Sociedade

Obras nas galerias do Ritz até 2020

O que era um jardim e uma zona de convívio ao ar livre vai dar lugar a escritórios e a um restaurante. E as vigas que suportam a enorme estrutura metálica da futura cobertura ocupam parte do passeio da Rua Castilho e da Rua Joaquim António de Aguiar.


Quem tem cruzado nos últimos tempos a Rua Castilho com a Joaquim António de Aguiar não fica indiferente à estrutura metálica que ocupa a maior parte do largo passeio que caracteriza o desenho das Avenidas Novas. Por detrás dos tapumes, as antigas Galerias Ritz, que outrora guardavam a famosa área comercial frequentada por várias gerações de lisboetas, estão a ser intervencionadas. Ao SOL, fonte da agência responsável pela comunicação da SODIM – a sociedade proprietária das Galerias Ritz e do Hotel Ritz, que mantém desde 1997 um contrato de gestão com a Four Seasons Hotels and Resorts – explica que ali nascerá um «projeto de escritórios e restaurante» e que a reabilitação compreende ainda «a ampliação da área de estacionamento automóvel».

Segundo a mesma fonte, as obras e as estruturas estão «devidamente licenciadas» e «são temporárias». E até quando ficará o passeio reduzido a escassos centímetros? «Prevê-se que os trabalhos estejam concluídos até Junho de 2020», esclarece a fonte referida.

O SOL questionou a Câmara Municipal de Lisboa (CML) relativamente à obra e ao seu licenciamento, que confirmou que «o Hotel Ritz está a fazer obras licenciadas e tem aprovada uma licença de Ocupação de Via Pública» e que, «como todas as licenças de ocupação de via pública, também esta é temporária». O gabinete de comunicação da autarquia garantiu ainda que «da obra projetada não resulta qualquer ocupação do espaço público com caráter definitivo».

 

Uma remodelação adiada

O projeto que começa agora a ganhar forma dá finalmente um destino às míticas galerias, que, antes de verem a porta definitivamente fechada, estiveram ao abandono durante anos.

O hotel foi inaugurado a 24 de novembro de 1959, mas as galerias não faziam parte do projeto inicial de Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957) e foram erguidas mais tarde, já durante a década de 1960, pelo traço do arquiteto Leonardo Castro Freire (1917-1970), uma vez que o arquiteto Pardal Monteiro morrera ainda durante a construção do hotel.

Em 2004, por exemplo, o espaço foi notícia pela degradação, que contrastava com a opulência do hotel que continua, ainda hoje, a ser um dos mais luxuosos da capital.

O jornal Público dava conta de um espaço abandonado, com uma «camada grossa de pó» a forrar o chão e as paredes de mármore, ordens de falência do tribunal a esvoaçarem pelo chão e «lojas fechadas e entaipadas com tijolos».

A remar contra a maré, quatro lojas mantinham as portas abertas – um antiquário, um cabeleireiro, uma loja de roupa de mulher e uma galeria de arte. E, segundo o relato do proprietário do antiquário, na época, o objetivo da SODIM era que os lojistas abandonassem as suas lojas e saíssem das Galerias, tendo-lhes inclusivamente, 15 anos antes, proposto uma indemnização, que nenhum dos quatro proprietários dos espaços que em 2004 ainda estavam abertos aceitou, como recordou ao mesmo jornal o dono do antiquário.

 

Ordem de demolição

Quatro anos mais tarde, em 2008, as Galerias tiveram por fim o seu destino traçado: a CML autorizou a sua demolição, uma decisão que apenas o Partido Comunista Português (PCP) contestou. No seu lugar, segundo os planos da divulgados na época, seria construído um edifício com cerca de dez metros de altura para albergar comércio e serviços. O processo acabou por fim por avançar, agora, 11 anos volvidos desde a decisão camarária.

Para a História, além das várias lojas que lá tinham morada, fica também um outro espaço das Galerias: o Snack-Bar Monumental, considerado um lugar de culto da cidade e que muitas saudades deixou quando encerrou, nos primeiros anos do novo milénio.

 O espaço abriu portas numa altura em que os snackbars eram moda e vários tinham vindo a surgir por Lisboa desde o fim dos anos 40, introduzidos pela dupla de arquitetos Victor Palla e Joaquim Bento d’Almeida.

 

Os hambúrgueres e os gelados do velho Snack-Bar

Lembrado pelos seus balcões corridos e pelos preços que, ao contrário do hotel que se erguia imediatamente por cima, eram relativamente acessíveis, ao Snack-Bar Monumental – que tinha ainda a mais-valia de servir noite dentro – acorriam famílias, casais, grupos de jovens e visitantes solitários para degustar o típico bife à ‘Robin dos Bosques’ ou os hambúrgueres e os gelados em copos altos, imitando o que se fazia lá fora, e que tanto surpreenderam por cá.