Internacional

Democracia britânica sofrerá "dano catastrófico" se a vontade do referendo não for respeitada, diz May

O parlamento britânico votará amanhã o acordo negociado entre Londres e Bruxelas para a saída do Reino Unido da União Europeia

Numa última tentativa antes de o acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia ser votado amanhã na Câmara dos Comuns, a primeira-ministra britânica, Theresa May, alertou os deputados para o risco o chumbo do acordo representará para o futuro do Reino Unido ao dizer que a confiança na política nacional sofrerá um "dano catastrófico" se a vontade popular do referendo de 2016 não for respeitada. 

"E se nos encontrássemos numa posição em que o parlamento tenta retirar o Reino Unido da União Europeia em oposição ao voto de permanecer?", questionou a primeira-ministra. "A fé do povo no processo democrático e nos seus políticos sofreria um dano catastrófico. Todos temos o dever de implementar o resultado do referendo", relembrou. 

Em 1997 realizou-se um referendo sobre a criação de um parlamento regional e o 'sim' ganhou por uma margem de 0,3% dos votos. Ambos os lados aceitaram o referendo, mas May decidiu votar contra o resultado da consulta popular na Câmara dos Comuns. E, em 2005, o programa eleitoral do Partido Conservador, apoiado por May, prometia um novo referendo sobre o assunto para "manter a assembleia na sua atual forma, aumentar os seus poderes ou aboli-la". 

Desde que tomou posse como primeira-ministra, depois de David Cameron se ter demitido no seguimento da derrota do 'não' no referendo por si convocado, que May tem repetido não ter a intenção de desrespeitar o resultado da consulta popular, ora recusando um cenário de permanência na União Europeia ora recusando a realização de um segundo referendo. 

"Como temos visto nas últimas semanas, há alguns em Westminster que gostariam de atrasar ou mesmo travar o Brexit e que usarão todos os meios disponíveis para isso", disse May a trabalhadores de uma fábrica, referindo acreditar que um bloqueio do Brexit é mais provável que um cenário de saída sem acordo. 

Espera-se que, se for votado, o acordo negociado pelo governo de May com Bruxelas seja rejeitado por uma maioria dos deputados, com conservadores e unionistas do Partido Unionista Democrático do a aliarem-se às bancadas dos partidos da oposição, principalmente à do Partido Trabalhista. Espera-se que cerca de 100 deputados conservadores e 10 deputados unionistas se unam ao partido liderado por Jeremy Corbyn.

Um cenário que tem levado Bruxelas a ultimar planos para os vários cenários possíveis, nomeadamente a do acordo ser chumbado e até ao da realização de um segundo referendo. Neste sentido, Bruxelas aguarda por uma carta de May a pedir a extensão do prazo de saída, agendada para 29 de março, para que o preisdente do Conselho Europeu, Donald Tusk, possa convocar uma cimeira europeia extraordinária para analisar a questão em conjunto com os demais líderes europeus. 

"Caso a primeira-ministra se mantenha e nos informe que necessita de mais tempo para convencer o parlamento sobre o acordo, ofereceremos uma extensão técnica até julho", afirmou uma fonte europeia ao "Guardian". "Peço aos deputados que ponderem as consequências das suas ações sobre a fé do povo britânico na nossa democracia". 

Também é possível que May decida abandonar o executivo, levando à sua queda e à convocação de eleições antecipadas, a que se soma também a possibilidade de um segundo referendo. Independentemente do cenário, faltam pouco menos de três meses até à data de saída, obrigando a uma extensão do prazo se se quiser evitar uma saída sem acordo, permitindo a realização de eleições antecipadas ou um segundo referendo.