Cultura

Papa Francisco quer mais que "uma simples condenação" dos abusos sexuais

No seu discurso de abertura da cimeira "de proteção de menores na Igreja", o papa Francisco reconheceu o crescente escrutínio sob a Igreja Católica, face aos sucessivos escândalos de abusos sexuais

No seu discurso de abertura da cimeira "de proteção de menores na Igreja", o papa Francisco reconheceu o crescente escrutínio sobre a Igreja Católica, face aos sucessivos escândalos de abusos sexuais, mostrando determinação em enfrentar o problema. "Esperam de nós não apenas uma simples condenação", afirmou o papa, considerando que são necessárias "medidas concretas e eficientes". O sumo-pontífice pediu aos prelados de todo o mundo que "oiçam o choro dos pequenos que estão a pedir justiça". 

Esta cimeira é um encontro histórico, que pela primeira vez reúne quase 200 bispos de todo o mundo com vítimas de abusos sexuais por sacerdotes. Reconhecendo que não se tratam de incidentes isolados ou locais, mas uma questão global, para a qual são necessários códigos de conduta claros. No entanto, a cimeira "não será algo limitado a três dias", explica Monsenhor Charles Scicluna, o arcebispo de Malta e um dos principais investigadores de abusos sexuais do Vaticano, numa conferência de imprensa, esta segunda-feira. "Não iremos resolver todos os problemas", acautela Scicluna, que diz que "dar seguimento será essencial".

Apesar dos passos em frente dados, o Vaticano continua a ser alvo de críticas pela sua dificuldade em transformar os seus procedimentos. "Enquanto uma obsessão por secretismo e pela proteção da reputação continuar no âmago da Igreja, por parte de quem tem o poder de fazer as mudanças necessárias, essa mudança não acontecerá", avisa Marie Collins, uma sobrevivente de abusos sexuais, em declarações ao "The Atlantic". Collins demitiu-se da Comissão Pontífica para a Proteção de Menores, estabelecida pelo papa em 2015, em protesto contra a rejeição da recomendação da comissão para a criação de um tribunal para bispos dentro do Vaticano. 

Nos últimos tempos, o papa tem tentado enfrentar os escândalos de frente, chegando a afirmar, na reunião de Natal deste ano da Cúria Romana, que "o maior escândalo neste assunto é esconder a verdade". Além de ter revelado este ano, pela primeira vez, a existência de casos de abusos de freiras por padres e bispos, tal de expulsar da Igreja o antigo arcebispo de Washington, Theodore McCarrick - o mais alto quadro do Vaticano a ser demitido em décadas - após este ser condenado por abusar crianças e adultos e solicitar sexo durante as confissões. São posições muito diferentes da que teve o ano passado, quando apoiou o bispo chileno Juan Barros Madrid, acusado de abafar um escândalo de abusos, apelidando as acusações contra o bispo de "calúnias". 

Quando questionado sobre evolução da posição do papa, quanto à crise de escândalos por abusos, o arcebispo Scicluna respondeu: "Eu concentraria-me onde ele se posiciona agora". O arcebispo diz estar "impressionado" com a capacidade do papa Francisco "em dizer 'eu errei', 'não voltará a acontecer' ou 'nós acertámos nisto'". Algo que dá ao investigador do Vaticano uma "grande esperança".