Internacional

Juan Guaidó. De desconhecido a Presidente autoproclamado

Formado em Washington, orientado por um economista neoliberal ligado ao setor petrolífero, Guaidó faz parte da‘geração 2007’, oriunda de famílias abastadas, financiada por ‘think thanks’ da direita norte-americana. Os mesmos que hoje compõem a maioria da direção do partido do autoproclamado Presidente interino, que só tem 14 dos 167 deputados da Assembleia Nacional. 

 

Em menos de um mês, Juan Guaidó passou de ser um deputado pouco conhecido, de um partido minoritário da oposição, a autoproclamado Presidente interino da Venezuela, no mais sério desafio alguma vez enfrentado pelo Governo de Nicolás Maduro.

Há uns meses seria difícil imaginar que Guaidó conseguisse sustentar tal reivindicação, dado que é presidente da Assembleia Nacional - eleita democraticamente - o mais jovem de sempre, apenas por um ano. A nomeação é fruto de um acordo de rotatividade no cargo, estabelecido entre os partidos da oposição, maioritários na Assembleia. O Vontade Popular, o partido cofundado por Guaidó, conseguiu apenas 14 dos 167 deputados do órgão, sendo associado a atos de violência na sua contestação ao Governo.

Apesar disso, o reconhecimento internacional surgiu imediatamente e em cascata. Minutos depois da declaração, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconheceu Guaidó como legítimo Presidente interino venezuelano, logo seguido por todos os países do Grupo de Lima, à exceção do México. Juntou-se ainda o reconhecimento de vários países europeus, dado esta semana.

O percurso que levou a este terramoto geopolítico começou há décadas, quando Guaidó ainda era estudante de engenharia industrial, numa universidade privada em Caracas e depois na universidade George Washington, na capital norte-americana. Guaidó foi orientado nos seus estudos por Luis Berrizbeitia, um economista neoliberal que trabalhou mais de uma década no setor energético venezuelano, durante os governos anteriores à presidência de Hugo Chávez. 

Guaidó regressou à Venezuela, participando na onda de protestos de 2007, que contestavam a recusa do Governo de Chávez em renovar as licenças televisivas da RCTV, um dos canais venezuelanos mais antigos, com milhões de telespetadores. O Presidente acusava o canal privado de apoiar abertamente o golpe de Estado contra si, em 2002, além de ter recusado mostrar imagens dos milhões de apoiantes de Chávez, que o conseguiram manter no poder. 

A oposição venezuelana foi galvanizada à volta da defesa da emissora e da violação da liberdade de imprensa. Tal como pela campanha do ‘não’ no referendo proposto esse ano, que pretendia inscrever na Constituição o rumo ao «socialismo no século XXI» e a entrega do poder direto «às comunidades organizadas», que acabaria derrotada nas urnas. 

Os jovens opositores que surgem no rescaldo das mobilizações, incluindo Guaidó, apelidam-se a si mesmos de ‘geração 2007’. Educados nos EUA e provenientes de famílias abastadas, vários dos seus elementos receberam financiamento de think thanks de direita norte-americanos. Por exemplo, Yon Goicochea, aliado próximo de Guaidó, recebeu meio milhão de dólares do Prémio Milton Friedman para o Aprofundamento da Liberdade. O prémio é nomeado em honra de um dos chamados ‘Chicago Boys’, responsáveis pela ‘doutrina de choque’ imposta no Chile pela ditadura sangrenta de Augusto Pinochet. O dinheiro financiou as novas redes políticas emergentes na Venezuela. 

Guaidó aproveitou o ímpeto para cofundar o Vontade Popular, em 2009. O partido é conhecido pela linha intransigente do líder fundador, Leopoldo López, condenado a 14 anos de prisão por incentivo à violência, segundos os juízes ligados aos Governo, atualmente sob prisão domiciliária. López é um retrato fiel das elites venezuelanas. Formado na Ivy League, junta a aura de preso político com o aspeto de estrela de cinema. Apadrinhou muito cedo Guaidó. É considerado o cérebro por de trás da atual ofensiva interna e externa contra Maduro. «Estamos constantemente em contacto e concordamos sempre», garante o autoproclamado Presidente.

Para promover Guaidó e organizar o seu apoio, López utiliza mensagens e chamadas no skype, tal como reuniões cara a cara na sua residência na capital, no bairro abastado de Chacao. «Em casa, ele trabalha com toda a oposição, com toda a gente», afirma a mulher de López, Lilian Tintori, acrescentado que o seu marido «se encarregou de unir a oposição».

As famílias dos dirigentes do Vontade Popular têm grandes laços entre elas. Guaidó é casado com Fabiana Rosales, com quem tem uma filha de um ano e meio, Miranda. Alega que forças especiais entraram em sua casa a semana passada, onde estava a sua mulher e a sua filha, num «ato de intimidação».

A subida de Guaidó no Vontade Popular foi facilitada pela detenção de nove dos seus líderes acusados por terrorismo e conspiração, levando vários dirigentes a fugir do país e deixando um vazio de poder interno.

O partido foi dos primeiros a tomar como principal objetivo o derrube de Maduro. Além de ter organizado os protestos de 2014, em que se registaram 40 mortos. Maduro descreve há anos o Vontade Popular como «o partido do golpe violento, que planeia derrubar o Estado».

Entre os pilares ideológicos do partido de Guaidó está a crítica ao alegado autoritarismo do Governo, tal como o restabelecimento de uma economia virada para o mercado. O que garante o apoio dos Estados Unidos - o principal investidor no setor energético do país, que tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo, até á chegada ao poder do chavismo.

A visão de Guaidó para o futuro da Venezuela foi clarificada esta semana. Carlos Vecchio, o representante do autoproclamado Presidente nos EUA, declarou à Bloomberg: «A maioria da produção petrolífera, que iremos aumentar, será no setor privado». Vecchio mostra vontade de construir «uma economia aberta», com o aumento do investimento estrangeiro. Boa parte dele presumivelmente vindo de multinacionais norte-americanas. *Editado por Vítor Rainho