Sociedade

‘Afastei-me do PS quando Sócrates chegou à liderança’

Ex-secretária de Estado e ex-dirigente do PS de Guterres tece duras críticas ao PS e conta como se foi afastando do partido.


Foi um divórcio frio e distante. Ao fim de 25 anos, Ana Benavente saiu há pouco mais de um mês do PS. Partido com o qual a ex-secretária de Estado da Educação dos Governos de António Guterres diz não ter qualquer ligação «há mais de dez anos». Em entrevista ao SOL, a ex-dirigente socialista conta que enviou uma carta a formalizar a saída e que não espera «qualquer resposta», sentindo «um profundo desacordo» com as políticas seguidas pelo partido para a Educação e Habitação. O afastamento «progressivo» começou, sobretudo, depois de José Sócrates ter sido eleito secretário-geral. E já  depois das Europeias de 2014, mas ainda antes da liderança de Costa, Ana Benavente conta que conversou duas vezes com António José Seguro para deixar o PS, mas, na altura, o líder convenceu-a a ficar. A ex-secretária de Estado tece ainda duras críticas ao atual ministro, Tiago Brandão Rodrigues, a quem não reconhece competência para o cargo, e conta por que pediu para sair da equipa de Augusto Santos Silva, à altura o seu ministro da Educação. Pelo meio, relata ainda o ambiente que se viveu no Secretariado do PS por ocasião do caso Casa Pia.

Foi muito crítica do Governo de José Sócrates e da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues. Saiu do PS nessa altura?

Só saí do PS agora. 

Na altura não saiu?

Não. Só saí há mês e meio. 

Mas houve notícias a dar conta da sua saída…

Sim. Estive para sair. Mas à época o secretário-geral era António José Seguro, a quem me dirigi para entregar o cartão de militante porque tinha sido do Secretariado Nacional e da Comissão Permanente e, portanto, achei que devia entregar em mão. E ele convenceu-me a ficar. Pediu-me que ficasse.

E agora? Também entregou em mão o cartão de militante?

Enviei carta e não espero qualquer resposta. Apenas formalizei o afastamento, desejando as maiores felicidades ao PS, com saudações democráticas.

Foi ficando no PS nos últimos anos...

Fui ficando. Depois dessa conversa com Seguro, foi eleito o atual secretário-geral e o tempo foi passando. Mas há muitos anos, há mais de dez anos, que não tenho qualquer atividade no PS. E como a minha história política e cívica não tem que ver com famílias, com pertencer à máquina, etc., achei que não fazia sentido nenhum estar ligada a uma organização com a qual não desenvolvia nenhuma atividade. 

Não participava em reuniões?

Em nada. Rigorosamente nada. Além de que tenho um profundo desacordo com os atuais responsáveis da Educação. Achei que era mais saudável para todos afastar-me, continuando à esquerda. 

Qual foi o argumento de Seguro que, na altura, a fez ficar no PS?

Foram duas conversas, logo a seguir às europeias [realizadas a 25 de maio de 2014]. Nessa época já não tinha nenhum contacto com o partido. Desde que saí para a Assembleia em 2001 que me afastei. Tinha criado a secção de Lisboa do PS e não me identificava com as pessoas que lá estavam. Fui-me afastando, foi um processo progressivo. Na altura, Seguro pediu-me muito simpaticamente, em nome de todo o trabalho que tínhamos feito em comum e do apreço que tínhamos um pelo outro, que não saísse do PS. Simbolicamente, é sempre um momento difícil. Na altura, aceitei. Não fiquei muito convencida mas esperei por uma nova etapa da vida do PS. 

E chegou uma nova etapa...

A nova etapa, com António Costa, traduziu-se numa ainda maior distância. E como tal, é saudável sair. É para isso que existe a democracia, para não sermos obrigados a fazer parte de um coletivo com o qual não nos identificamos.  

Como vê o PS de hoje?

Os partidos têm fases. Neste período não me identifico com a política do PS para a área da Educação e não só, na área da Habitação, também. 

Porquê?

Vejo um PS muito comprometido com o mercado e com o pior que tem o capitalismo. Não me identifico. E há tantos anos sem atividade, cheguei à conclusão que nem o PS precisa de mim e nem eu preciso do PS. É uma frase horrível que se diz lá dentro.

Mas é um PS muito diferente daquele que conheceu?

Entrei no PS para a preparação dos Estados Gerais no tempo do Guterres [apresentados em 1995 no Coliseu, em Lisboa]. Fiz parte do Secretariado Nacional. Esse período foi muito importante, de grande unidade e de grande investimento na Educação. 

Durante o período de afastamento tem votado PS?

Nem sempre. Depende. Já votei PS e já votei noutros partidos. Nas últimas presidenciais assumi publicamente que votava Bloco de Esquerda, Marisa Matias.

Estava no Secretariado Nacional quando houve o caso da Casa Pia. Como se viveu isso no partido?

Lembro-me de um espanto imenso. Uma incredibilidade absoluta. Mas sendo uma questão que era de outra natureza, nunca foi discutida no partido. 

Nunca se falou do assunto?

Não. Não era um tema político. 

Mas era tema tabu?

Não. Não era sequer um tema tabu. Não fazia parte da agenda política. A justiça seguiu o seu caminho e foi assim. Se foi falado, foi em pequeno comité mas comigo presente, nunca. Houve alguns momentos em que não se perceberam as fronteiras e havia um grande mal-estar da nossa parte. 

Havia?

Havia, mesmo meu. Conhecendo algumas das pessoas em causa, o  primeiro momento foi de imensa incredibilidade. Pareceu-me algo estranho. E depois houve um mal-estar, em que se pensa: será verdade, não será verdade, se for verdade o que significa. Se não foi verdade é uma coisa horrível porque se acaba com as vidas e com as carreiras das pessoas. Por outro lado, detesto internatos, porque vivi num durante a minha juventude. Acho os internatos doentios e o que é certo é que aqueles rapazes já tinham falado com o Presidente Ramalho Eanes, viu-se nos documentos, e já tinham feito denúncias que nunca tinham sido levadas a sério. E temos de olhar para um lado e para o outro. 

Esse caso abriu uma chaga no PS?

Foi uma dor. Mas não era um tema político em relação ao qual o PS tivesse de tomar uma posição conjunta ou inclui-se nas suas campanhas. Agora, olhávamos uns para os outros como que uma desgraça que se abateu num de nós, ou em alguns de nós. Este caso foi muito singular na sociedade e toca em algo de muito sensível. Conhecia os sociólogos de trabalhos e de colaborações anteriores e fiquei absolutamente estupefacta. 

Na altura houve a tese de que a história não correspondia à verdade e que tinha sido inventada para decapitar a direção do PS. Partilha dessa tese?

Não. Sou bastante adversa às teorias da conspiração. Acho que se cometem erros, acho que se cometem injustiças, mas não acredito em teorias da conspiração. Nem nós temos organização para tal, só se for no mundo económico, com os bancos. 

O caso Casa Pia acabou por levar à queda de Ferro Rodrigues e à ascensão de José Sócrates. Foi um erro do PS manter Sócrates como candidato às legislativas em 2011?

Foi. Afastei-me do PS quando José Sócrates foi eleito secretário-geral. 

Porquê?

Nunca me identifiquei com os Governos de Sócrates. Nunca. Nem com as políticas, nem com o modo de estar e já não me sentia a fazer parte do PS. E há afastamentos que depois já não se recuperam. Já não faz sentido para mim qualquer aproximação. 

Pensou em aderir ao Livre mas depois recuou...

Foi, mas recuei porque cheguei à conclusão de que estava a ser criado exatamente como qualquer outro partido e estava muito centralizado em Rui Tavares. E pensei, repetir não. Penso que o Livre está demasiado próximo de muitas posições do PS e isso não me agrada. Para isso, então, fico no PS.  

Revê-se em algum partido de esquerda?

Não me revejo totalmente em nenhum partido. Revejo-me na ala da esquerda. Ao contrário do que acontece, geralmente, com a idade em que nos vamos sentindo mais integrados, não acontece no meu caso. Pelo contrário. Nesta fase da vida prefiro sentir-me livre e participar em movimentos sociais. 

O que acha desta solução política?

A solução acho bem, acho feliz. Mas esperava mais.

Em quê?

Em muitos domínios ,como na Habitação ou na Educação. 

Os partidos de esquerda deviam ter sido mais firmes?

Não sei. O Bloco saberá quais são as barreiras, os limites e as linhas vermelhas que o PS traçou. Não está tudo em discussão. A Educação não está em discussão. O BE também era contra esta solução para os professores em que o PS ficou isolado. Mas esperava mais. 

De todos os partidos?

Desta maioria parlamentar de esquerda. Esperava um PS mais à esquerda, que não temos. E esperava que as soluções, com esta aliança, se traduzisse em medidas mais à esquerda. 

Como tem visto as relações familiares na equipa governamental?

Este tipo de situações, em relação às quais não se está atento, alimenta aquilo que é chamado de populismo. Não lhe chamo populismo, chamo-lhe zanga dos cidadãos. Os cidadãos, quando ouvem essas notícias, que são verdadeiras, desconfiam dos políticos e ficam zangados. É preciso estar atento. Levo muito a sério o descontentamento das pessoas. 

Há exagero no número de relações familiares?

Não sei quantos são os membros do Governo envolvidos. Mas mandaria a ética e o bom senso que não houvesse tantas situações. Pode acontecer num caso ou noutro e as pessoas não têm que ser penalizadas. Mas quando começa a formar-se num caso, porque são muitos, e se são mais do que em Governos anteriores, acho mau.  

E como vê o comportamento dos deputados, com as falsas viagens e falsas presenças?

Os deputados sabem que estão sob vigilância democrática. Devem ser escrupulosos. Quando há um caso que não é bem explicado e se a seguir vem alguém e diz ‘vamos fazer uma legislação mais restrita’... então parece que havia alguma razão e que era permissivo. Senti muito isso quando estava no Parlamento. Sempre vivi em Lisboa, mas fui eleita por outros distritos e faziam-me a conversa de alterar a residência para esses distritos para ganhar muito mais.

Já havia essas conversas na altura?

Já, já. Sempre houve. Isto é muito português, está muito enraizado.

Ficou desiludida com a política?

Fiquei com pena, por mim, em ter conhecido alguns bastidores. Escusava de ter conhecido. Fiquei desiludida. 

Mais no Governo ou no Parlamento?

Na política.