Em todas as ruas te encontro

«Se o mundo fosse feito de ouro, os homens lutariam por um punhado de barro»

E este «pensamento em preto no branco» descreve uma hipótese que poderia ser verdade porque nós valorizamos o que é raro, o que não é comum, e procuramos a diferença

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Esta frase, que a Eulália fotografou na estação de comboios de Entrecampos, em Lisboa, diz: «Se o mundo fosse feito de ouro, os homens lutariam por um punhado de barro».

A estação ferroviária disponibilizou, a quem quiser utilizar, retângulos pretos onde é possível escrever frases, pensamentos, ideias. Está, assim, a ordenar os grafitos que cobriam as paredes e, simultaneamente, a apelar à criatividade de quem sente ter algo a dizer.

E este «pensamento em preto no branco» descreve uma hipótese que poderia ser verdade porque nós valorizamos o que é raro, o que não é comum, e procuramos a diferença. Realmente, «se o mundo fosse feito de ouro», o ouro seria banal e nós não o valorizaríamos. Procuraríamos, antes, algo diferente, como «um punhado de barro». E todos quereríamos possuir esse material, como o bem mais precioso.

Efetivamente, nós procuramos ter aquilo que não temos, queremos sempre mais e melhor. E isso faz parte da natureza do ser humano. É uma característica individual, comum a todos os homens, daí que coletivamente se torne um traço geral. E, assim, ao almejarmos todos o mesmo, acabamos por criar guerras e lutar por um mesmo pedaço de matéria. Se o ouro fosse, pois, comum, lutaríamos por algo diferente, que até poderia ser um mero pedaço de barro. Até porque o Homem, segundo a narrativa cristã, foi criado a partir do barro, foi moldado dessa matéria básica, feita de uma mão-cheia de terra e água.

E, infelizmente, ainda hoje as guerras têm por base essa luta por aquilo que alguém não tem e quer – um pedaço de terra, um material natural como o petróleo ou os diamantes, tecnologia que garantirá a supremacia face a outros países, uma ideia ou um ideal… E para essa guerra é mobilizado todo um povo, que, não a querendo, acaba por ser envolvido numa luta, sem nunca chegar a possuir aquilo que deu origem à guerra. Trata-se de uma situação injusta, que, há não muito tempo, no nosso País, mobilizou os jovens para a guerra nas chamadas colónias, onde muitos abateram sob a violência ou cederam à pressão psicológica, engrossando as fileiras do Hospital Júlio de Matos, perseguidos por tiros, bombas, imagens de companheiros a agonizar ou, simplesmente, com medo de tudo e de todos, não fosse o inimigo chegar a qualquer momento, porque, da guerra, como diz Lobo Antunes, em Até Que as Pedras se Tornem Mais Leves Que a Água: «só sai quem lá não entra».

É óbvio que há outras guerras, talvez até mais «emblemáticas», como as guerras mundiais, mas esta passou-se connosco, com os nossos irmãos, os nossos maridos, os nossos pais, os nossos avós. Trata-se de uma guerra próxima, de uma guerra «nossa», de uma guerra que nos trouxe longas lágrimas de sofrimento. E até de «desprezo do Universo por nós», enquanto durou e quando acabou, com o regresso ao território português de milhares de pessoas que viviam nesses territórios que eram um prolongamento de Portugal e que se tornaram países independentes a partir de então. Muitas dessas pessoas tinham nascido aí e esses países eram os seus, os únicos que tinham conhecido, nunca tendo estado em Portugal, nem conhecendo os familiares que cá moravam e que para eles olhavam com desconfiança porque lhes batiam à porta, surgindo de um passado longínquo, tão longínquo que dele não se queriam lembrar.

Diz Alberto Caeiro: «A guerra, como tudo humano, quer alterar. / Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito / E alterar depressa. // Mas a guerra inflige a morte. / E a morte é o desprezo do Universo por nós».

Seja por um pedaço de ouro ou por um punhado de barro, infelizmente o Homem encontrará sempre motivos para lutar, para se confrontar com os outros e levantar um véu de saudade.

 

Maria Eugénia Leitão