Economia

Diesel. ACAP pede ao governo neutralidade tecnológica

Gasolina e diesel pesam quase o mesmo no parque automóvel português. E para a ACAP a solução para reduzir a idade do parque automóvel passaria pelo regresso do incentivo ao abate, recorrendo ao Fundo Ambiental. 

Para a Associação Comércio Automóvel de Portugal (ACAP) deve haver “neutralidade tecnológica” por parte do governo. Esta é mais uma reação do setor às declarações do ministro do Ambiente que fala em perda de valor comercial dentro de quatro ou cinco anos. No entender do secretário-geral da ACAP, é necessário deixar o mercado funcionar, apontando para uma mudança que acontecerá de forma gradual. 

“A previsão é de que haverá redução gradual do [peso das vendas do] diesel, com a gasolina a aumentar”, diz Hélder Pedro, em conferência de imprensa, acrescentando ainda que “os construtores já têm isso em conta na suas estratégias comerciais”. Já o presidente da associação, José Ramos, fala mesmo “em ausência de estratégia e em tendência de mediatismo por parte dos vários governantes”. 

Os números falam por si. Em 2018, o parque automóvel de ligeiros de passageiros, o segmento com maior peso no mercado, era composto por 50% de veículos a gasolina, 49% de veículos a diesel e 1% de automóveis com combustíveis alternativos – que incluem os veículos a gás natural, híbridos e elétricos. 

Números que ficam bem longe de que acontecia em anos anteriores. Entre 2011 e 2014, o peso dos carros a gasóleo ultrapassavam os 70%, enquanto os a gasolina não atingiam os 30%. 

Face a este cenário, Hélder Pedro acredita que a meta definida no Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) apresentada pelo governo – para que os veículos a gasóleo tenham um peso de cerca de 40% no parque automóvel nacional em 2030– é “perfeitamente alcançável”.

Energias alternativas sobem

De acordo com os dados da ACAP, entre 2010 e 2018, verificou-se um aumento de 588% das vendas de carros movidos a energias alternativas. Nesse período, o maior crescimento verificou-se nos híbridos plug-in que passaram de cinco unidades e, 2010 para 3776 no ano passado. Mas de 2017 para 2018, o maior crescimento verificou-se nos veículos elétricos (148%) tendo sido vendidas mais de quatro mil unidades. 

Mas apesar de a quota de mercado dos elétricos ser ainda residual no total do mercado nacional (1,8%), Portugal ocupa o quarto lugar do ranking europeu. Holanda lidera, seguida pela Suécia e Áustria.

Ainda assim, José Ramos admite que perante um cenário de crescimento dos eléctricos em detrimento do diesel vai obrigar o governo a rever a carga fiscal. Com este setor, no ano passado, o Estado arrecadou 8,8 milhões de euros, ou seja, 19,5% do peso total que rondou os 45,1 milhões de euros. "O governo não vai abdicar dos impostos e terá de subir inevitavelmente a fiscalidade dos elétricos que atualmente estão isentos", salienta. 

Importados preocupam

No ano passado, o número de matrículas de importados usados cresceu 17%, ficando acima da taxa de crescimento dos automóveis matriculados novos pelas marcas que registou um crescimento de 3%. Mas este peso é ainda mais significativo se tivermos em conta os números entre 2010 a 2018 com este segmento a disparar 233%. Um crescimento que, no entender de Hélder Pedro, não faz sentido face às preocupações ambientais que existem. “Por um lado, quer-se reduzir a idade do parque automóvel e as emissões dos carros, por outro, altera-se a lei e incentiva-se a exportação de veículos com mais de 10 anos”, salienta.

Também a idade média dos veículos para abate subiu para 21,6 anos – em 2009 rondava os 16,6 anos – o que, segundo as contas da ACAP, é necessário abater 330 mil veículos em fim de vida para diminuir a idade média do parque em um ano, o que permitiria um poupança de 164 milhões de litro de combustível e de 230 milhões de euros por ano. 

Para reduzir esta idade do parque automóvel, a associação propôs ao governo voltar a implementar o incentivo ao abate de veículos com idade superior a 13 anos com verbas provenientes do Fundo Ambiental, seguindo o modelo espanhol, ou seja, dotar uma determinada verba e quando esta extinguisse acabaria o incentivo, em vez de durar um ano como acontecia quando a medida estava em vigor. Uma sugestão que não foi seguida pelo Executivo. “Não representaria custos adicionais porque recorreria ao Fundo Ambiental, mas o governo prefere usar esse valor para outros projetos, como é o caso do Metro”, acusa o secretário-geral.