Cultura

Livrarias. A teimosia Gutenberg no tempo de Bezos

O número de livrarias independentes de rua no Reino Unido aumentou pelo segundo ano consecutivo. As 883 livrarias de 2019 ainda são menos de metade das 1894 que existiam em 1995, mas a travagem do declínio e o ligeiro crescimento parecem mostrar que ‘times they are a changin’, para citar o Nobel da Literatura Bob Dylan.

Os livros estão a morrer, o papel está a morrer, já ninguém lê a não ser nos telemóveis, nos computadores, nos kinders, em suma, a cultura ocidental está a ir toda para o brejo. E afinal, as notícias que nos chegam do Reino Unido parecem mostrar exatamente o contrário. Depois de mais de 20 anos de declínio, o número de livrarias independentes de rua subiu pelo segundo ano consecutivo. Se em 2017, o acréscimo foi de apenas mais uma loja de livros, em 2018 tivemos um  salto de 15 novas livrarias. Não é razão para grandes festas de champanhe com O Grande Gatsby debaixo do braço, até porque o número (883) ainda é menos de metade das que existiam em 1995 (1894), mesmo assim é uma inversão de tendência, uma travagem no declínio.

«É extremamente encorajador ver as livrarias independentes a terem sucesso em 2018, demonstrando a criatividade dos livreiros face aos desafios difíceis», afirmou Meryl Halls, diretora executiva da Bookseller Association, a APEL britânica que foi quem divulgou os encorajadores resultados. «Estamos satisfeitos  e orgulhosos pelo nossos incríveis e empenhados livreiros», acrescentou.

«As livrarias independentes são importantes porque somos um refúgio e estamos totalmente contra a que tudo se torne igual», disse ao Guardian Daniel Ross que, em outubro, abriu com a mulher a livraria Storysmith no sul de Bristol. «Decidimos abrir porque acreditamos na venda de livros como função essencial de uma comunidade e em verdadeiras livrarias que inspiram vidas inteiras de amor pela leitura», acrescentou.

As margens dos livros estão menores, fruto das tiragens mais pequenas dos livros, dos preços espremidas pela concorrência de gigantes como a Amazon ou das grandes cadeias de centros comerciais, mas os tempos parecem ter mudado e as pessoas começam a valorizar de novo numa pequena livraria aquilo que as grandes superfícies comerciais não lhes trazem, experiência, atendimento personalizado, conhecimentos - a sabedoria de transmitir um rumo por entre montanhas mágicas de papel.

Os sinais de que as coisas parecem estar a mudar estão por todo o lado, por exemplo, a maior cadeia britânica de livrarias, a Waterstones, conseguiu o seu primeiro ano de lucros desde a crise financeira de 2008. Sinais tímidos que parecem ter vindo a consolidar-se desde então, como mostram as estatísticas da Nielsen BookScan de 2018 publicadas pela revista “The Bookseller”: uma subida de 2,1% em termos de valor do mercado, mas mais pequena em volume, 0,3%. No total, no Reino Unido venderam-se 190,9 milhões de livros o ano passado, com receitas que representam 1,63 mil milhões de libras (1,82 mil milhões de euros). E se as vendas cresceram 34 milhões de libras (38,1 milhões de euros), o que dizer dos mais 627 mil livros vendidos que em 2017?

Para isso muito contribuiu o livro de Michelle Obama, o mais vendido do ano em território britânico, que passou quatro semanas na liderança das tabelas de bestsellers, conseguindo um total de 7,7 milhões de libras de receitas (8,6 milhões de euros).

«Depois de alguns anos de tristeza e melancolia devido ao advento dos ebooks, tornou-se claro que um declínio na procura de livros impressos é extremamente improvável. As pessoas querem fazer passar aos outros o que estão a ler e querem peças atrativas nas suas estantes», disse o diretor de vendas da Clays, empresa de impressão de livros e de autopublicação, ao site PrintWeek.

Há uma explicação para esta inversão da tendência, a de que em tempos difíceis as pessoas voltam-se para os artigos mais baratos, para aquilo que se poderia apelidar de velha ‘tecnologia’, a dos livros em papel. Também ajuda que surjam livros que se transformam em fenómenos de massas, como as 50 Sombras de Grey ou este ano as memórias da ex-primeira-dama dos EUA, de seu título Becoming.

Outra explicação é que as livrarias independentes, personalizadas, se transformam em centros de encontro, em locais de tertúlia, com os seus cafés associados, a sua programação de lançamentos, discussões, palestras. A livraria passa a ser algo mais do que a simples loja de livros para se transformar numa parte da vida cultural das comunidades.

Peter Brook e a mulher, Sarah, despediram-se dos seus empregos no verão de 2017 para abrir uma livraria em Pinner, a sul de Londres. A BrOOks tem um café associado: «Há pessoas que nunca irão ler um livro físico, mas ainda assim vêm cá. Há pessoas que comprarão mais livros do que alguma vez irão ler, mas ainda assim vêm aqui. É interessante porque quando se compra um livro também se está a comprar o tempo para o ler», disse Peter Brook à Sky News.

Se ainda há quem vá espreitar nas livrarias o que anda por aí a ser editado e compre na Amazon por sair mais barato, a verdade é que cada vez mais as pessoas procuram experiências diferentes, lojas especiais, o extraordinário. Embora os preços continuem a ser um fator diferenciador, neste tempo de hipsters e de ócio, quando mais única for a experiência, mais as pessoas estão dispostas a pagar um pouco mais para ter acesso a ela.

Como escreve Sian Cain no Guardian, «se calhar a sobrevivência das livrarias depende da transformação dos livreiros em ‘agentes de cultura em vez de apenas instrumentos de comércio”, como o autor Tim Winton afirmou uma vez».

Para já, como adianta Peter Brooks, está a aprender a usar o espaço da sua livraria, tal como os seus clientes passam pelo mesmo percurso de aprendizagem. Ambos tendo os livros estejam no centro da vida social das comunidades.

A quota de mercado da Amazon não está a diminuir, antes pelo contrário, o ogre vai-se tornando omnipresente na sua ocupação do espaço retalhista, estendendo-se dos livros a outros produtos culturais, passando para a eletrónica e a roupa. Só que o seu modelo está baseado no preço e na distribuição, não na proximidade às pessoas. É a partir desse domínio que se pode reformular a importância das livrarias. É como se aquela pequena livraria de livros infantis que Meg Ryan tinha em You’ve Got Mail/Sintonia de Amor  pudesse agora, 20 anos depois, ressuscitar da falência a que a grande cadeia livreira a obrigou.

O mercado parece mais negro para as grandes cadeias livreiras que para as pequenas lojas, já que estas sentem o peso da gigante Amazon a morder-lhes os calcanhares do lucro, obrigando-os a margens esmagadas pelo peso da concorrência. Por exemplo, nos EUA, a omnipresente Barnes & Noble vai no sexto ano de perda de quota de mercado para a empresa de Bezos. Ao mesmo tempo, o negócio das pequenas livrarias floresce. A nova-iorquina Shakespeare & Co. abriu três lojas: «As livrarias estão a voltar e a voltar em grande», dizia em novembro a proprietária, Dane Neller, à CBS News. Entre meados dos anos 1990 e 2009, o número de livrarias independentes nos Estados Unidos decresceu 40%, desde aí tem vindo a aumentar paulatinamente, à medida que os clientes, um certo tipo de clientes, coloca no topo das suas prioridades a experiência em vez do preço.

No EUA desde há cinco anos que há o Dia das Livrarias Independentes, a 28 de abril, com os participantes a subir de ano para ano. Em 2018 participaram 507 livrarias de 48 estados: «Está sempre a crescer e está a assumir a ideia de dia de festa para livreiros e compradores de livros», referia a diretora de programação, Samantha Schoech ao site Publishers Weekly.

No meio do frenesim em que se tornou o mundo da edição, multiplicando-se os lançamentos na ordem inversa ao tempo de exposição nas estantes das lojas, as pessoas parecem procurar santuários para falar de leituras, guias para navegações seguras, redescobrindo os livros como a última grande experiência da imaginação, para ter nas mãos o mais perfeito dos gadgets low tech.