Cultura

Salvador Martinha. ‘Tenho um humor cínico mas a expressão é fofinha’

A cabeça de Salvador Martinha pode estar ausente a tirar notas mentais sobre tudo e sobre nada mas défice de atenção é um mal que não o assiste. No novo espetáculo, o humorista desafia os medos e supera-os como um jogador a superar níveis de um videojogo. Até que chegue a prova final. Vencer a adição ao carinho e acabar com a brincadeira. 

Um dos temas centrais do espetáculo ‘Cabeça Ausente’ é o medo. Que medo é este?

Porque é que pus o medo na sinopse? Porque tive medo de falar na maioria destes temas. Estava todos os dias a atuar no [Cinema] S. Jorge e ia tirando notas. Tinha uma pasta quase a dizer top secret com os temas mais arrojados. Que me custavam mais. Às vezes estou muito confortável com um tema e, durante a digressão, há temas que antes de abordar tenho de (inspira profundamente). Custam. São temas com que não estou totalmente confortável. E aí entra a coragem. 

Por exemplo. 

Fiz agora dois espetáculos no Salão Preto e Prata (Casino Estoril) e correram muito bem. Fiz uma pequena introdução porque o palco era muito grande e aquilo era feito para La Férias e bailarinas. Disse que precisava da ajuda do público, que eles seriam os meus tambores, e que se fizesse uma piada muito boa, para me darem dinheiro. A meio do espetáculo, houve um senhor que atravessou a sala e me deu dinheiro. E e eu sei porquê, porque é um tipo de pensamento que geralmente está na base das boas piadas, que é o ser o primeiro a pensar nelas. Ou o «isso também se passa comigo só que nunca niguém diz». Isso tem uma força enorme. Como o escritor que consegue pôr coisas que nós pensamos no papel. A piada tem a ver com o que pensamos das namoradas dos nossos amigos. É um tema tabu. Consegues dar uma opinião cem por cento sincera aos teus amigos sobre as namoradas? Não podes. É lápis azul. E é sempre a piada mais polémica. Alguns amigos disseram-me: «acho que naquela piada abusaste um bocado». Eu percebo, tem a ver com as namoradas deles. É preciso coragem para trazer esses temas cá fora.   

Coragem para censurar o lápis azul?

Sim. Em Portugal, não existe muito lápis azul. O maior lápis azul é a nossa própria cabeça. Não é um senhor que diga, por telefone vermelho, que não se pode dizer aquela piada. É o moralismo da sociedade. Muitas vezes, falta-lhe sentido de humor. Portugal tem muito sentido de humor às vezes, mas noutras é um país de chatos. Ainda agora se viu na história da Cristina Ferreira. O Obama entrou numa convenção nuclear de skate e é o maior. O Marcelo quis ser divertido, ligou para a Cristina Ferreira, que na verdade foi uma chamada para três milhões de velhinhas, e deram-lhe logo na cabeça. Viver neste país faz com que muitas vezes te auto-censures.

Construir um percurso é perder essas barreiras ou a liberdade é maior quando se começa do zero? 

Nos primeiros anos há sempre uma vontade de agradar. Quando já estamos mais cimentados, ganhas a responsabilidade de ser mais corajoso. Durante alguns anos, os espetáculos podiam ser para toda a família. Agora, está na altura de arriscar mais, já que no banco tenho um tesouro de público. Isso dá-me a responsabilidade de ser mais corajoso. Este tema é desconfortável? Então, vamos a isso. Durante muitos anos, fazia piadas sobre pitas, sair à noite e o Urban. Já não posso estar aí. Isso agora está com os mais novos. Larguei essa pasta há três ou quatro anos. Tenho que partir para outra. As pessoas vão-te acompanhando porque veem o teu esforço em mudar e trazer coisas novas para a mesa. Não posso estar sempre no mesmo comprimento de onda. Seria preguiçoso. 

Tens temas proibidos?

Neste momento não tenho temas proibidos. Este espetáculo, em relação a todos os outros, vira uma página em tentar arriscar em temas inesperados para as pessoas. Tem raciocínios marados. Podia ser um serial killer na cadeia a dar uma entrevista à Oprah. 

Onde é que sugas a informação?

Sou muito esponja. O Herman José dizia que era uma esponja e sempre gostei dessa definição. Se estiver um dia inteiro fora de casa com pessoas, fico exausto. Não consigo estar normalmente num sítio. Tendo a converter tudo em raciocínio humorístico. Absorvo sempre tudo, leio, tenho informação exagerada na cabeça...até curtia limpar. Por exemplo, eu sei a música da Vaca que Ri de cor. Quero eu saber isso? Até me pode dar jeito, um dia usei isso num segmento de piadas sobre vacas, mas a resposta é não.

A inutilidade pode ser reciclada em matéria-prima.

É isso mas onde é que está essa linha? Não sei. Sei que tenho muita informação inútil mas gosto muito mais dessa informação do que da útil. 

Porquê?

Não me dá tanta pica. É o que me desmotiva um pouco no humor político. Não me dá tanto gozo fazer humor com coisas que já têm um grande potencial cómico. Por exemplo, Trump não me diz nada. 

Ele já é uma piada em si?

Já tem o potencial cómico. É muito mais fixe dares-me uma caneta e pedires-me cinco minutos de piada. Esse sempre foi o humor que me atraiu. «Esta caneta não tem graça. Ai não tem? Então vamos ver». Gosto de procurar o humor nos ângulos mortos. O maior elogio que me podem fazer é «como é que te foste lembrar disso?». Ser o primeiro a lembrar-me de determinado tema.

Como é que observas a questão do Louis C.K em que as virtudes públicas são derrotadas pelos vícios privados?

É tramado. As pessoas não podem esperar que um humorista seja um político. Um humorista tem de ser sujo. Não pode ser uma pessoa com dentes brancos, correto, que acorda de manhã e faz jogging. Tem família e está tudo perfeito. Não. As pessoas não procuram no humor um copo de leite. Agora, aí é a história de uma pessoa que entrou no campo do predador sexual. E com a dimensão dele, a má fama é gigante. Isso altera o bom trabalho que ele fez? Não. Tens realizadores que estiveram com miúdas de 15 anos. Olha o Woody Allen. Está tudo bem com ele, não é? Como é que ele passou entre os pingos da chuva? Para mim, é tão grave como o Louis C.K. 

Um humorista não pode ser impoluto?

Não pode. Agora, imagina que isso se passava comigo em Portugal. Estava tramado. Às vezes, até penso no que fiz no passado, nas minhas noites do Urban Beach (ri-se). Acreditas que cheguei a pensar nisso? Fiz um exame à minha vida do que me podia comprometer. E, felizmente, estou limpo, mas é muito fácil surgirem histórias mal contadas. O [caso do] Louis C.K. faz-me pensar na fragilidade em que estamos. Pode vir uma maluca dizer: «em 2003, à saída do Lux, ele estava com um grupo de amigos bêbedo e apalpou-me. Eu disse para estar quieto e ele insistiu». Não me lembro de ter feito nada isto mas é uma fragilidade muito grande. «Xi, o Salvador é um predador». E o que é que é bizarro nisto? Os humoristas são os primeiros a bater nestas coisas. O José Carlos Pereira tem a fama que tem. Está sempre a levar na cabeça. Para o Louis C.K. foi um game changing. É o José Carlos Pereira deles. Agora, será que ele vai conseguir dar a volta? Estou muito curioso. Agora, a personalidade de um humorista é importante. Tens de te identificar com ele. 

O que é que deixaste de ser para seguires a vida de humorista?

Ia ser o óbvio. Estava a tirar um curso de marketing e publicidade, e muito provavelmente ia parar a uma agência de publicidade. Curiosamente, passados tantos anos interessa-me esse lado. Gostava de ser consultor de agências de publicidade. Se estivessem com excesso de trabalho, as agências podiam fazer um outsourcing e chamar-me como consultor. Facilmente, podia desempenhar campanhas de humor. É a minha especialidade e é algo que me vejo a fazer. Já fiz vários anúncios e o que é que as agências dizem? «Oh Salvador, está à vontade para dar os seus inputs». O que é que as agências estão a dizer? Salvador, faça você o nosso trabalho. Isso tem um lado bonito que é o respeito das agências pela criatividade dos humoristas. 

Eras o rapaz que estava sempre a contar piadas?

Era macaqueiro. Fui uma criança muito alegre e na adolescência fiquei tímido. Não te sei explicar o que aconteceu. E o humor aparece com o medo. Ainda hoje sou assim. Às vezes tenho vergonha de ir a uma loja. Esse medo sempre me acompanhou. 

O humor para vencer o medo?

Sim. O humor é uma manipulação do tempo. Se eu já sei o que vou dizer à senhora da loja, já estou a vencer o medo. Tornei-me muito bicho do mato, passo muito em casa a escrever e ver séries. Já não tenho o hábito de estar na rua. Sabes aqueles gajos que nunca saiem do bairro? Sou eu. Vou sair à noite e já tenho vergonha. Depois, as pessoas esperam que seja engraçado e fico tímido. Muitos amigos me dizem que mudei muito a minha postura na noite. Já fui muito mais arruaceiro. Agora, fico a um canto.

Como é que constróis a relação com a sociedade no dia a dia?

A minha relação é de observador. E já como se não pertencesse à sociedade. Já não sei bem estar. É muito chato. Posso esperar por um amigo meu para entrar numa loja. 

A solidão é o teu conforto?

Ui, a solidão. Adoro a solidão. É a minha lareira. Adoro estar sozinho porque a minha vida é muito bizarra. Repara: estou sempre sozinho mas quando não estou sozinho estou a atuar para mil pessoas. E depois de estar com muitas pessoas, o que é que me apetece? Não estar com pessoas. Ainda estou a descobrir a maneira porque de três em três dias estou a trabalhar e nos outros quero estar sozinho. 

Guardas uma distância de segurança entre a pessoa e o humorista?

Gostava de conseguir esbater isso. O meu ideal é: «toma o meu telemóvel. Podes ver tudo o que quiseres». Interessa-me explorar o lado secreto que esconde medos e inseguranças. «O que é que fazes com o teu telemóvel? Quais são as tuas pesquisas». Não é o lado Kardashian, secreto mas superficial, em que tudo é meio fake. Como é que elas são sem maquilhagem? Não há isso. Gosto de ter a ficha limpa, podes ver tudo. Nesse aspeto, não gostava de ser o Louis C.K. Se a minha miúda ou a minha namorada forem ao meu telefone, podem ver tudo. Não tenho nada que me comprometa, porque falo das coisas muito abertamente. Às vezes, até arrisco demais. Muitas pessoas perguntam-me: «não tens medo de te expor demais?». Interessa-me que esse lado secreto não exista.  


Fotografia de Mafalda Gomes

Secreto e sombrio?

Exatamente. Desmistificar esse lado sombrio. Estou triste? Falar disso. Ansiedade? Sim. Os homens veem pornografia? Sim, falar sobre isso. 

Como é que se gere isso com uma filha?

Ela ainda não sabe (ri-se). A minha filha tem três anos. Ainda não está bem a par. Já estou a lidar com a minha mulher e dou-lhe um ganda props. Também só ouve de dez em dez episódios (do podcast) o que é bom. Quando és honesto, e felizmente não sou um predador sexual, isso permite arriscar mais. Sou uma pessoa limpa por dentro. Acho que não sou mau gajo, por isso consigo revelar mais facilmente esse lado sombrio. Estou a cantar um bocadinho de galo mas sempre procurei ser uma pessoa honesta e transparente. E agora estou a colher os louros, permite-me arriscar mais. Um político com a ficha limpa tem mais credibilidade para prometer coisas. Um político honesto tem mais confiança para apontar o dedo a políticos corruptos.   

Tens medo de ver salas vazias?

Vamos ver no próximo ano. Este ano arrisquei. Em 2020 vemos. Não sei. Sinto que , este ano, há pessoas que podem vir ver um espetáculo para toda a família e pensar: «aquela piada ali...». Agora, os de que gostamos mais são livros dos artistas  que fazem a cena que lhes apetece fazer. Nunca é o gajo do «se os outros fazem, eu também faço». «O quê, vais fazer homens sem braços? Não, agora o que está a dar é braços completos». Faço aquilo que acho que tenho que fazer. 

E ser cada vez mais transparente?

Essa é a missão. Odiaria ser conhecido como personagem. Não queria ser o George Constanza ou o Kramer do Seinfeld. Imagina o que é seres conhecido na rua por uma coisa que não és. Já viste o quão triste é? Garanto-te que o George Constanza não é feliz. Mesmo em Portugal, podes ter isso. A vida de ator não é para mim. Não me agrada vestir outras peles. Já me deu muito trabalho construir esta personalidade e quero continuar a vestir esta pele. Não vou estar aqui muitos anos. Já tenho quinze anos a fazer isto. Acho que consigo, no mínimo, mais cinco anos a fazer o que quero. Não sou uma pessoa da televisão. Neste momento, todos os meus projetos são completamente livres. Tenho o meu stand up em que sou um dos produtores. Tenho o Sou Menino Para Ir (canal de YouTube) em que sou um dos produtores. Tenho o Ar Livre em que sou produtor, intérprete e autor. Portanto, não tenho chefes. Agrada-me construir esta personalidade e jogo limpo com as pessoas. 

Se essa autonomia falhar, cais sem rede?

Caio. Por isso é que alguns amigos dizem que sou forreta. E eu até sou muito generoso, mas aí o dinheiro tem uma particularidade interessante. Tenho sempre de ter dinheiro para estar três anos à frente. Não sou rico mas tenho dinheiro para estar três anos parado. É fundamental. Se não tiver esse dinheiro para a frente, de repente é: «ui, Salvador está no BB (Big Brother) Famosos». «Ui, Salvador está nas manhãs da TVI». E eu não quero. A partir do momento em que o humorista faz muitas cedências, perde a sua força. Perde a credibilidade. Uma das características fundamentais do humorista é a independência.  

A projeção a cinco anos implica um pensamento sobre o fim.

Sim, faço essas contas. Já há muitos anos que só penso como vou sair daqui. Sei que estou a jogar um jogo - aí sinto-me um personagem de um videojogo - que entrou na vida das pessoas e eu sou um tipo um Super Mario a fazer níveis. Um dia faço o Coliseu, no outro dia faço o Altice (Arena), um dia faço rádio, no outro televisão. Sou um adito a esta vida. Há pessoas que têm a droga, outras têm o álcool mas eu não tenho nada disso. A minha adição é a este jogo com o público, de fazer coisas e receber carinho. Somos viciados em carinho. É uma grande adição e a minha pergunta é: como é que vou sair disto? Sempre disse que ia desaparecer aos quarenta. «Onde é que está o Salvador? O Salvador desapareceu. Não sabes?». Agrada-me muito a ideia de conseguir sair antes da decadência. Nos EUA, um humorista como eu já tinha três casas: em Miami, Nova Iorque e Los Angeles. Já me podia retirar na boa. Em Portugal, é diferente. Há sempre a questão do dinheiro e da sobrevivência. E um artista quando não sabe sair na altura certa, deixa de ser um artista para ser um stalker da vida das pessoas. É o contrário. É o artista que persegue as pessoas. «Olá público, se me pudessem encontrar 45 anos depois estou na Casa do Artista. Venham ver mais um show pela 44.ª vez. Por favor, venham ver-me». Se o artista não se estiver sempre a reinventar, há outras coisas para ver. Agrada-me a ideia de escolher o meu fim e cometer o meu próprio suicídio artístico.  

Isso remete para os mitos do rock.

Sim, agrada-me ser um mito. É uma ideia que tenho desta profissão: é muito importante ser misterioso. E eu tenho consciência do risco deste jogo, porque estou a dizer que quero ser transparente e exponho esse lado doentio e secreto, mas ao mesmo tempo quero preservar um lado misterioso. Acho que um artista fica muito pobre quando perde o mistério. Pagas o bilhete para ver uma pessoas que achas misteriosa. Não pagas para ver uma pessoa de quem já sabes tudo. E que está em todas. Não devemos ir a todas. Não quero ir a todas. 

As redes sociais são inimigas do mistério.

São muito inimigas do mistério. Por isso é que acho que não devemos ir a todas. Eu não vou ao programa da Cristina Ferreira. Não tenho esse lado abutre. Polémica, tourada...não tenho que falar sobre tudo. 

Uma agenda própria.

Sim. A minha agenda é paralela, porque é na mesma linha temporal, mas não interfere nada com a atualidade.

E depois do fim?

Depois, começo a pensar se só se tenho jeito para isto. O sucesso pode ter esse problema, de criar a ideia que só podes fazer isto. Será? Não sei. O que faria sentido seria passar para os bastidores. Posso ter a minha própria agência de management. Posso ser argumentista. Agrada-me a ideia de desaparecer dos holofotes porque não gostava que a minha filha crescesse com um pai famoso. Não é bom para a personalidade de nenhum miúdo ter um pai famoso porque não ajuda à formação da própria personalidade. Até te libertares, és sempre o filho de.

Ser o primeiro e único humorista a ter um espetáculo disponível no Netflix abriu portas?

Não abriu rigorosamente nenhuma porta. Aliás, isto é giro porque o único convite foi do programa do Faustão. Recebi um convite da produção a dizer que gostavam muito que fizesse um quadro no programa do Faustão. E nós: «está bem, vamos lá pela brincadeira. Estamos disponíveis». Até hoje. Deu-me um selo de credibilidade mas não abriu portas. Senti-me muito contente e, ao mesmo tempo, alguma desvalorização por ser em português. Parece que existo num catálogo à parte. Há os espetáculos de stand up de todo o mundo e o mundo não conta para esses por ser português. É um bocado estranho. Sinceramente, até acho que passou um bocado ao lado. A Netflix comprou o espetáculo e não vi ser muito falado. Também não sou eu que vou carregar essa bandeira. As pessoas devem falar do que querem. 

O complexo ‘é português, não gosto’ ainda se nota?

Acho que o tempo tem derrotado isso. Para as pessoas que realmente importam, apoiam-me muito. Pessoas em lugares importantes é que não pensam como o público. Já tentei entrar num teatro e a resposta foi: «não estou a ver aqui Salvador Martinha. Ainda se fosse Louis C.K». Apoiar mais um artista estrangeiro do que português é mentalidade aldeã, e não tenho medo de generalizar. Não sou imune mas custa-me.

Já foste ameaçado?

Já recebi algumas ameaças que depois se diluem no tempo. Não tenho uma pessoa que me persegue há dois anos. Tenho por temporadas. Os haters fazem seasons. Tem a ver com o meu estilo. Tenho um humor cínico mas a expressão é fofinha. Dou facadas com um ar querido.