse os óbvios não teria piada nenhuma: Preparação do Ator, de Stanislávski. Pelo título, dir-se-ia interessar apenas aos profissionais da representação; na realidade, trata-se de um misto de diário e memórias sobre a expressão e até a vivência das mais variadas emoções - a surpresa, a paixão, o medo, a ira, etc. Stanislávski - um homem que dedicou a sua vida e a sua fortuna ao teatro - escreveu não apenas um manual para os atores, mas uma verdadeira lição de vida.

Continuando no género memorialista, passaria a Uma Odisseia. Aqui, Daniel Mendelsohn, professor de literatura clássica, entretece admiravelmente as aventuras e desventuras de Ulisses com a história da sua relação com o pai que, inopinadamente, já perto do fim da vida quis participar como aluno num dos cursos lecionados pelo filho. O resultado é um livro instrutivo e envolvente.

No campo do ensaio, aprendi imenso com Técnica e Civilização, de Lewis Mumford, e vibrei com a leitura de Mulheres Livres, Homens Livres, de Camille Paglia. Já ouvira elogios entusiásticos à autora, mas lê-la foi um autêntico bálsamo e a prova reconfortante de que há quem ainda mantenha intacta a lucidez nesta época de histeria.

No capítulo das biografias, Estrela Solitária, de Ruy Castro, brilhou talvez acima de todas as outras. Não só conta uma história com todos os ingredientes que se poderia desejar - o talento, a fama, a glória, a decadência e a agonia de Garrincha, um dos mais geniais jogadores de todos os tempos - como o autor o faz de uma forma soberba.

As Farpas de Eça, editadas já para o final do ano, constituíram outro dos pontos altos. Citando uma passagem d’A Cidade e as Serras, há páginas tão geniais que apetece dar pequenos estalinhos de prazer.

Termino com quatro livros menos leves, mas excelentes para a compreensão do século XX e mesmo do nosso tempo. Três deles são biografias: Gandhi - Fotobiografia, de Pramod Kapoor. Embora já conhecesse relativamente bem a vida extraordinária deste homem, voltei a maravilhar-me com as suas conquistas e, sobretudo, com o seu exemplo. Outra figura por quem tenho uma admiração quase ilimitada é o repórter e escritor polaco Ryszard Kapuscinski. A biografia do seu amigo Artur Domoslawski faz-lhe justiça e, de raspão, o leitor vai também acompanhando o processo de descolonização no mundo, que Kapuscinski tão bem retratou nos seus livros.

Gorbachov - A Biografia, por seu turno, retrata de forma magnífica a vida do político e a queda da União Soviética. Termino com Continente Dividido, o segundo volume da história da Europa no século XX de Ian Kershaw. O historiador britânico faz uma síntese notável da segunda metade do século passado e termina com um ponto de situação que é, no fundo, uma lição magistral sobre este nosso tempo.