Internacional

Maduro resiste a pressão externa

Os EUA não descartam a intervenção militar, Maduro prepara-se para o pior e a oposição opta pela estratégia de mobilização, conquista dos militares e isolamento internacional ao regime.

Não faltam alertas de que à crise política interna na Venezuela se pode seguir uma intervenção militar patrocinada pelos Estados Unidos. O Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tem-no repetido constantemente, tentando unir os venezuelanos contra a ameaça externa e já avisou os militares para se prepararem para o pior e ordenou o treino de 60 mil milicianos até 13 de abril.

Por seu lado, Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional que se autoproclamou Presidente interino, referiu, em entrevista ao El País, que a oposição pediu «apoio humanitário», sem falar em intervenção militar externa. Mas as intervenções militares norte-americanas na América Latina – 56 no século XX – são apresentadas sob a égide da instauração/defesa da democracia ou da intervenção humanitária. 

O representante de Guaidó na Organização de Estados Americanos, Gustavo Tarre, garantiu que a oposição venezuelana não é a favor de uma intervenção militar patrocinada por Washington. «Não, o problema será resolvido pelos venezuelanos», respondeu  à Sputnik quando questionado sobre essa possibilidade. É a primeira vez que um líder da oposição recusa explicitamente uma intervenção militar no país. 

Por agora, a oposição parece apostar na mobilização nas ruas – estão convocadas para hoje manifestações em todo o país –, na conquista do aparelho militar, dando garantias e prometendo amnistia, e nas alianças internacionais, isolando Maduro no palco mundial. Além disso, Guaidó apresentou na quinta-feira um programa de transição – um «plano para o país» –  com os próximos passos da oposição e como pretende retirar o país de uma grave crise económica e política. 

Se a intervenção militar externa, diz Tarre, está fora de questão, nem por isso a pressão sobre Caracas deixa de ser pilar fundamental na estratégia de Washington e da oposição. Esta semana, o Departamento do Tesouro decidiu congelar nos EUAas contas bancárias – com sete mil milhões de dólares – da petrolífera estatal venezuelana, a PDVSA. O regime de Maduro viu o acesso às contas bloqueado, enquanto Guaidó foi autorizado a aceder-lhes sob o pretexto de ser o «legítimo» Presidente do país. Também o Banco Central do Reino Unido decidiu não devolver os 1,2 mil milhões de dólares em ouro venezuelanos. 

Recorde-se que a venda de petróleo é a principal fonte de receita do regime, usando a matéria-prima para alianças internacionais com a China e Rússia e ainda financiar o aparelho de Estado, principalmente os militares. Sem a receita do petróleo, o regime sofre um duro golpe, principalmente por os EUA serem o principal destino das suas exportações – mais de 30% do petróleo produzido.

Poucos minutos antes do anúncio das novas sanções, o autoproclamado Presidente desafiou a autoridade do regime ao decretar a renovação da direção da petrolífera, afastando os chavistas. Um exemplo da atual dualidade de poder institucional no país. 

Em resposta a Washington, Maduro classificou-as como «ilegais, unilaterais, imorais e criminosas», acusando ainda John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, de «pedir abertamente um golpe de Estado». «Pretende [Bolton] roubar-nos a empresa Citgo [filial da PDVSA nos EUA]. Já dei instruções precisas ao presidente da PDVSA para dar início às ações legais», afirmou Maduro, sem, no entanto, dar mais pormenores sobre quais as instâncias a que se dirigirá. 

Há muito que o regime aguenta as sanções, a hiperinflação, o êxodo de milhões de venezuelanos e crises de bens e não cai. Washington não descarta nenhuma opção para afastar Maduro, incluindo a intervenção militar. É nesse sentido que Bolton tem pressionado Trump. Esta semana, o conselheiro deu um ultimato às forças armadas, o pilar do regime de Maduro, para aceitarem «uma transferência pacífica do poder» – os militares já declararam apoio incondicional ao sucessor de Chávez e nas redes sociais têm circulado vídeos a mostrar a sua prontidão para combaterem uma invasão. Bolton não especificou quais as consequências se não o fizessem, mas, enquanto respondia a perguntas dos jornalistas, segurava um pequeno bloco de notas amarelo onde se lia: «5000 soldados para a Colômbia». Se foi apanhado desprevenido ou se terá sido uma jogada, não se sabe.

Questionado pelo USA Today sobre a frase no bloco de notas, um porta-voz da Casa Branca  nada fez para acabar com a especulação, respondendo apenas que «todas as opções estão em cima da mesa». Já o secretário interino da Defesa norte-americano, Patrick Shanahan, limitou-se a dizer que não discutiu isso com Bolton, mas a descoordenação da administração Trump é uma das suas características. 

Já o ministro dos Negócios Estrangeiros colombiano, Carlos Holmes Trujillo, disse não saber nada sobre as anotações de Bolton: «Desconhecemos o alcance e a razão da dita anotação». O Presidente colombiano, Ivan Duque, rejeitou a possibilidade de participar numa intervenção na Venezuela, com a qual partilha uma fronteira de 2200 quilómetros. Todavia, Washington e Bogotá são muito próximas, com o El País a dizer que poderão estar a planear uma intervenção. 

Além da resistência das Forças Armadas venezuelanas, dois dos principais obstáculos a uma possível intervenção são a Rússia e a China, aliados de Caracas. Foi o que se viu esta semana quando Washington entregou uma declaração no Conselho de Segurança da ONU a pedir o «apoio total» à Assembleia Nacional e a defender o afastamento de Maduro. Moscovo e Pequim recusaram a declaração e, em contrapartida, o primeiro apresentou uma declaração a pedir o diálogo  para se encontrar uma solução pacífica para a crise. Os EUA recusaram.

Moscovo é um dos principais aliados de Caracas, investindo milhares de milhões de dólares na indústria petrolífera venezuelana e firmando contratos de armamento com o regime. E, há poucos meses, como se a tensão fosse escalar, enviou dois bombardeiros nucleares TU-160 para participarem em exercício militares na Venezuela – uma forte demonstração de apoio. Agora, em plena crise e segundo a Reuters, Moscovo terá enviado mercenários ligados ao grupo Wagner, o braço armado informal do Kremlin, para a capital do país para garantir a segurança pessoal de Maduro. 

Caso Washington avance com uma intervenção militar, terá de o fazer à revelia do Conselho de Segurança violando a lei internacional, tal como fez em 2003 na invasão do Iraque. «Um aventureirismo cheio de consequências catastróficas», avisou Dimitry Peskov, porta-voz da Presidência russa.