Internacional

França. O que fazer com pessoas zangadas?

Contra a política do medo, coletes amarelos e a central sindical CGT uniram-se em greve geral. 

Osonho de Jérôme Rodrigues, um dos líderes dos coletes amarelos que foi baleado num olho pela polícia e corre o risco de perder a vista, é juntar na manifestação de hoje dos coletes amarelos milhões: «A ideia é juntar cinco milhões de pessoas: dois em Paris e três milhões no resto do país», disse ao SOL em Paris.

Há 13 semanas que os coletes amarelos – 400 mil na rua todos os sábados, segundo Rodrigues – têm sido a grande dor de cabeça da presidência de Emmanuel Macron, manifestando-se aos sábados, bloqueando estradas e autoestradas, atingindo a economia francesa. Macron garantiu que os iria ouvir, mas entre promessas e atos vai  uma grande distância. Agora, os coletes amarelos tentam unir-se aos sindicatos para derrubarem o Presidente. 

Sabendo que sozinhos não conseguem obrigar o Palácio do Eliseu a ceder à principal reivindicação do movimento – «conseguirmos viver do nosso salário», diz Jérôme –, os coletes amarelos uniram-se esta terça-feira à CGT, a central sindical mais à esquerda em França, numa greve geral. Milhares foram para a rua e coletes amarelos e vermelhos marcharam juntos em Paris, Nantes e Marselha, mas, na capital, a união pouco mais foi do que estarem no mesmo local e à mesma hora.

Partilham muitas reivindicações – mais justiça fiscal e aumentos salariais –, mas há grandes desconfianças de ambos os lados e tem sido difícil ultrapassá-las. Os coletes não veem com bons olhos os sindicatos e os partidos políticos. Querem, sobretudo, conquistar as bases destas organizações, sem que tenham uma estratégia unificada para o fazer. E esse é, precisamente, um dos objetivos de curto prazo do lusodescendente Jérôme Rodrigues: «É o que estamos a tentar fazer ao criar uma orientação, para pôr as reivindicações em ordem e para termos uma única voz».

Mesmo entre os coletes amarelos, as divisões, normais em movimentos inorgânicos que se organizam nas redes sociais, têm sido um obstáculo significativo. Uns querem criar listas – e já as começaram a preparar – para disputar as eleições europeias, outros querem transformar o movimento num partido político e outros ainda querem que os coletes amarelos continuem a ser apenas um movimento, caminhando pelo seu próprio pé. 

Da parte dos sindicatos e partidos políticos, a desconfiança não é menor, ainda que a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, a União Nacional, de Marine Le Pen, e a CGT se tentem aproximar. A diversidade do movimento, com pessoas  que vão da extrema-direita à extrema-esquerda, passando por quem diz não ser nem de esquerda nem de direita, faz levantar muitas sobrancelhas. Além disso, o movimento é bastante permeável a infiltrações, faltando-lhe um serviço de manutenção da ordem que mantenha a disciplina nas manifestações, o que dá azo a atos de violência e infiltrações. E, nas últimas semanas, roubou espaço de contestação aos sindicatos, históricos bastiões da mobilização. 
«É um movimento de pessoas zangadas que antes não se manifestavam», disse Philippe Guilleret, funcionário da CGT, ao SOL na véspera da greve geral. «[Os coletes amarelos] são a maioria silenciosa do povo que nada fazia, que ia para o trabalho e que pagava os impostos, que a certa altura rebentou», explica Rodrigues, em entrevista ao i. 

Desde os tempos de François Hollande que a austeridade e reformas estruturais neoliberais entraram em força nas políticas públicas francesas e com Macron no Palácio do Eliseu ganharam novo ímpeto. Enquanto abolia o imposto sobre as grandes fortunas, Macron cortava no Estado social, aumentava os impostos sobre as classes média e baixa e privatizava, por exemplo, as autoestradas – as portagens subiram significativamente. Parte da classe média francesa deixou de conseguir pagar as contas ao final do mês e o rastilho para a revolta foi o aumento dos impostos sobre os combustíveis.

Macron é apelidado de «Presidente dos ricos» e «Presidente banqueiro». Há uma revolta latente na sociedade francesa e o rastilho pode acender a qualquer momento. «Prometeu muita coisa, mas está a fazer uma política para quem tem dinheiro», garante Manuel Andamollo, empresário francês de 61 anos, acrescentando que «os preços aumentaram e os salários não».

Pelo acender desse rastilho espera Jérôme Rodrigues – e os 20 atingidos nos olhos pelas bolas de borracha disparadas pela polícia pode ser o fogo que ateará esse rastilho.

Nas primeiras semanas, o apoio na sociedade aos coletes amarelos rondou os 80%, mas com as imagens de violência, difundidas pelas televisões, foi perdendo apoio, descendo para 60%. «No início, toda a gente cobria as manifestações e tudo era perfeito – era também uma forma de dizerem que eram melhores que os sindicatos –, mas quando os coletes amarelos começaram a fazer reivindicações – algumas horríveis, racistas, mas a maioria bastante profundas – de justiça social e fiscal, as redações começaram a dizer que eram um problema, passaram a fala sobretudo da violência», explica Cathy Dos Santos, jornalista do L’Humanité. 

A violência, dizem vários coletes amarelos com quem o SOL falou, não vem deles e sim de grupos que se infiltram nas manifestações. «Os polícias recebem ordem para não avançar quando as lojas estão a ser partidas e as pedras a serem arrancadas da calçada», garante Rodrigues, diz que é uma jogada do Governo para dar má imagem aos coletes amarelos. 

Macron tudo tem feito para que o rastilho não se acenda. Diz não tolerar a violência, prometendo depois dialogar com quem queira esse diálogo, embora saliente que as políticas já implementadas não são revogáveis. Avançou com o «grande debate nacional» e, esta semana, com um possível referendo, ainda que pouco se saiba sobre os seus moldes.

Por outro lado, o Governo aposta na repressão, numa clara política de instigação do medo. A cada manifestação, o dispositivo policial é grande, com gendarmes e elementos da Brigada Anticriminalidade (BAC) a serem as principais forças mobilizadas, apesar de não terem treino antimotim. As bolas de borracha e o gás lacrimogéneo tornaram-se armas usadas habitualmente. Entre os manifestantes, os feridos já ultrapassam os dois mil – há quem diga que já vão nos quatro mil – e, em três meses, mais de 9200 bolas de borracha foram disparadas, deixando um rasto de pelo menos 80 feridos graves, entre os quais 20 pessoas atingidas nos olhos.

Ao mesmo tempo, a polícia faz ações cirúrgicas contra as figuras do movimento. Entra de madrugada em casa de líderes e detém-nos quando se reúnem. «Juntámos, alguns coletes amarelos, para irmos conversar num restaurante. Fomos apanhados pela política e levaram-nos para a esquadra», denunciou Rodrigues, acrescentando que o motivo foi «arbitrário».