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Pelé, mais menino era impossível

Se, no futebol, os miúdos estão na moda, o que dizer de um garoto de 17 anos que cometeu a proeza de ser campeão do mundo entre adultos...

Pelé, mais menino era impossível

O futebol anda fascinado pela juventude. Mbapé, Vinicius, João Félix... «Young is beautiful!». Há neles o encanto da promessa, o chamado de um tempo que não tempo. Poderão ser o que quiserem até ao fim daquilo que imaginamos como fim das eras.

O problema é que, quando se fala em juventude, ou melhor, em infância, é impossível não falar em Pelé. Reparem: no dia 29 de Junho de 1958, o Brasil venceu a Suécia, no Estádio Raasunda, por 5-2. Pela primeira vez uma seleção vencia um Campeonato do Mundo num continente que não o seu; pela primeira vez uma seleção vencia uma final de um Campeonato do Mundo de goleada. Pelé tinha somente dezassete anos. Fixem o algarismo: 17. «Pelé é um menor total, irremediável», gritava Nelson nas páginas da Manchete Esportiva. «Não pode nem assistir a um filme da Brigitte Bardot. Ao receber o ordenado, o bicho, é o pai que tem de representá-lo. Pois bem: – Pelé assombrou o mundo! Não se limitou a fazer os gols. Tratava de enfeitá-los, de lustrá-los. Ninguém é melhor do que ele. Tivesse jogado contra a Inglaterra e creiam: – havia de driblar até a rainha Vitória».

Nelson gostava de exageros. A Rainha Vitória há muito que se transladara para a aldeia das tabuletas. Já Edson Arantes do Nascimento, por extenso Pelé, era um menino que o departamento psicológico que apoiava o selecionador Vicente Feola considerara absolutamente incapaz de envergar a camisola canarinha por total falta de maturidade. Aliás, o mesmo departamento aconselhou a não convocação de Garrincha por fortes evidências de retardamento mental.

Feola era um tipo gorducho, bem humorado. Esteve-se nas tintas para a psicologia. Demorou a entregar a titularidade a Pelé e a Garrincha, mas a partir do momento que o fez o mundo pôde ver algo que nunca pensara existir: futebol para lá dos confins da imaginação e da criatividade.

Voltemos à incrível juventude de Pelé. E à forma como entrou num universo de adultos com o descaramento de Peter Pan, o rapazinho que nunca cresceu. E recuemos dois anos no tempo, se isso não vos incomoda.

Dia 7 de Setembro de 1956. Aos 20 minutos da segunda parte, o Santos vencia o Corinthians por 5-0. Então, Lula, treinador do Santos, não teve dúvidas: tirou Del Vechio e fez entrar o menino que não completara ainda dezasseis anos. Por esses dias, Pelé já era Pelé, mas não muito. Havia quem o chamasse de Gasolina. Subiu ao relvado com a camisola nº 13. Quinze minutos decorridos, Raimundinho deu a bola para Tite e este passou a Pelé, à entrada da grande-área. Pelé deu um toque ligeiro, fez passar a bola por sobre a cabeça de um defesa e, apertado por outro, chutou por entre as pernas do guarda-redes adversário: o sexto golo de um encontro que o Santos venceria por 7-1.

Zuari Torres Rodrigues: ficou para a história como o primeiro guarda-redes a sofrer um golo de Pelé. Abandonaria a carreira pouco depois. «No primeiro golo, Pelé já era um craque», afirmou certa vez. Depois contou: «Eu poderia ter defendido. Mas fiquei meio sem saber o que fazer. Ele passou abola por cima da cabeça do Mário e quando fui na direção das canelas fininhas do garoto já ele tinha metido o gol por debaixo das minhas pernas».

 

15 anos!

Não se esqueçam: este Pelé ainda tinha 15 anos. Não 19, 20 ou 21 como os miúdos que hoje estão na moda. Quinze! Com ponto de exclamação. Zuari mandou fazer um cartão de visita. Com orgulho: «Primeiro goleiro a sofrer um golo de Pelé».

Nelson Rodrigues: provavelmente o maior mestre da crónica futebolística que alguma vez se sentou em frente de uma máquina de escrever. Para falar de Pelé não é possível fugir a tudo aquilo que escreveu sobre Pelé. Vejam: «Dezassete anos! Na idade em que o pobre ser humano anda quebrando vidraça, ou jogando bola de gude, ou raspando perna de passarinho a canivete, Pelé torna-se campeão do mundo. Estava lá um rei, Gustavo, da Suécia. E viu-se, então, essa coisa que estaria a exigir um verso de Camões: – o rei desceu do seu trono e foi cumprimentar, foi apertar a mão do menino Pelé. Então, pergunto: – que experiência real teria o menino de cor? Havia de conhecer, no máximo, rei de baralho ou o Rei Patusco do gibi. Gustavo foi o primeiro rei autêntico que lhe mostrou os dentes num soberano sorriso».

Estão a ver? Pelé e o rei. Pelé que viria a ser o Rei. Ou o rei e o miúdo que chorou convulsivamente no final do jogo contra a Suécia. Isto é: chorou como um menino.

Não se convençam, no entanto, que a meninice de Pelé ficava distante das críticas. Nelson Rodrigues outra vez: «Um conhecido meu veio protestar: – ‘Pelé não pode ser craque! Com dezassete anos, ninguém pode ser craque!’. Na minha cólera, tive vontade de subir pelas paredes como uma lagartixa profissional. Mas o meu consolo foi que, ao mesmo tempo, saía no Paris-Match, que é uma revista mundial, uma vasta, erudita e compacta reportagem sobre Pelé. Lá vinha escrito: – ‘Pelé, rei do Brasil’. Enquanto, aqui, o brasileiro achava exagerado o próprio entusiasmo, uma revista parisiense punha o garoto brasileiro nas nuvens. Direi mais: – Paris-Match comportava-se diante de Pelé com a histeria de uma macaca de auditório».

A história repete-se com uma fatalidade digna do Destino. Mal João Félix começou a cintilar no céu vermelho do Benfica, li aqui e ali crónicas trocistas, algumas assinadas por quem devia ter juízo. Deus me livre de comparar Félix a Pelé, como me livre também a figura mor da Sagrada Família de comparar Mbapé ou Vinicius àquele que foi, para mim, sem discussão, o melhor jogador de todos os tempos.

Toda esta prosa veio ao ritmo de uma recordação. De cada vez que um fedelho de 18 anos entrar num estádio de Portugal, recordem-se do que foi o mais menino dos meninos sobre um relvado. Tinha 17 anos mal feitos quando o seu Santos venceu o América. Jogou barbaridades. E Nelson: «Examino a ficha de Pelé e tomo um susto:  dezassete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverosímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezassete anos, jamais. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das nuvens. É, de fato, um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme de Brigitte Bardot, seria barrado, seria enxotado. Mas reparem: é um génio indubitável. Digo e repito: génio. Pelé podia virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com íntima efusão: ‘Como vai, colega?’».

Pode ser que os miúdos estejam na moda. Pelé nunca sairá dela. No futebol não houve menino como ele.

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