Politica

‘O PS falhou com os professores e vai pagar a fatura’

Para a ex-secretária de Estado da Educação de Guterres, o braço-de-ferro com os professores foi uma ‘birra’ do Governo e tão cedo os docentes não votarão no PS. Sobre o atual ministro da Educação, Ana Benavente diz não ter dúvidas de que está no cargo apenas para «fazer o que o mandam fazer», não lhe reconhecendo «nenhuma competência».  


Como chegou ao Ministério da Educação?

Pouco depois de entrar no PS, fui desafiada para traduzir as minhas sugestões em políticas. Fui desafiada primeiro por António Barreto, que acabou por se afastar, depois por Guilherme d’Oliveira Martins e depois por Marçal Grilo, que foi ministro da Educação e com quem passei quatro anos fantásticos de colaboração e de trabalho intenso. Depois estive mais dois anos, com Guilherme d’Oliveira Martins. No último ano, em 2001, trabalhei com o atual ministro dos Negócios Estrangeiros, que foi a razão pela qual pedi para sair do Governo. Não gostei de trabalhar com ele. 

Porquê?

Por muitas razões. Modos de estar na política e de trabalhar, ou não, em equipa. O espírito de equipa funcionou muito bem com o ‘team’ anterior, com Marçal Grilo e com Guilherme d’Oliveira Martins, que até são pessoas mais diferentes de mim [do que Santos Silva]. Fomos sempre de uma grande lealdade e as coisas correram muito bem.

O que a levou a pedir para sair?

A questão dos rankings dividiu-nos profundamente. Esses rankings que andam aí, desde 2001, que não dizem nada de nada, que não mostram nada e que abafam e dão cabo da escola, esses rankings foi ele [Santos Silva] quem permitiu que saíssem. 

É contra os rankings?

Não sou contra que os resultados sejam conhecidos, mas deve ser feito com inteligência. Na altura, a França tinha feito um trabalho importante, que eram os rankings ponderados. Tinham em conta o grau de escolaridade e as profissões dos pais dos alunos, o meio social em que está a escola. Era isso que eu defendia. Só agora é que se começa a divulgar esses dados, mas já ninguém quer saber. Há demasiados efeitos perversos com os rankings e por isso, nessa altura, disse ao primeiro-ministro, António Guterres, que queria sair e ele pediu-me para esperar por uma remodelação. E saí. Depois estive na Assembleia  da República até 2004.

Fez parte de um Governo que assumiu a Educação como paixão. Essa paixão murchou para o PS?

Hoje está murchíssima. Foi murchando. Lamento muito porque temos um atraso educativo imenso, com indicadores muito difíceis de recuperar, como é o caso da literacia. E a escola pública democrática e cidadã tem que ser um valor central do PS. O PS tem isto na sua matriz. A escola é um bem público e custa-me ver que não é valorizada entre os pilares do Estado Social. Precisamos da Educação como de pão para a boca. E não só para os mais novos, também a Educação de adultos, a Educação Cívica, nos espaços sociais, no Ensino Superior.  

Como viu o braço de ferro entre o Governo e os professores? 

Foi terrível. O PS falhou e vai pagar esta fatura durante muito tempo. Não só em termos políticos imediatos, porque os professores não votarão PS com facilidade. Mas não só. Foi algo que feriu o melhor que o país tem. A escola pública não pode ser tratada assim. Os professores tinham direito à contagem do tempo de serviço. Podem não gostar deste ou daquele dirigente sindical, mas desde o início que os sindicatos estavam disponíveis para negociar o como e o quando dessa recuperação. Aliás, na Madeira e nos Açores foi possível. Foi uma birra do PS, que teve vontade de mostrar algo que já era evidente, e escusava de ter mostrado assim: a Educação não é uma prioridade. Não está nas graças deste Governo.

Os professores são uma classe mal tratada?

Muito mal tratada. É uma classe que tem uma brutal carga burocrática em cima. É inacreditável, ninguém imagina a parafernália de documentos que é preciso articular, desde o perfil, os objetivos, as competências essenciais, as reuniões que têm que fazer. A vida dos professores é uma vida de exaustão, é uma classe muito envelhecida. 

Qual a sua opinião sobre Tiago Brandão Rodrigues? 

O atual ministro está lá para fazer o que o mandam fazer.

É assim que o vê?

É exatamente assim que o vejo. É um jovem cheio de mérito, era investigador num centro de investigação e representa a geração mais qualificada do país. Mas não conhece as escolas e não tem experiência. Não tem projeto nem programa, a não ser aquele que o PS o manda executar. Acho lamentável. 

Tem sido criticado pelas competências…

Porque não as tem. 

Quais são os problemas mais urgentes para resolver na Educação? 

A falta de funcionários é fatal numa escola. Os funcionários fazem equipa com os professores. Outros dos eixos críticos que vejo são os mega-agrupamentos. 

Porquê?

Tive a prova, há um ano ou dois, que a secretária de Estado da Educação, que tem sido a negociadora com os sindicatos, não sabia como tinham surgido os agrupamentos. Os agrupamentos surgiram por razões pedagógicas, para articular os ciclos da escolaridade obrigatória. Isso funcionou em alguns territórios e foi uma experiência muito positiva. Mas os mega-agrupamentos são uma coisa tremenda. As escolas perderam a sua identidade, perderam o seu ritmo e não foram acompanhados pelo aumento do número de funcionários. Se está aberta a cantina está fechada a reprografia, a biblioteca fecha para abrir o bar. E isto são situações de um país subdesenvolvido.

São esses os problemas mais urgentes que vê?

Como é possível que depois de todos estes anos desde o 25 de Abril, 44 anos depois, ainda haja tropeços no início do ano letivo? Ou porque os professores ainda não estão colocados, ou porque não há funcionários nas escolas…Porquê? Porque é que não temos já uma rotina que funcione regularmente e com harmonia? Isso devia estar resolvido há muito tempo. A atual política de Educação é fragmentada, fragmentária e cheia de remendos.

Este Governo não fez nada para resolver essas situações?

Muito pouco ou nada. A situação está, até, bem pior porque tivemos antes o Governo da troika, em que a regressão foi brutal com um ministro de triste memória. A escola ficou cheia de avaliação externa, cheia de exames, de provas disto e daquilo, completamente métrica e com espírito de competição. Perdeu toda a dimensão cidadã, das artes, da ciência. Ficou uma escola muito mais pobre, de competição e de individualismo. Custa-me muitíssimo. 

Como vê a escola de hoje?

Há escolas que funcionam melhor que outras, há escolas com inovação, que são resultado de uma liderança mais esclarecida, mais democrática, ou de professores cuja formação e perspetiva pedagógica diferente. Mas no seu núcleo central a escola estruturou-se entre a tradição e o neoliberalismo. Ficou a escola da direita. E cada vez que vem a esquerda, e achava que o PS no Governo era a esquerda, esta visão só reverte um bocadinho. Tira dois alunos por turma, dá um toque aqui ou ali mas ficamos sempre pior do que estávamos antes. 

O que pensa da flexibilização curricular? 

É um projeto falhado à partida. 

Porquê?

Quando estive no Governo fez-se uma flexibilização curricular sustentada. E mesmo assim o Governo que veio a seguir acabou com ela. Agora, querem fazer flexibilização sem mexer na avaliação externa, sem mexer nos programas, sem mexer na gestão das escolas, sem mexer nos mega-agrupamentos, sem mexer na organização pedagógica, sem mexer em nada. Pergunto: Flexibilização em quê? É quase anedótico a surpresa dos professores que se questionam o que hão-de fazer. A escola não tem vasos estanques. Não se pode fazer algo de novo sem transformações e mudanças de fundo. 

Portanto, a ideia da flexibilização já não é nova....

Claro que não é nova. E há sempre uma ignorância brutal das lições do passado, de aprendermos com a experiência para fazermos melhor. Estamos eternamente a repetir o erro. Qualquer pessoa que saiba como se aplicam reformas, sabe que são muito difíceis de aplicar e exigem tempo e apoio. Não se vai buscar uma receita que se aplica. Isso não existe. 

E a descentralização. Vai agilizar a gestão das escolas? 

Não. Está muito mal feita e muito mal pensada. O Governo quer empurrar responsabilidades para os municípios. E vai fazer com que em municípios ricos, conscientes e que investem, haja escolas ricas e escolas pobres em municípios pobres. É assim que aparecem as desigualdades internas, que já existem e que se enraízam nas questões regionais e municipais. Já que não tivemos as regiões – votei a favor e dei a cara pela regionalização, talvez pela minha experiência dos Cantões suiços – o Estado não pode prescindir de um trabalho muito estreito com as autarquias. E está tudo a ser feito de uma maneira sem coerência. 

Nos últimos anos houve forte redução de docentes. Vamos ter falta de professores a curto prazo?

É bem possível que sim. Quando os professores começarem a passar à reforma vai haver uma quebra. E o que é terrível é a falta de antecipação. Não se antecipam os problemas, só quando acontecem é que se acorda. Neste momento, temos os professores numa situação dificílima, mal tratados e desvalorizados socialmente e pelo Governo. A prazo vamos ter uma grave carência de professores. E não é difícil antecipar. 

Vê alguém no PS com competências para assumir as rédeas na Educação? 

Pelo lado financeiro, apenas. Mas não vejo. Gostava de ver, se conhecer alguém diga-me. 

E a escolha do ministro resultou desse deserto de pessoas, ou não?

Não, acho que foi deliberada. Absolutamente deliberada.

Durante este tempo recebeu algum convite do PS para integrar algum organismo ligado à Educação? 

Não. Nada, nada. Aliás, penso, por algumas notícias ocasionais que tenho que sou um nome vetado pelo PS.

Voltaria ao Ministério da Educação? 

Não. Para mim, já não. Tive essa experiência e não me pude negar a ela porque achei que era um desafio que devia aceitar para transformar as minhas propostas em políticas. Foi um desafio e já o vivi. Encontrar-me-ão sempre no espaço da esquerda e como cidadã, a defender uma escola democrática, cidadã e para todos ao longo da vida.