Cultura

Nouvel. Fantasia no deserto

O Museu Nacional do Qatar, em Doha, inaugurou esta semana com um verdadeiro desfile de estrelas. Jean Nouvel, o autor do projeto, descreveu-o como uma rosa do deserto. Um crítico comparou-o a ‘pires voadores’.


Visto a partir do céu, o novo Museu Nacional do Qatar parece composto por hóstias de diferentes tamanhos acabadas de pousar à beira da Corniche, a avenida marginal que liga o centro histórico ao distrito dos arranha-céus de Doha. Os discos não aterraram completamente ao acaso: ao centro, deixam espaço livre para o palácio dos príncipes Al Thani, do início do século XX, onde originalmente se encontravam as coleções do museu.

Quando se desce ao nível do chão, estes estranhos discos de cor creme - a que um crítico do Guardian chamou «pires voadores» - ganham outra complexidade - chocam, sobrepõem-se, intersetam-se. O projeto, que saiu das mãos e da cabeça calva de Jean Nouvel, inspirou-se na rosa do deserto, um enigmático mineral que ‘floresce’ debaixo das areias muito quentes devido à evaporação de águas ricas em sais.

«Doha estende-se ao longo de uma grande baía, um pouco como Nice, Nápoles ou Argel. Quando vi esta localização com a sua vegetação rara, disse para mim próprio que se podia trabalhar sobre o que simboliza o Qatar, o encontro do deserto com o mar», disse Nouvel em entrevista ao Le Journal de Dimanche poucos dias antes da inauguração do museu. «A rosa das areias é uma arquitetura em miniatura criada pelo deserto, os ventos, a brisa marinha. A cristalização milenar dá estas lâminas inclinadas em todas as direções».

Curiosamente esta não foi a primeira ideia do arquiteto, que começou por apresentar ao cliente um edifício subterrâneo, quase invisível. «O meu primeiro projeto agradou ao xeque Saoud, então ministro da Cultura, mas foi considerado demasiado integrado, não suficientemente afirmativo. Eles queriam um gesto», confessou o arquiteto ao Le Journal de Dimanche. «Então redesenhei - faz parte do jogo - para propor um edifício icónico evocando uma rosa das areias. Um projeto um pouco maluco tecnicamente». Tão ‘maluco’ que demorou 18 anos a ser concretizado, precisou de um software especial (e computadores superpotentes) e consumiu 400 milhões de dólares (cerca de 350 milhões de euros). Nada de proibitivo para o país com o maior rendimento per capita do mundo. O Qatar prevê investir cerca de 20 mil milhões de dólares (o que daria para construir 50 destes museus) em equipamentos desportivos para o Mundial de 2022. Aliás, o próprio ícone de Nouvel faz parte de um plano mais vasto de modernização da cidade que inclui, ao todo, projetos de 11 vencedores do prémio Pritzker, considerado o Nobel da arquitetura.

Estrelas na terra

A inauguração do novo Museu Nacional, na noite de 27, não dispensou o habitual espetáculo de pirotecnia que iluminou durante mais de um minuto os céus de Doha. Já na festa brilhou uma verdadeira constelação de estrelas da moda, das artes e não só: a ex-supermodelo Naomi Campbell, a modelo brasileira Izabel Goulart, o casal Sarkozy, o ator Johnny Depp, o chefe Alain Ducasse, o starchitect holandês Rem Koolhas, os designers Alexander Wang, Victoria Beckham, e Diane von Furstenberg, o perfumista americano Eric Buterbaugh e até o treinador português José Mourinho. De Paris vieram ainda o primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, e Jack Lang, o antigo ministro da Cultura de Mitterrand.

A estrela maior, porém, era sem dúvida o edifício. Composto por 539 discos de betão reforçado com fibra de vidro, tem no seu interior 1,5 km de galerias. «As placas inclinadas criam uma experiência labiríntica, com tetos a erguer-se sobre átrios espaçosos, antes de mergulhares para criar cantos e recantos íntimos», descreveu o crítico do Guardian.

O Museu Nacional do Qatar inaugura dois anos depois do Louvre Abu Dahbi, outro megaprojeto de Nouvel, cujo nome é celebrado nos quatro cantos do mundo, de Hollywood (Angelina Jolie et Brad Pitt, por exemplo, chamaram ao seu filho Shiloh-Nouvel, em homenagem ao arquiteto), ao Golfo Pérsico, onde se tornou o favorito dos riquíssimos príncipes do petróleo. «Isso está em parte ligado à construção do Instituto do Mundo Árabe, em Paris, que realizei em 1987», esclareceu o arquiteto ao Le Journal de Dimanche.

Difícil pendurar alguma coisa

«A arquitetura de Nouvel é incrível mas torna muito difícil pendurar alguma coisa nas paredes», comentou o presidente dos Museus do Qatar, o xeque al-Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al-Thani, citado pelo Guardian. Face a essa dificuldade, ao contrário do Louvre Abu Dhabi, que se pode vangloriar de exibir pinturas de mestres como Leonardo Da Vinci, David, Monet e Van Gogh, o Museu de Doha apoia-se grandemente em suportes tecnológicos. De resto, o museu de Nouvel nem precisaria de conteúdo para dar que falar. Na sua origem, os museus foram criados com propósitos pedagógicos, servindo para preservar e exibir objetos preciosos, com significado estético e histórico. Mas também sempre serviram como manifestações de poder, de riqueza e de afirmação política. E não é de estranhar que o país mais rico do mundo leve esses aspetos às últimas consequências .