Internacional

Caxemira. Índia bombardeia posições no Paquistão e este reserva o direito de retaliar

"Chegou a altura da Índia esperar pela nossa resposta", avisa Islamabad depois do ataque indiano a alvos em solo paquistanês

A Índia bombardeou na madrugada desta terça-feira alvos no Paquistão e este diz que está pronto para responder ao ataque. “O primeiro-ministro pediu a toda a gente para se preparar para qualquer eventualidade. Estamos prontos, Chegou a altura da Índia esperar pela nossa resposta”, disse o diretor dos serviços de comunicação das forças armadas paquistanesas, o major-general Aspic Gafo, em conferência de imprensa.

A tensão entre os dois países desde o atentado em Caxemira que provocou a morte de 40 soldados indianos subiu agora de tom e ameaça fazer deflagrar uma nova guerra entre as duas potências nucleares que já travaram outras quatro guerras desde a sua independência do Reino Unido em 1947.

O ataque aéreo lançado na manhã de ontem pela Índia contra alvos piadistas no Paquistão, nomeadamente um campo de treino em Balakot do Jaish-e-Mohammad (Exército de Maomé) que reivindicou o atentado de Pulwama, desatou grandes celebrações nas ruas indianas. Nova Deli garante que matou centenas de militantes do grupo radical muçulmano no seu ataque aéreo para lá da linha de controlo que separa as duas Caxemiras, algo que Islamabad desmente categoricamente.

“Eles afirmam que permaneceram 21 minutos no espaço aéreo paquistanês e mataram 350 terroristas. Afirmam que o segundo ataque foi em Muzzafarabad o terceiro em Chakothi”, referiu o major-general Ghafoor, que acrescentou que não se devem “fazer reivindicações grandiosas” que não correspondem à verdade.

As forças armadas garantem que as suas defesas estavam preparadas e que os aviões indianos nunca chegaram a entrar no seu espaço aéreo, muito menos numa incursão tão longa. “Venham e tentem passar 21 minutos no espaço aéreo paquistanês”, desafiou. “A sua aproximação da fronteira, o desafio e o voltar para trás demorou quatro minutos”, garantiu o porta-voz das forças de defesa paquistanesas.

“Se tivessem atingido alguma posição militar, teria havido combate. Mas não o fizeram porque se o tivessem feito, os nossos soldados estavam prontos”, acrescentou. “O objetivo da Índia não é esse - o governo de [Narendra] Modi, mesmo quando viola o cessar-fogo na Caxemira Livre, ataca deliberadamente alvos civis. Se tivessem atacado os militares, então teria teria martirizado pessoal uniformizado e não lhes servia o objetivo. Queriam atacar um lugar onde pudessem morrer civis, para que pudessem afirmar que tinham atacado um campo terrorista”, mas, tal não aconteceu refere o oficial.

Aquilo que aconteceu, acrescentou, foi que os aviões indianos foram perseguidos pela Força Aérea paquistanesa e libertaram-se do peso que transportavam - “quatro das suas bombas caíram em Jabba [Balakot]” sem atingir ninguém.

“Eles afirmam que mataram 350 terroristas; eu digo que mesmo que tivessem matado 10, então e os corpos, os funerais, o seu sangue?”, disse o major-general, garantindo que “o local está aberto a toda a gente” para ser inspecionado, “embaixadores, adidos militares, o grupo militar de observação da ONU no Paquistão”.

Um relato muito distante do que o governo nacionalista indiano transmitiu ao mundo e à sua população. O BJP, que perdeu três eleições em estados indianos em dezembro e está em pré-campanha para as eleições gerais de maio, está a aproveitar o atentado em Caxemira para afastar o debate das dificuldades económicas e centrá-lo na questão da segurança, com o Paquistão, o inimigo figadal, como alvo privilegiado da retórica belicista.

O ataque em território indiano é a sua resposta ao atentado de 14 de fevereiro. “Um grande número de terroristas do Jaish-e-Mohammad” foram mortos, disse esta terça-feira o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros indiano, Vijay Gokhale, num anúncio que desatou festejos nacionalistas nas ruas, com fogos de artifício e muitas bandeiras.

Sabendo do terreno pantanoso em que a questão da segurança e do inimigo paquistanês representa na Índia, Rahul Gandhi, o líder do principal partido da oposição, o Congresso, “felicitou os pilotos da Força Aérea Indiana” pelo ataque, sem questionar a informação do executivo.

Bombardeamentos para lá da linha de controlo são frequentes, mas incursões no espaço aéreo do vizinho são raros, pelo potencial de gatilho de um conflito de maior escala entre dois países nucleares com abundantes recursos militares. Mas com Pulwama tão perto da eleição, Modi e o seu partido parecem empenhados em aproveitar o trunfo para trazer os tresmalhados eleitores nacionalistas hindus ao seu redil do BJP (Partido do Povo Indiano.