Opiniao

«E das paredes nascem poesias…»

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Esta frase, também em Coimbra, afirma: «E das paredes nascem poesias…». É bem verdade que assim é, como temos visto nos vários exemplos já referidos neste espaço. Há quem cite poemas e há quem, ao escrever na parede, o faça de forma poética. Também pode dar-se o caso de alguém, ao ver algo escrito numa parede, sentir que a sua vida fica mais bela, com mais poesia.

Apesar de ser difícil classificar o que é ou não poesia, há algum consenso quanto ao que pode, efectivamente ser considerado poesia. Conta, a propósito, Clara Ferreira Alves, em artigo recente no Expresso, que: «No julgamento do poeta judeu russo americano Joseph Brodsky, futuro Nobel da Literatura acusado de parasitismo pelo Estado soviético, o juiz perguntou-lhe quem o tinha designado como poeta e como membro do território dos poetas. Brodsky, com 23 anos, respondeu: e quem me designou como membro da espécie humana?».

A poesia ajuda a viver, ajuda a enfrentar os problemas do mundo, com a sabedoria de quem vê tudo com lentes de ampliar, porque, como diz Tolentino Mendonça: «A poesia não serve para distrair, nem ornamentar, mas para nos reconduzir em chave sapiencial ao coração da vida».

Também Adam Schmalholz, campeão americano de «slam poetry», que esteve recentemente em Portugal a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, afirmou ao jornal Expresso que vive na expectativa de que «uma pessoa, ao sentir-se tocada por um poema, consiga fazer verdadeiras mudanças na sua vida, no sentido de criar uma melhor realidade para si mesma e para os outros».

Na sua crónica semanal na Visão, Lobo Antunes conta: «Quando me sinto desinfeliz vem-me sempre à cabeça o poema de Carlos Queiroz chamado “E no seu nome esperarão as gentes” (…). Porque é que isto sempre me comoveu e ajudou tanto? Porque volto a ser logo o menino que fui e que o poema torna mais forte no meio da grande solidão que todos temos às vezes». A poesia acompanha-nos e reconforta-nos. Por vezes, também nos questiona, interroga, ameaça. Mas, sobretudo, a poesia maravilha-nos porque nos transmite imagens belas que nunca sonharíamos formular, como os versos de Jorge de Sousa Braga, quando diz: «Mãe / um dia hei-de subir contigo / degrau / a degrau / o arco-íris». Ou o belíssimo poema de António Reis, que declara: «Não é a tua mão / filha // que eu levo / na minha mão// é uma raiz // que eu planto / em mim mesmo». Ou, ainda, a impossibilidade que, através do poema de Mia Couto, se torna real: «Pudesse ser eu tu / E em tua saudade ser a minha própria espera».

Cada poema formula uma possibilidade de existência para além da própria existência, uma vida para além da própria vida ou, como diz José Miguel Silva: «a ilusão de que a vida // não se esgota, como os saldos de Verão».

Porque é essa ilusão de que a vida «não se esgota», que nos é dada pela poesia (e também pela religião), que nos dá alento para enfrentar o «ar azul da madrugada», o bafo quente da manhã ou o conforto do lar. É a poesia que também nos alimenta, que, pelo menos, alimenta o espírito. E o facto de «das paredes nasce[re]m poesias» é algo que nem todos conseguem admirar – porque se atêm apenas à parede, que foi riscada –, mas, para quem o aprecia, trata-se de mais um poema que surge no seu caminho, mais um conforto, mais um abraço…

 

Maria Eugénia Leitão