Internacional

Feijão está caro pra cacete

O feijão, parte essencial da dieta brasileira, duplicou de preço. Mais uma dor de cabeça para o Governo de Bolsonaro que já tem as suas próprias dores autoinfligidas.

Adriana Sicutti não queria acreditar. «Me assustei porque o preço atual foi o dobro do que comprei no começo do mês, então, aumentou muito.» Apesar do susto, a dona de casa de Vitória, no estado do Espírito Santo, não admite prescindir do elemento essencial da sua dieta e da maioria das famílias brasileiras: «A gente tem que se virar. Diminui a quantidade, acrescenta um pouquinho mais de água para poder render e não deixar de ter o feijão todos os dias», contou ao site G1.

A subida do preço do feijão, sobretudo o carioca, que é o mais consumido no Brasil (60%), está a perturbar o quotidiano dos brasileiros, sobretudo os mais pobres, que têm de puxar mais pela cabeça para botar o arroz com feijão na mesa. O feijão mulatinho, mais consumido no nordeste, chegou em São Salvador da Bahia aos 10 reais (2,30 euros). No final de dezembro, o preço médio rondava os 3,50 reais (80 cêntimos).

No Vale do Paraíba (que abrange partes dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde se concentra parte considerável do PIB brasileiro), o preço do cabaz de compras subiu 1,44% em fevereiro, influenciado sobretudo pela subida de 55% do preço do feijão.

Como cantava Gonzaguinha, lá no final dos anos 1970 «dez entre dez brasileiros preferem feijão, esse sabor bem Brasil, verdadeiro fator de união da família», porque, lá está, «o feijão tem gosto de festa, é melhor e mal não faz».

Só que o preço começa a pesar na carteira e há quem esteja a reduzir a quantidade consumida ou a substituir o feijão por outro tipo de leguminosa. «Aqui em São Paulo, o consumo diminuiu, o povo está substituindo por lentilhas, grão de bico», diz ao SOL Josie Borges, operadora de agência de viagens de Osasco, município da região metropolitana de São Paulo.

Marcelo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), explica que o aumento dos preços se deve ao facto dos produtores terem reduzido a área plantada, após dois anos seguidos de prejuízos por causa do excesso de oferta. A seca nas regiões do sul e sudeste do país reduziu ainda mais a colheita, contribuindo para que a saca de feijão carioca tivesse chegado a 400 reais (92 euros).

«A situação é grave. Não temos feijão suficiente para atender à demanda», garante Lüders, citado pela imprensa brasileira. Como o feijão carioca é uma espécie autóctone, a falta de produção implica a escassez, por não ser possível suprir o que falta na oferta com importações. E os preços devem manter-se assim até abril, altura da segunda colheita.

O Ibrafe, no seu site, procura amenizar o impacto da situação, garantindo que em 2016 a população estava mais assustada. «Após o Carnaval, diversos sites e medias repercutiram com mais intensidade o impacto nos índices de inflação da alta do feijão, principalmente do feijão carioca. Nem podia ser diferente, porém o que se vê em relação a 2016, quando ocorreu um período de grande valorização também, é que os memes na Internet estão mais raros. A opinião pública somente se expressa quando provocada por algum jornalista. Até agora não houve reação espontânea nas redes sociais que, quando ocorrem, não deixam de ser uma forma de protesto», escreve o instituto.

No final de fevereiro, Lüders e outros representantes dos produtores de feijão reuniram-se em Brasília com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, para pedir apoios para os produtores, nomeadamente que o governo federal compre o excedente em alturas que ele existe e o coloque no mercado em tempo de escassez. Mas saíram sem respostas concretas por parte do Governo de Jair Bolsonaro.

Em algumas zonas do país já se nota a diminuição do consumo de feijão, como dizem os inquéritos de opinião do Ministério da Saúde, e Lüders andou por Curitiba no mês passado em campanha para promover o seu consumo. «Caiu a quantidade de feijão que o povo está consumindo e isso é bastante preocupante», afirmou em entrevista à rádio CBN de Curitiba. «Nos últimos cinco anos, o Brasil teve um decréscimo de 6% e Curitiba de 20%», explicou.

A versatilidade, a quantidade de proteínas, calorias e vitaminas e o preço baixo transformou o feijão na maior fonte de proteína da dieta alimentar do brasileiro médio - junto com a carne bovina e o arroz corresponde a 70% de toda a proteína consumida no Brasil.

«Não tem como substituir o feijão, é até uma questão cultural», explica Valéria Neves, proprietária de um restaurante em Vitória do Espírito Santo. «O brasileiro está acostumado a comer arroz com feijão e o alimento é a base do dia a dia de muitas pessoas. O problema é que o feijão dobrou de preço e não tenho como aumentar o preço da comida aqui no restaurante, pois o salário das pessoas não sobe todo dia», acrescenta, citada pelo G1. Daí que haja até pessoas que acabem por comer em lanchonetes, nos restaurantes populares, onde o arroz com feijão, de repente, até compensa. É isso ou ter de se resignar a fazer uma ‘lentilhada’ ou uma ‘grãozada’ à brasileira. Não é feijoada, mas sempre dá para se manter nas leguminosas.