Biblioteca Pessoal

Da neurocirurgia à oficina de carpinteiro

Num dia de inícios dos anos 80, no princípio da sua carreira, Henry Marsh recebeu nas urgências um paciente que nunca mais iria esquecer. «Vestia elegantemente, com um daqueles sobretudos castanhos com uma gola de veludo preto». Mas não foi por causa da elegância do homem, nem da sua educação irrepreensível, que o médico o recordaria passados 35 anos.

O episódio surge quase no final de Hoje Deu Entrada no Hospital, um livro tocante e corajoso sobre o dia-a-dia de um neurocirurgião e os casos mais ou menos desesperados que lhe aparecem.

Filho de um importante advogado, durante mais de três décadas Marsh trabalhou em hospitais públicos e numa clínica privada em Inglaterra, mas também ajudou pro bono amigos médicos na Ucrânia e no Nepal, país onde continua a operar e a dar formação mesmo depois de ter entrado na reforma.

Foi dos primeiros a fazer uma operação arriscada em que se serra o crânio e se limpa o cérebro do paciente com ele acordado – à medida que remove as parcelas doentes, o médico vai fazendo perguntas para saber se o procedimento está a afetar as suas faculdades. Faz-vos lembrar Hannibal Lecter?

Nenhum desses casos, porém, é tão impressionante como esse que se conta quase no final do livro – e que não tem a ver com a especialidade clínica do autor. Apesar de elegantemente vestido, o homem do sobretudo castanho sofria de uma doença terrível, repugnante e fatal. «Não podíamos fazer nada para o ajudar, era simplesmente uma questão de esperar que morresse. E ele estava evidentemente acordado e consciente do que lhe acontecia, a morrer aos poucos, envolto no cheiro horrível das próprias fezes. Deve ter reparado nas expressões involuntárias nos nossos rostos, ao entrarmos no quarto, ganhando coragem para enfrentar o cheiro pestilento». Hoje Marsh recrimina-se por não ter conseguido lidar melhor com a situação: «Sei que desiludi este homem e que fui um cobarde».

O tom dominante é de pessimismo, mas este apaixonante livro de memórias também tem páginas luminosas. As minhas favoritas são aquelas em que Marsh conta como começou a praticar carpintaria e se dedicou a restaurar com as próprias mãos uma casa decadente que outrora pertencia ao guarda da comporta ali próxima. Limpou o jardim, plantou novas árvores de fruto, substituiu as canalizações e até fez novas janelas com requintados arcos ogivais. «Com a ajuda de um colega e amigo ucraniano, arranquei as janelas velhas e instalei cuidadosamente as novas antes de ir para o Nepal». Para quê preocupar-se com uma casa abandonada quando podia passar a reforma confortavelmente instalado numa casa nova? Talvez tenha sido o seu instinto de médico a falar mais alto. No fundo, recuperar aquele «edifício humilde e bonito» – e maltratado – não era assim tão diferente de curar uma pessoa afetada por uma doença grave, um combate nobre contra as forças cegas do declínio, da morte e do esquecimento.