Internacional

Moçambique na primeira pessoa

A chefe da missão da Cruz Vermelha portuguesa, Lara Martins, descreve ao SOL como está a ajudar populações por entre a devastação do ciclone Idai. 

Entre as muitas reuniões e briefings necessários à coordenação no terreno, Lara Martins, comandante da missão humanitária da Cruz Vermelha portuguesa em Moçambique, descreve-nos na primeira pessoa o decorrer das operações. A equipa portuguesa foi colocada em Macurungo, na Beira, a pedido do delegado geral de saúde da província de Sofala, dado «ser uma localidade extremamente populosa, e infelizmente com algumas das piores condições higiénico sanitárias».

«Estamos situados entre um centro de saúde urbano e a maternidade de Macurungo», que ficaram bastante danificados com a passagem do ciclone Idai. «As condições médico-sanitárias da localidade, que já eram frágeis, ficaram ainda mais débeis», explica a comandante da Cruz Vermelha. Por isso é bem-vinda toda a ajuda portuguesa, que tem já «o hospital de campanha montado, instalado e pronto a operar». Era suposto a instalação começar a funcionar na quinta-feira, mas isso apenas será possível sábado devido à falha da energia elétrica. «São as condições possíveis», explica a comandante da missão.

Entretanto, os profissionais da Cruz Vermelha foram dando resposta aos pedidos de ajuda do centro de saúde vizinho, facilitando tanto recursos humanos como equipamento às autoridades moçambicanas. «Ainda há bocadinho avariou um autoclave [equipamento de esterilização ] deles e eles vieram-nos pedir. Fomos lá levar o nosso e pô-lo a funcionar», conta Lara. «É nessa perspetiva de cooperação que cá estamos. Não é substituir aquilo que eles estão a fazer, que eles já estão a assegurar os serviços mínimos com as condições que têm», esclarece.

O hospital de campanha da Cruz Vermelha portuguesa fica mesmo ao lado do Centro de Cólera, gerido pela UNICEF, principal responsável pela prevenção e tratamento da doença. A cólera pode ser fatal, causando desidratação por diarreia, e é causada por um vírus de transmissão oral-fecal, que ocorre em condições de falta de saneamento e de consumo de água contaminada. 

Lara reconhece que «já há casos de cólera e o estado de alerta é grande». As autoridades confirmam que pelo menos 138 pessoas já foram afetadas pela doença, e Lara prevê «que estes casos possam aumentar». «Há definitivamente áreas de risco, mas com medidas efetivas esse risco poderá ser contido», considera a comandante da Cruz Vermelha. Ainda este sábado Moçambique recebeu mais de um milhão de vacinas contra a cólera, e vai começar na próxima semana uma campanha de vacinação.

Já a Cruz Vermelha vai ter outro tipo de atuação, mas «sempre em regime de complementaridade com os serviços que as autoridades têm disponíveis», salienta Lara Martins, que garante que a Cruz Vermelha portuguesa se mantém em «contacto permanente» com as autoridades moçambicanas, assim como com as restantes organizações não-governamentais.

33 toneladas de ajuda para mães e recém-nascidos

A equipa portuguesa dispõe de «um segundo bloco de partos, uma unidade de emergência para doentes críticos, tal com seis postos de consulta das mais diversas áreas, seja pediatria, consulta de adulto, materna e até psicologia», cujas consultas já foram iniciadas ontem, dado «serem as que menos exigem equipamento». 

A equipa multidisciplinar da Cruz Vermelha conta com médicos, enfermeiros e psicólogos, e trouxe consigo «um conjunto enorme de medicamentos para todo o tipo de patologias». «Estamos prontos para o que der e vier», garante Lara, que acrescenta: «Aqui a realidade muda de minuto a minuto, não é dia a dia». Os stocks de medicamentos e material serão ajustados consoante as necessidades, com material vindo de Lisboa. É o que acontecerá este domingo, com a partida de um avião do aeroporto de Figo Maduro, carregado com 33 toneladas de ajuda humanitária, com um «particular foco na área materno-infantil». A bordo seguem três profissionais de saúde especializados em pediatria e cuidados maternais, tal como kits de parto, medicamentos para recém-nascidos, fraldas, etc. «Nós quando viemos para cá não sabíamos que íamos ficar tão perto de uma maternidade», revela a responsável.

Trabalhar de sol a sol

Lara descreve o estado de espírito entre a equipa da Cruz Vermelha portuguesa como «extraordinário». Sobretudo tendo em conta que «a maior parte desta equipa conheceu-se no briefing para a missão», no dia antes do embarque para Moçambique. «Eram pessoas que não se conheciam de todo, nem tinham trabalhado juntas», nota Lara, entre elogios à união da sua equipa, composta por 23 pessoas, maioritariamente profissionais de saúde, que «têm trabalhado arduamente, diariamente, de sol a sol», desde que embarcaram nesta «aventura». Lara nota que de facto é de sol a sol que trabalham, dado que «não podem trabalhar à noite, por motivos de segurança».

A comandante da missão da Cruz Vermelha portuguesa conta: «Tivemos de conseguir descarregar 30 toneladas de material do avião, que literalmente carregámos às costas para fazer a transferência para os camiões, dos camiões ao armazém, depois até esta localidade. Montámos o hospital de campanha, equipámos o hospital de campanha. E somos nós que estamos a fazer praticamente todo o tipo de trabalhos, desde eletricidade, instalação, canalização, carpintaria, é preciso muita coisa para por isto a funcionar». Lara sumariza: «Tem saído do corpo e de que maneira».

Apesar das dificuldades, a motivação dos profissionais da Cruz Vermelha mantêm-se «muito elevada». Numa nota mais pessoal, Lara partilha: «Para mim está a ser uma experiência nova, é a primeira vez que estou a participar numa missão pela Cruz Vermelha, ainda por cima sendo militar tenho outra matriz de atuação». A comandante acrescenta: «Está a ser uma extraordinária surpresa trabalhar com civis, que não ficam de todo atrás dos militares». A voz de Lara ressoa com orgulho quando conta: «O facto de conseguirmos montar o hospital em três dias foi uma surpresa até para as outras entidade que estão cá». Mas reconhece: «Somos poucos para um hospital desta envergadura».

Cada um destes profissionais estará no terreno «entre 15 dias a um mês», até serem substituídos, à exceção de Lara. «No meu caso não sei, como sou chefe de missão devo continuar». «A intenção é que a Cruz Vermelha se mantenha cá até ao final do ano», um compromisso já assumido por Francisco George, o presidente da instituição. Há o objetivo de longo prazo reforçar as equipas do governo moçambicano, «de forma a que quando a nossa missão acabar a nossa saída não crie impacto nos serviços de saúde moçambicanos», resume Lara.

A chefe da missão garante o compromisso da sua equipa: «Sentimos um peso muito grande da responsabilidade, por estarmos de facto a ajudar uma população que está numa situação muito complicada, para além de estarmos a representar a Cruz Vermelha, o nosso país e todos os portugueses que têm contribuído para esta missão seja possível». Lara reconhece: «Nós só conseguimos estar aqui com a contribuição financeira da angariação de fundos em Portugal». E isso «reflete-se no empenho desta equipa».