Opiniao

A Casa da Democracia…

Houve tempo em que o debate parlamentar se fazia com elevação e compostura, sem prejuízo da defesa aguerrida das respectivas posições, mas protegendo o essencial do respeito devido à instituição – a Casa da Democracia – e aos deputados.
As bancadas estavam guarnecidas com eleitos frequentemente qualificados, que não tinham ali chegado apenas por arrivismo, pela via da compra de votos – ou da troca de favores entre caciques locais –, que conheciam o seu lugar e não se limitavam a assinar o ponto... por si e por terceiros.

É certo que o ‘caldo se entornou’ algumas vezes, a fervura transbordou e, na ressaca do PREC, emergiram alguns epifenómenos folclóricos, ruidosos mas inconsequentes.

Era gente oriunda, sobretudo, das margens comunistas, que não era levada muito a sério. Fazia os seus números, os media divertiam-se, e encolhiam-se os ombros com o sentimento resignado de  ser    necessário         aturá-los.

A história parlamentar pós-25 de Abril está cheia de vicissitudes, mas fez-se o ‘caminho das pedras’, apesar de alguns sobressaltos – que tiveram ao menos a virtude de amadurecer o processo.
Com a primeira maioria absoluta socialista, tudo começou a piorar. As intervenções do então primeiro-ministro José Sócrates eram amiúde um rastilho incendiário, e o debate parlamentar resvalou, não raramente, para uma zona imprópria para consumo...

Com a actual minoria socialista no Governo, a sobranceria subiu de tom e chegou ao ponto que se viu no último debate quinzenal – quando o primeiro-ministro em exercício invocou a cor da pele em resposta a Assunção Cristas, num completo despautério.

Já basta o racismo imaginário que pulula nas redes sociais, alimentado por anónimos e insensatos, que não têm pudor em generalizar casos pontuais e circunscritos. O Bloco não lhes é estranho e dá-lhes colo.

É voz corrente que António Costa perde as estribeiras com facilidade quando se irrita – e irrita-se muito –, fama que traz colada à pele desde que circulou pelos Paços do Concelho da capital.

Mário Soares também era conhecido pelo destempero em privado, contrariando a bonomia que exibia em público.
Mas Soares tinha um cabedal político e um carisma a quem os exageros se perdoavam – um fato que não serve a Costa, cujos tiques autoritários têm vindo a acentuar-se à medida que as sondagens o favorecem.

O ‘animal feroz’ de que Sócrates se reclamava também parece habitar Costa e surge quando menos se espera, como se quisesse mimetizar aquele de quem foi braço-direito.

Sejamos claros: António Costa, tal como Sócrates, suporta mal o contraditório ou as perguntas incómodas.

Recorde-se, a propósito, uma das últimas entrevistas de Sócrates na RTP, quando este, já acossado pelas suspeitas e acusações, reagiu crispado à curiosidade do jornalista que lhe perguntou, simplesmente, como é que ele vivia com os fracos rendimentos que jurava ter.

Colérico, procurou condicionar o ‘atrevido’ – que, se fosse mais incisivo, o poderia ter questionado em directo, por exemplo, sobre como são pagos os seus dispendiosos advogados…

À falta de melhor pretexto, o primeiro-ministro em exercício elegeu, contudo, Assunção Cristas como ‘activista’ das suas irritações, porque tem o dom de interpelá-lo com argumentos que o ‘tiram do sério’, desalinhada em relação às tiradas ‘glicodoces’ das antigas bancadas de protesto das esquerdas – e até do PSD, em versão frouxa, se compararmos com os tempos das lideranças de Paulo Rangel, Montenegro ou, mesmo, Hugo Soares.  

Inventou-se agora o ‘populismo bom’ – supõe-se que por causa das esquerdas se sentirem confortáveis com a presidência ‘afectuosa’    de Marcelo Rebelo de Sousa – em contraponto ao ‘populismo mau’, que a falta de criatividade política costuma convocar para assustar incautos.

À medida que se aproximam as eleições e se esgotam as causas ‘fracturantes’, as esquerdas precisam de recuperar os ‘fascismos’, ’racismos’ e outros ‘ismos’, para desviar as atenções do pré-colapso em que se encontram vários serviços públicos, com destaque para hospitais, ensino e transportes – nestes, com a CP à cabeça.

Nada que surpreenda. A evolução das contas públicas oferece muitas incógnitas camufladas ‘debaixo do tapete’, e a ideia cultivada pelos adeptos do actual ‘frentismo’ de que os portugueses têm mais dinheiro no bolso está a perder fôlego.

Qualquer crise europeia (como o Brexit) pode ter efeitos devastadores em Portugal, em particular no turismo, e ninguém parece preocupado com o dia seguinte.

Perante tanta incerteza, respira-se por cá uma estranha euforia, ao arrepio dos indicadores mais fiáveis, baseada novamente no crédito fácil, com a poupança de rastos. De que cor é a pele de um país sem timoneiro? 

Nota em rodapé - O conhecido jornal comunista francês L’Humanité está em vias de fechar a porta, com cessação de pagamentos e em registo de protecção do Tribunal do Comércio.

Fundado em 1904 por Jean Jaurès, confirmou recentemente as ‘pesadas dificuldades financeiras’ que enfrenta, sendo o seu destino mais provável deixar de publicar-se.

Ao contrário do Partido Comunista Português, que respira saúde, o francês eclipsou-se e deixou de apregoar o ‘sol da Terra’ e os ‘amanhãs que cantam’.

Uma oportunidade para o PCP, de Jerónimo de Sousa, provar a ‘solidariedade internacionalista’, financiando a sobrevivência de L`Humanité.

A menos que na Soeiro Pereira Gomes ainda ninguém se tenha apercebido do colapso anunciado do jornal irmão  do “Àvante!”….