Internacional

Espanha. Líder do PP com a extrema-direita

PP quer fazer do seu acordo andaluz com o Vox modelo para as próximas eleições. Sondagens dão maioria à direita.

Há um novo otimismo entre as hostes do Partido Popular (PP), O partido aspira a recuperar muito do poder local que perdeu nas eleições autonómicas de 2015, como ponto de partida para o regresso ao Governo de Espanha. O plano passa por estabelecer em outras comunidades acordos semelhantes ao assinado esta semana na Andaluzia com o Vox.

Este partido de extrema-direita, criado apenas há cinco anos, elegeu 12 deputados regionais e irá apoiar uma coligação entre o PP e o Ciudadanos para o governo da Andaluzia. «É o preâmbulo do que se vai passar em maio», declarou o líder dos populares, Pablo Casado, referindo-se às eleições autonómicas espanholas.

Com esta nova política de alianças, o PP pretende recuperar o poder na Comunidade Valenciana, em Aragão, Castela-Mancha, Cantábria e Baleares. Além disso, poderá ter de fazer o mesmo para se manter no poder em Madrid, La Rioja, Múrcia e Castela-Leão.

Na Andaluzia, os populares conseguiram a investidura de Juan Manuel Moreno como presidente da Andaluzia, assinando um acordo com o Vox sem as medidas mais controversas do partido da extrema-direita, como a revogação das leis de proteção das mulheres. Mesmo assim, houve uma radicalização do discurso do partido, num projeto visto pelo líder do PP como início da «renovação nacional».

Uma renovação que, curiosamente, começa sob a liderança regional de um político que estava a prazo, perdeu votos nas eleições autonómicas, mas ganha assim um segundo fôlego por via da extrema-direita.

O PP foi hegemónico na direita espanhola desde a década de 1990 até o seu eleitorado começar a fugir primeiro para a abstenção, depois para novas formações políticas à sua direita, como o Ciudadanos primeiro e agora o Vox.

A perda de votos para o Ciudadanos pode ser explicada pela exasperação dos eleitores mais liberais, que pretendiam uma direita menos conservadora, mais moderna e ‘desempoeirada’. O Ciudadanos surgiu como um movimento de cidadãos, afirmou inicialmente não ser de direita nem de esquerda, mostra-se mais liberal em questões económicas e menos conservador em matéria de costumes.

Mariano Rajoy, da tradição conservadora galega, a mesma de Franco, mas mais de Fraga Iribarne, que foi ministro da Comunicação na ditadura e depois presidente galego, antecessor de  Casado, conduziu o partido à sua maior vitória nas eleições de 2011, mas acabou por sofrer o desgaste do poder e do seu eleitorado.

O partido foi perdendo eleitores aos milhares, sobretudo para a abstenção – 53% do voto do Vox vem de quem se absteve nas eleições de 2016, tendo 46,7% sido transferido diretamente do Ciudadanos e do PP, de acordo com uma sondagem do La Razón.

Com este acordo com o Vox, o PP afirma-se como eixo fundamental de articulação entre a direita moderna do Ciudadanos e a direita saudosista do franquismo do Vox, que juntamente com o PP já somam entre si mais de 51% das intenções de voto nas eleições nacionais, segundo as sondagens. Pablo Casado, tem insistido nesta ideia, afirmando: «Só nós somos capazes de negociar, sem ceder no essencial, manter os nossos princípios e valores, sem que nada nos marque a agenda».

No entanto, notou-se no líder do PP algum desgaste por causa da negociação com a extrema-direita, tendo o líder insistido em reforçar, em conferência de imprensa, que o PP não é um partido radical, mas «de centro» e «moderado», apesar do acordo.

Setores do partido já vieram expressar preocupação com essa inclinação para o extremo, tendo um membro do partido. Como disse um membro do PP, citado pelo El Mundo: «As coisas, em  política, funcionam por inércia, e parece que o Vox agora marca a agenda. Isso tem de ser combatido, porque de outro modo acabaremos por dizer coisas que não pensamos. Se fazemos o que faz o Vox, os eleitores votarão no Vox».

Para além da crítica interna, um novo obstáculo aos planos de Casado é o facto de ainda não ser claro que o Ciudadanos esteja disposto a negociar a três, com PP e Vox, qualquer acordo eleitoral autonómico ou nacional. Pode ser que o partido de Albert Rivera opte mesmo por se aliar ao PSOE.

Na Andaluzia, o Ciudadanos mostrou-se sempre reticente a acordos com o Vox, e recusou-se mesmo a participar nas conversações com o partido de extrema-direita, deixando esse desgaste para o PP, limitando-se a exigir ficar com a vice-presidência do Governo autonómico.

Manuel Valls, ex-primeiro-ministro francês e candidato do Ciudadanos à Câmara de Barcelona, já tinha pedido um «cordão sanitário» à volta da Vox. E o partido do Presidente francês, Emmanuel Macron, que tem uma aliança europeia com o Ciudadanos, veio dizer, pela voz da ministra francesa dos Assuntos Europeus, Nathalie Loiseau, que «não pode haver compromisso com um partido de extrema-direita».