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A doutrina socialista sobre as fake news – uma polémica quixotesca

Numa coincidência, Graça Fonseca, ministra da Cultura com o pelouro da comunicação social, Nicolau Santos, presidente da Lusa, e Catarina Carvalho, diretora executiva do Diário de Notícias, tiveram todos a mesma ideia de combater as fake news lusas.

Por economia de espaço, vou dissecar o artigo de opinião de Catarina Carvalho saído no DN sob o título Arnaldo, Rui e os tuítes (que compila os argumentos habituais). A jornalista usa, para o efeito, o exemplo de dois políticos, Arnaldo Matos, falecido esta semana, e Rui Rio, presidente do PSD.

A primeira ideia enunciada é que «a política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens».

Este argumento, na verdade, são dois: a simplicidade dos meios versus a complexidade da política (matéria sofisticada só ao alcance de iluminados, não acessível às pessoas com menor grau de educação), e a velocidade de comunicação. O primeiro argumento é reacionário. Sobre a rapidez da propagação das mensagens, já se escreveu e disse exatamente o mesmo quando se inventou a máquina de imprensa, depois a rádio e finalmente a televisão.

O segundo argumento invocado é que as redes sociais não estão sujeitas à «incómoda mediação jornalística». Isto seria pressupor que os media tradicionais fazem essa mediação – quando, na verdade, não a fazem. De cada vez que os media publicam os anúncios do Governo, por exemplo, de investimentos em habitação ou na ferrovia que não se vão concretizar, como se fossem verdadeiras notícias, e não voltam a confirmá-los depois para verificação dos factos, não fazem mediação, tornam-se meros megafones da propaganda governamental.

Neste ponto, a jornalista diz que fonte do PSD ‘sem vergonha’ assume que Rui Rio quer comunicar diretamente com as pessoas vendo no jornalismo uma «descontextualização». Este ponto levanta uma questão muito interessante: então, o político está proibido de tentar comunicar diretamente com as pessoas, com os eleitores? Deve o político fechar-se na sua torre de marfim e esperar que os media o questionem, fazendo depois a ‘contextualização’ das suas palavras? E se os media decidirem que Arnaldo Matos ou Rui Rio não merecem ser ouvidos ou ‘contextualizados’?

O quarto argumento, exemplificado com Arnaldo Matos, é que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava «passar a sua mensagem política dura, rápida cruel e sim, simplista. Para quem não quer perder tempo com explicações, o Twitter é ideal».

Temos de retorquir que a rapidez, dureza, crueldade e sobretudo, simplicidade, são aparentes. O Twitter é semelhante à boa publicidade ou a um bom verso: aquele conteúdo tem de ter qualidade intrínseca ou uma personalidade forte para o sustentar. Ninguém está no Twitter para «não perder tempo»; aliás, a maior parte já migrou da blogosfera, e irá migrar para outro meio novo.

Com Arnaldo Matos, chegamos ainda ao quinto argumento: a doutrina. «Os tweets são propaganda e fazem doutrina». Aqui chegados, estamos perante o pressuposto que qualquer pessoa chega ao Twitter e em 140 ou 280 carateres estabelece uma doutrina. Ora, nesta rede social estão os melhores pensadores, ativistas, jornalistas, políticos, professores, académicos, pessoas profundamente qualificadas e impiedosas, rápidas a contra-argumentar, a criticar, a arrasar. O nível de escrutínio e objeção no Twitter é francamente superior a outro meio. Não faz doutrina quem quer.

Em sexto lugar, para a diretora-executiva do DN, esta forma de comunicar é enganadora: serve para «enganar» jornalistas, para que estes «peguem» (estou a citar) nas mensagens e as ampliem. Pergunto: os jornalistas são assim incapazes de escrutinar? Não é um bom retrato da classe...

Em sétimo lugar, o número de seguidores: Rui Rio é um perigo porque tem cerca de 3.000 seguidores – «o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal». Realmente, os 3.000 seguidores de Rio comparam bem com os 492 seguidores de Catarina Carvalho, mas comparam muito mal com os 37.103 seguidores de Fernanda Câncio, jornalista desse mesmo jornal. Fechem-lhe já a conta, que é uma ditadora em potência.

Enfim, os D. Quixotes já se apresentaram, anacrónicos.

sofiarocha@sol.pt