Politica

Marcelo colocou direita e esquerda a "conviver no mesmo país"

Presidente da República completou esta quinta-feira três anos da sua eleição e falou dos primeiros desafios e da necessidade de não radicalizar o discurso numa altura em que têm sido notícia a intervenção policial no Bairro da Jamaica, no Seixal

Marcelo Rebelo de Sousa completou esta quinta-feira três anos de eleição presidencial e assinalou a data na Escola Básica e Secundária Passos Manuel, a mesma onde o pai– Baltasar Rebelo de Sousa – estudou entre 1933 e 1939.  O local trouxe memórias de infância, mas o presidente da República também quis debater o multiculturalismo, numa escola com 33 nacionalidades para explicar que o radicalismo  não é a resposta.

Sobre o seu mandato, Marcelo Rebelo de Sousa recordou  que quando tomou posse a “direita portuguesa e a esquerda portuguesa achavam as duas que tinham direito à taça.”. E a taça era o poder de governar.  “A direita dizia, eu ganhei o jogo. Eu quero a taça. E a esquerda dizia: não ganhaste nada. Tu achaste que ganhaste. tu achaste que ganhaste porque tinhas mais votos do que os membros do nosso grupo isolados, mas nós temos mais deputados. Nós é que ganhámos”, desabafou o presidente numa sala com cerca de 150 alunos. A mensagem que trazia era clara: “fazer aproximar quem é diferente”. E, aparentemente, segundo o Chefe de Estado, a batalha foi ganha.

Para Marcelo, o desafio dos primeiros tempos de mandato foi “fazer perceber que eles [direita e esquerda] tinham de conviver no mesmo país. Tinham de arranjar uma maneira, um modo de viver no mesmo país”.

O diagnóstico, em jeito de balanço eleitoral, é o de que há três anos se discutia a “legitimidade democrática” de quem governava o país. Agora, “deixou-se de se discutir” o tema.

Assim, Marcelo Rebelo de Sousa quis dar uma aula de valores porque  “viver em liberdade  é aceitar os outros”. E avisou que tinha tempo. Normalmente não almoça e só come “uma sandes de queijo e um sumol de ananás”. Por isso, os alunos poderiam perguntar tudo. O relógio marcava 11h40 minutos. A aula durou para lá das 13 horas, com muitas perguntas sobre racismo, atuação policial, os acontecimentos recente no Bairro da Jamaica, no Seixal.

O presidente fez sempre o mesmo discurso para tentar passar bem a mensagem: “Uma posição apaixonada e radical de um lado gera uma posição apaixonada e radical do outro lado”, mesmo que as intenções sejam as melhores. E Portugal é um país xenófobo? Marcelo acredita que não e apontou dados europeus sobre a aceitação dos imigrantes. Mais, lembrou que “Portugal não tem partidos assumidamente xenófobos”, mas que é preciso lutar diariamente pela democracia. E o trabalho começa na escola, a aceitar os outros, a diversidade. “Somos todos normais na nossa diferença, na nossa diversidade”, insistiu o Chefe de Estado, enquanto respondia e tratava os alunos por tu, e aproximava-se de quem lhe colocava as perguntas.

Na réplica a perguntas sobre excessos da polícia, insistiu no papel “importantíssimo das Forças de Segurança” e abordou diretamente o caso do bairro da Jamaica com pinças: “O que tentei explicar a estes jovens foi que não se deve generalizar o juízo efetuado sobre uma realidade tão complexa”. Ou seja, “não se deve generalizar casos que se venha apurar que são censuráveis generalizando a uma comunidade ou instituição”. Na sua intervenção, Marcelo defendeu ainda a importância do voto porque “não votar é perder legitimidade”, e abordou a situação na Venezuela, considerando  é preciso respeitar “a vontade soberana do povo venezuelano”, alinhando com o governo.

 Questionado pelos jornalistas sobre o caso de Tancos, Marcelo insistiu que “a investigação criminal é nuclear, é fundamental”, lembrando que o caso “está muito avançado”.

Por fim, voltou a repetir o que tem dito sobre um novo mandato, mantendo o tabu: “Decidirei no verão, algures em Agosto, setembro, o mais tardar em outubro de 2020”.