Sociedade

‘Marcelo foi ponderado no que disse’

Tem 37 anos, é diretor da Departamento Nacional da Pastoral Juvenil da Conferência Episcopal Portuguesa e foi um dos responsáveis pelo grupo de 300 portugueses que participaram nas Jornadas Mundiais da Juventude no Panamá. Falámos no dia do regresso a Lisboa, na quarta-feira. Filipe Diniz diz que ainda não há muito mais a acrescentar sobre as Jornadas em Lisboa, marcadas para 2022, e defende Marcelo dos críticos: «Notei que foi ponderado no que disse, não falou só numa questão pessoal mas, como Chefe de Estado, enfatizou a capacidade do país para acolher o evento»

Que imagens traz na cabeça?

Primeiro que tudo é a imagem desta comunidade, da igreja do Panamá, que nos acolheu. Rostos sorridentes e alegres por verem tantos peregrinos a viverem esta Jornada Mundial da Juventude.

Ficaram em casa de famílias?

Sim, a maior parte dos peregrinos ficaram, pelo menos a maioria dos portugueses. Tenho muito presente o rosto de alegria com que nos receberam e o rosto de tristeza ao partirmos.

Esse é um lado das JMJ, a oportunidade contactar com realidades muito diferentes.

É uma experiência muito rica, mostra-nos aquilo que as pessoas pensam, diferentes culturas. São muito acolhedores. Mesmo num ambiente de cidade, toda a gente nos cumprimentava na rua, toda a gente oferecia ajuda. Havia um espírito de boa vontade.

Acha que vai ser difícil bater essa hospitalidade numa Lisboa que hoje tem muito mais turistas?

Acho que não. É uma característica dos portugueses, aceitamos bem quem vem de fora. Embora eu não seja propriamente de Lisboa.

É de Coimbra.

Sim. Hoje vivo na cidade, mas nasci numa aldeia no concelho de Cantanhede, Corticeiro de Cima.

Mais imagens do Panamá?

A alegria dos portugueses quando se recebeu a notícia. Foram 300 jovens. Antes da notícia da vinda das JMJ para Lisboa, é muito interessante ver a grande expectativa com que as pessoas vão para estes encontros, o que esperam levar dali e o que querem dar aos outros.

Em relação à notícia, pelo menos para a vossa comitiva já era certo que as Jornadas de 2022 vinham para Lisboa? Quando houve a primeira notícia em dezembro chegou a dizer-se que o Papa poderia mudar de ideias.

Claro que havia uma expectativa mas era preciso ver no que é que ia dar. Faz sentido para nós o anúncio na missa final porque é sempre assim que acontece. Até aí pode falar-se, mas não está confirmado. Quando chegámos, claro que as pessoas já faziam perguntas sobre se ia ser em Portugal ou não. No final muitos peregrinos manifestaram vontade de vir, muitas pessoas ficaram muito felizes com o anúncio.

A fazer aquelas ligações habituais do Portugal, Ronaldo?

Sim, claro. O povo do Panamá então falava sempre do Ronaldo.

Vão ter de arranjar forma de o convocar para as JMJ de 2022.

Isso agora quando se começar a trabalhar é que se vai perceber melhor o que vai acontecer. Vai ser um trabalho muito exigente, é preciso seguir os parâmetros de logística. Eu não tenho muita noção desse trabalho, está o Patriarcado de Lisboa a coordenar.

A Pastoral Juvenil vai estar envolvida? Já se está por exemplo a perguntar a alguns locais se têm disponibilidade para acolher peregrinos.

Sim, para aquilo que nos chamarem certamente que iremos colaborar. O presidente da Câmara de Lisboa já disse qual é o local previsto. O nosso trabalho na pastoral vai ser muito congregar as dioceses para o que for preciso fazer.

Das mensagens do Papa, o que lhe fez mais sentido? No primeiro momento em que esteve com os jovens pediu-lhes para não serem construtores de muros, mas sim construtores de pontes. Os muros levam à solidão, ao isolamento. Estando na América Central é uma mensagem também política.

Claro que sim, mas é transversal. O Papa fala para todos os jovens do mundo, é uma comunicação que toca a cada um de nós. Construir pontes é um grande desafio: implica elevar as relações, aprofundar a escuta e faz-nos pensar no tempo que damos aos outros. O Papa pegou muito naquilo que tinha sido o trabalho do Sínodo da Juventude em outubro do ano passado e na importância de todos fazermos o nosso exercício de consciência.

Houve aquela intervenção de Maria ser a maior ‘influencer’ da história. Como é que entre vocês comentam estas mensagens mais fora da caixa de Francisco?

O Papa tem esta capacidade de transmitir uma mensagem muito pragmática e dar exemplos concretos. E isto toca os jovens, é algo que eles entendem. Influenciar é cativar com o coração. São expressões felizes porque despertam a atenção dos mais novos.

Mas o clero vê-o com os mesmos olhos ou é do tipo de coisas que gera alguns anticorpos?

Não lhe sei dizer, mas acho que pelo menos os padres que lá estiveram gostaram da interpretação que fez. O Papa fala com muito entusiasmo e toda a gente tinha aquela coisa de pensar: o que é que será que nos vai dizer hoje? O facto de ter sido no Panamá e ele estar a falar na sua língua parece que dava mais intensidade ao que dizia.

Francisco tem sido muito popular para fora, mas tem tido críticos internos. Para si tem sido um Papa marcante?

Tem uma comunicação diferente dos outros. Não quer dizer que seja melhor do que os outros, cada um tem a sua personalidade. Este tem uma particularidade que a mim me toca: a sua transparência. João Paulo II também era assim, Bento XVI talvez fosse menos expressivo, mas tinha um pensamento com muita clareza. Este Papa tem uma forma de se expressar que tem a ver com o que diz mas também com a sua comunicação não verbal, o abraço, o tocar. Qualquer líder tem sempre a sua maneira de ser e este tem uma forma de cativar que acho que é visível para todos. Estamos perto dele de uma forma muito direta, como estivemos estes dias, isso é muito especial.

É natural que nestes próximos anos os olhos do mundo estejam mais virados para a igreja portuguesa. Tem havido polémicas como padres que têm filhos e tem-se colocado a questão de haver maior proatividade na procura de casos de abusos. Como tem visto as tomadas de posição?

A igreja portuguesa tem sido ponderada na forma como lida com as questões que vão surgindo e estou certo de que assim será. 

Uma das conclusões do Sínodo dos Jovens foi o pedido de uma prevenção e condenação mais assertiva dos diferentes tipos de abusos no seio da igreja.

Claro que os jovens querem uma igreja mais assertiva, mas isso começa por haver uma grande capacidade de saber escutar. Quando falo da ponderação da igreja é porque quando toma determinadas posições não fala de cor, procura, tenta perceber o que está a acontecer. Há coisas que não têm de ser faladas, mas de ser resolvidas.

Denunciando os casos à justiça?

Penso que a igreja tem conseguido articular as coisas muito bem.

É um padre jovem. Uma das mensagens de Francisco no regresso do Panamá foi que não concordava com tornar o celibato opcional. Como vê esta posição?

O celibato é uma escolha associada à vocação. É como em tudo na vida. Quando alguém casa com outra pessoa também faz uma escolha. Qualquer escolha que façamos tem de ser refletida, acompanhada e esta não é diferente. O celibato é uma entrega, é uma doação à igreja.

A maioria dos padres está bem assim?

A leitura que faço dos meus colegas padres é que sim. Se são celibatários é porque acreditam que faz sentido e vivem felizes assim. 

Foi para o seminário miúdo ou já adulto?

Tinha 18 anos. Foi uma decisão que foi sendo ponderada. Depois durante o seminário há formação e acompanhamento que nos ajuda a discernir e fui fazendo a minha descoberta. Os caminhos de Deus são mesmo assim. Hoje sinto-me muito feliz no que faço, sinto que a igreja precisa de mim e eu preciso da igreja.

Chegou a ter outros planos?

Não, no 12.º ano já colocava muito esta questão.

E tinha namorada?

Não, não tinha namorada na altura. Não foi nenhum desgosto de amor (risos).

Esse Sínodo dos Jovens implicou inquéritos. O que o surpreendeu nas respostas nacionais?

Não me surpreendeu muito, mas no fundo esse pedido de termos uma igreja que acolha, não no sentido de escancarar as portas, mas que dê mais voz aos jovens. Sentirem que da parte da igreja há alguém que os escute. A questão da vocação tem de ser trabalhada na igreja: um jovem está em caminho, é alguém que está amadurecer naquilo que quer ser e na sua fé. 

Portugal é um país maioritariamente católico mas com muitos ‘não praticantes’. Esta semana uma sondagem dizia que bancos e religião são as instituições em que os portugueses menos confiam. Sente esse afastamento?

As pessoas andam muito ocupadas, com o trabalho, com tudo. Vivem muito ‘pré-ocupadas’ com muitas coisas e esquecem-se de si próprias, da vertente espiritual. Acho que é mais por aí do que propriamente por pensarem que não querem ir à igreja. Mas há diferentes dinâmicas: temos jovens que deixam a igreja, mas depois quando têm filhos e porque não se esqueceram do que viveram em miúdos regressam. Acredito que a igreja e os padres têm que estar muito mais despertos para acolher e para evangelizar, irem ao encontro e transmitirem o evangelho de forma clara e que faça sentido na vida das pessoas. Claro que há sempre pessoas que dizem que são ateus e agnósticos, mas muitas pessoas andarão à procura de respostas para a sua vida e a igreja tem de estar lá para acolher e ajudar.

Francisco tem alertado para a importância de chegar às periferias, chegar a toda a gente, tem-se aproximado de casais gays católicos. Cá há essa abertura? Um jovem gay teria facilidade em ir no grupo que esteve no Panamá?

Não sei se esteve ou não. A igreja é chamada a acolher as situações sempre na perspetiva de cada um, cada caso é um caso e é preciso escutar.

Marcelo Rebelo de Sousa tem sido criticado pelo entusiasmo com que festejou a escolha de Portugal para realizar as Jornadas. Como vê as críticas?

Como toda a gente sabe, o Presidente é católico e assume-se assim. É normal as crítica acontecerem porque o Estado é laico, mas e a liberdade de expressão? Porque é que ele não há de poder manifestar aquilo que sente, que crê?

Ser católico assumido em Portugal já foi mais fácil?

Se calhar há uns anos era mais fácil. Hoje não sei dizer, mas as pessoas não têm de ter medo de transmitir aquilo em que acreditam. Porque é que uma pessoa de outra religião se afirma e respeitamos e quando somos católicos não nos podemos manifestar? 

Não existe um exemplo comparável sendo Presidente da República.

Se calhar a forma como o disse pode ser objeto de crítica mas não tenho de fazer essa análise. Parece-me que se o manifestou foi porque estava a ser ele. Se o fez assim é porque é uma pessoa convicta e que não tem medo de dizer o que vai no seu coração. Mas notei que foi ponderado no que disse, não falou só numa questão pessoal, mas como Chefe de Estado entoou a capacidade do país para acolher o evento.

Participou em muitas Jornadas?

Estive em Madrid e em Cracóvia, esta foi a terceira.

Foram as melhores?

Cada Jornada é uma experiência muito particular. Podemos cair no erro de pensar que vamos viver o que tivemos nas anteriores. Das outras vezes que fui tinha outra idade. Nesta tive mais responsabilidade de acompanhar um grupo e isso muda as coisas. Mas o que é mais tocante nas Jornadas é termos esta multidão que responde a um convite do Papa a manifestar a sua fé e depois ter a coragem de voltar a casa, ao país, à cidade, e continuar a transmitir aquilo em que acredita.

E desligam? A maioria estava na missa sem estar no Whatsapp ou é mais convívio do que oração?

Claro que há convívio, partilha e isso é muito importante para os jovens. Mas a dimensão da oração é muito importante. Todos os momentos foram significativos, mas na vigília no sábado à noite tínhamos um silêncio impressionante. Olhávamos para o lado e só se víamos jovens a rezar. 

A fé carrega-se nesses momentos?

Sim. É num momento de oração que se abre o coração, o pensamento, coloca-se a vida nas mãos de Deus.

Vêm mais confortados?

Mais confortados e mais motivados.