Cultura

‘Quem viver até metade deste século vai assistir a grandes convulsões’

Nos últimos 500 milhões de anos, o planeta passou por cinco extinções em massa. Atualmente, podemos estar a presenciar – e a provocar – a sexta. Há quem acredite que conseguiremos reverter a situação, mas Elizabeth Kolbert não é uma dessas pessoas. «Estão todos otimistas menos eu».

A História da Terra tem sido marcada por momentos traumáticos em que várias formas de vida foram brutalmente exterminadas. Há 250 milhões de anos, «uma libertação maciça de carbono para o ar» teve consequências trágicas. «As temperaturas dispararam – os mares aqueceram 18oC – e a química dos oceanos começou a funcionar de uma forma anómala [...]. A água tornou-se ácida e a quantidade de oxigénio dissolvido desceu tanto que muitos organismos, na realidade, sufocaram», escreve a jornalista Elizabeth Kolbert em A Sexta Extinção (ed. Elsinore), livro vencedor do Pulitzer para não-ficção em 2015.

Ainda mais grave, porém, foi quando, há 66 milhões de anos, um asteroide atingiu o que hoje é o continente americano. O impacto levantou uma nuvem de poeira que alterou a atmosfera, os ecossistemas e o clima. «Depois da onda inicial de calor, o mundo sentiu um ‘inverno de impacto ao longo de várias estações. As florestas foram dizimadas», lê-se em A Sexta Extinção. «Os ecossistemas marinhos colapsaram, efetivamente, e permaneceram nesse estado durante, pelo menos, meio milhão de anos, talvez mesmo durante vários milhões. [...] Nos ambientes terrestres, parece que terão morrido todos os animais maiores do que um gato. As vítimas mais famosas desta extinção, os dinossáurios – ou, para ser mais precisa, os dinossáurios não-aviários – sofreram perdas na ordem dos 100%».

A extinção dos dinossauros é um cataclismo que continua a excitar as imaginações; ainda assim, demasiado distante para nos tirar o sono. O problema é que hoje podemos estar a aproximar-nos de algo parecido: uma catástrofe cujos contornos não são ainda perfeitamente nítidos, mas que se adivinha devastadora. Os especialistas chamam-lhe a Sexta Extinção – um fenómeno de grande escala, provocado pelo homem, que está em curso e já atingiu milhares de espécies.

Elizabeth Kolbert apercebeu-se disso quando leu acerca da mortandade da rã-dourada-do-panamá, um anfíbio que era um símbolo de sorte mas que tem desaparecido a grande velocidade do seu habitat tradicional. Será esta apenas uma das muitas espécies condenadas?

Através do Skype, conversámos com a autora sobre a competição entre animais, as alterações climáticas e os desafios que o futuro nos reserva.

Acha que esta extinção em massa que está a acontecer na nossa época podia ter sido evitada? É que afinal de contas há sete mil milhões de pessoas no mundo.

7,7 mil milhões. Quase oito.

Pois, quase oito...

É uma boa questão. Em certa medida, o que você está a sugerir é que a competição por recursos entre os humanos e outras espécies, assim como a quantidade de terras que alteramos para nos alimentarmos, acabaria sempre por conduzir-nos a um ponto em que entramos em competição com outras espécies e prejudicá-las.

Exatamente.

Muito possivelmente isso é verdade, talvez nunca o possamos saber. Haveria outros caminhos que poderíamos ter tomado? Se tomássemos esses outros caminhos talvez não houvesse 7,7 mil milhões de pessoas no planeta. Há quem diga que a catástrofe ainda pode ser evitada, se mudarmos os nossos hábitos, ou se o nosso número encolher, seja por causa de uma enorme calamidade, seja porque escolhemos não nos reproduzirmos tão rapidamente. São perguntas muito difíceis. Lamento, mas não lhe consigo dar uma resposta melhor do que isto.

Na sua opinião, de quem é a culpa desta extinção generalizada? Do capitalismo, de industriais irresponsáveis, do progresso ou até de cada um de nós enquanto consumidores?

Há muitas culpas para distribuir. Segundo algumas opiniões, esta extinção já começou há dezenas de milhares de anos quando os seres humanos [homo sapiens] começaram a sair de África, a espalhar-se por outras partes do mundo. Por exemplo, quando chegaram à Austrália, o que foi há muito tempo – 50 mil anos – houve uma onda de extinções. E quando chegaram à América do Norte e à América do Sul houve uma nova onda de extinções. E quando chegaram às grandes ilhas – Havai, Madagáscar, Nova Zelândia – mais extinções. Já andamos nisto há muito tempo e somos muito eficazes a fazer mal às outras espécies, simplesmente matando-as – e isso é uma forma de extinção que infelizmente continua a acontecer, com a caça furtiva a rinocerontes e elefantes, animais que se reproduzem muito lentamente. Os humanos são muito bons a triunfar sobre as outras espécies e a matá-las. E depois há outros processos muito antigos que provocam a extinção: a agricultura, a desflorestação, levar as coisas de um lado para o outro, o que começou com Colombo, ao levar animais, plantas e doenças através dos oceanos. É algo que acontece há muito tempo. Claro que o capitalismo, certamente a revolução industrial, o uso de combustíveis fósseis e o aumento da população no pós-guerra aceleraram tudo.

No seu livro refere a extinção Permo-Triássica, que ocorreu há 250 milhões de anos.

Não sabemos exatamente quando foi, mas sim, terá sido por aí.

Essa extinção ter-se-á estendido ao longo de 100 mil ou 200 mil anos. A que estamos a viver agora pode fazer muitos estragos num espaço de algumas décadas!

Se escolhêssemos delapidar todas as reservas acessíveis de carvão, gás e petróleo, podíamos subir os níveis de CO2 drasticamente, numa questão de séculos. Aliás já o fizemos, desde o início da revolução industrial, e a quantidade de dióxido de carbono que estamos a enviar para a atmosfera continua a aumentar.

Olhando para a população, podemos dizer que esta catástrofe é o resultado do nosso sucesso enquanto espécie?

Sim, podemos dizer isso inequivocamente. E. O. Wilson, um naturalista americano e professor em Harvard muito famoso, disse que a forma como a população tem aumentado nos dois últimos séculos é mais característica das bactérias do que dos primatas. Nesse capítulo somos bestialmente bem-sucedidos. Se tomarmos a biomassa como um indicador de sucesso, dominamos este planeta como nenhuma outra espécie alguma vez o conseguiu dominar. Isso por um lado é sucesso, por outro pode ser potencialmente catastrófico. Podem parecer só palavras, mas as consequências são muito concretas.

E parece-lhe previsível que a extinção de outras espécies acabará por levar também à extinção da nossa própria espécie?

Não penso que essa seja uma inferência lógica a tirar. A extinção exige que todos os pares reprodutivos de uma espécie estejam mortos. Quando temos quase 8 mil milhões de pessoas na Terra, seria preciso uma catástrofe monumental para matar tanta gente. Não penso que a extinção humana seja um motivo de preocupação, pelo menos o principal. Pode haver muitos estragos no planeta, muitos danos às outras criaturas com que partilhamos o planeta e pode haver muito sofrimento dos seres humanos. Tudo isso é um maior motivo de preocupação, até porque precede sempre a extinção do homo sapiens.

Uma das questões que muitas pessoas se colocam é se vale a pena mudarem de hábitos, se faz ou não alguma diferença reciclar ou conduzir um carro elétrico. Tenho um amigo que vive obcecado com o plástico, mas a verdade é que há mais de mil milhões de pessoas na China a poluir e outras tanto na Índia. Se ele usa ou não plástico na prática é irrelevante. Devemos ou não preocupar-nos e adotar hábitos mais amigos do ambiente?

A nível prático tem razão: um saco de plástico não vai fazer diferença. Mas há comportamentos que quando são multiplicados por 7,7 mil milhões de pessoas fazem diferença. E depois é uma questão de ética as pessoas tomarem decisões que sabem que estão corretas. É muito raro uma ação individual mudar o curso da História – não é impossível, mas é muito raro. Em geral são grandes movimentos de pessoas que agem de um certo modo ou forçam certos tipos de ações que acabam por ser decisivos. Quando multiplicada por 7,7 mil milhões, é uma ação que vale a pena tomar, e mesmo que não valesse a pena pelas consequências práticas, valeria por imperativos éticos.

E no seu caso? Sendo uma pessoa empenhada, tem hábitos ecológicos?

Uma das formas mais eficazes de produzir carbono é andar de avião e eu ando muito de avião, seja em lazer, seja em trabalho. Por isso tenho uma grande pegada carbónica. Mas ao mesmo tempo tenho essa preocupação, comprei um carro elétrico, tenho painéis solares no telhado, tento fazer essas pequenas coisas que se forem multiplicadas pelos tais 7,7 mil milhões fariam diferença. Mas, por causa das minhas viagens do avião, não me considero alguém que consegue cumprir os níveis de carbono que precisamos de atingir.

Conheço pessoas que têm a ideia de que estas preocupações ecológicas são uma bandeira da esquerda. A direita, por oposição, tende a desvalorizar as questões ambientais. Acha que é possível despolitizar estas questões?

Essa é uma excelente pergunta. Nos Estados Unidos, a questão das emissões de carbono está completamente polarizada. Se pertenceres a um partido, é um assunto vital, se pertenceres a outro partido já não tem importância nenhuma. O que está a acontecer agora é que os efeitos das alterações climáticas estão a aparecer, e já não é apenas o tipo de cenário hipotético – as pessoas estão a assistir a cheias recorrentes em certas partes dos Estados Unidos, estão a ver incêndios florestais terríveis, temos uma seca muito grave no sudoeste dos EUA – a questão de onde a Califórnia e o Arizona vão obter a sua água está em cima da mesa. A realidade tem uma forma muito maldosa de romper com os compromissos ideológicos a certo ponto. Aquilo a que estamos a assistir é exatamente o que os cientistas do clima nos disseram: ‘Não esperem até a vossa casa estar a arder para fazerem alguma coisa’. Infelizmente, é exatamente isso que continuamos a fazer.

Alguns cientistas acreditam que ambos os polos vão derreter daqui a não muito tempo. O que haverá então em vez das grandes superfícies de gelo que temos hoje?

Possivelmente haverá águas abertas, sazonalmente, no polo norte, a meio do século, acho que é essa a projeção. Isso terá efeitos tremendos – provavelmente já está a ter. Os padrões do clima que estamos a testemunhar podem ter que ver, ninguém sabe exatamente, com as superfícies cada vez maiores de águas abertas que vemos no polo norte – no polo sul não tanto, para já. Mas há uma diferença essencial – no polo norte só há água, no sul há terra. Mas em ambos os casos o derretimento do gelo vai ter consequências gigantescas como já estamos a ver, na subida dos níveis do mar. No futuro vai haver grandes subidas do nível da água do mar, não julgo que haja muitas dúvidas acerca disso.

Há pouco falámos de uma hipotética extinção da espécie. Muitas pessoas acreditam que o planeta só poderá recuperar quando a humanidade desaparecer. Concorda com isso?

Como escrevi no meu livro, os meus melhores amigos são pessoas, os meus filhos são pessoas, sou muito apegada às pessoas. Mas compreendo que se chegue a essa conclusão: ‘As pessoas meteram-nos nesta alhada e não nos vão tirar dela’. É muito difícil perceber como voltaremos a um mundo pacífico e harmonioso, como passaremos do número de pessoas que o mundo tem agora para o número de pessoas que o planeta pode sustentar, sustentando também tudo o resto, e sem grandes sobressaltos. Não consigo ver como conciliaremos tudo isso.

Ontem estive a ler um artigo de David Wallace-Wells chamado ‘An Uninhabitable World’ [Um mundo inabitável] e fiquei horrorizado, porque ele pinta um cenário apocalíptico num futuro não muito distante.

Wallace-Wells acaba de lançar um livro que está a ter muito impacto nos Estados Unidos.

Por outro lado, há tempos também li o livro de Steven Pincker, O Iluminismo Agora, que parece ser muito otimista em relação à época que atravessamos. A verdade encontra-se algures entre o apocalipse de Wallace-Wells e o otimismo de Pincker?

Não acho que a verdade esteja exatamente a meio caminho entre os dois. Há muitas decisões que têm de ser tomadas e até aqui não nos mostrámos capazes de as tomar. Quando se olha para o estado da política na Europa, nos Estados Unidos, na Rússia, em muitas partes do mundo, não vemos uma onda de apoio ao que eu consideraria políticas razoáveis e racionais para tentar mudar para a direção certa. Por outro lado, temos crianças a fazer greve em todo o mundo para serem tomadas medidas contra as alterações climáticas. Não sei para onde é que isto vai, que rumo a política vai tomar. A única coisa clara é que compreendemos o sistema climático suficientemente bem para produzir previsões muito fiáveis sobre o que vai acontecer se continuarmos a despejar CO2 para a atmosfera. As alterações climáticas, infelizmente, são apenas uma das muitas questões, um dos problemas que se colocam. Nesse campo, a ciência não sabe tudo, mas sabe mais do que o suficiente para justificar medidas muito vigorosas. Muitas pessoas acreditam que serão encontradas respostas. Mas ainda não sabemos se essas respostas chegarão a tempo.

E quando saberemos? Daqui a dez, vinte anos?

Uma coisa é certa: não temos muito tempo para desperdiçar, estamos a atirar CO2 para o ar a uma grande velocidade, estamos talvez a atravessar um limiar para lá do qual já não há retorno. Há partes do Ártico e da Gronelândia que começam a derreter de formas que parecem irreversíveis, não podemos ficar de braços cruzados à espera de um milagre. Mas no que respeita ao clima temos essa capacidade – há quem fale de pôr o mundo numa espécie de estado de exceção, para converter os nossos sistemas energéticos. Na teoria somos capazes de fazer isso, mas na prática não sei. Para já estamos numa trajetória muito má. Se a mantivermos nas próximas décadas vamos comprometer a vida dos próximos séculos e ficará extremamente difícil para a nossa descendência.

Como mãe de três crianças está preocupada com o futuro delas?

Tremendamente. Sem dúvida. Acho que qualquer pessoa que viva até metade deste século vai assistir a grandes convulsões.

Ao mesmo tempo há quem ache que a tecnologia vai resolver muitos desses problemas. Acredita nisso?

Temos de distinguir as coisas. Há tecnologias que podem reduzir muito as emissões de CO2, e até já as temos – energia eólica, energia solar, energia nuclear. Mas acho que em termos das outras espécies no planeta, que estão a desaparecer, não é claro para mim que produzir energia sem carbono resolva o problema. Tem de haver muitas outras mudanças na forma como vivemos. Só andar em carros elétricos não resolve isso. Aí entramos no domínio do que é impossível saber. Quem tem razão? Steven Pincker ou David Wallace-Wells? Se bem que Wallace-Wells diga que também é otimista porque acredita que ainda estamos a tempo de dar a volta ao problema. Toda a gente diz que é otimista, menos eu – eu não estou nada otimista.

Sei que vive em Williamstown. É uma cidadezinha pequena?

Sim.

Isso é porque quer ter um estilo de vida coerente com as suas ideias sobre a natureza?

Não. Viemos para cá viver há muito tempo porque o meu marido dá aulas aqui.

Não é por odiar a vida nas grandes cidades?

Eu não odeio as grandes cidades e em muitos aspetos são sítios muito ecológicos e muito saudáveis para as pessoas viverem, com apartamentos compactos e transportes públicos. Se toda a gente se mudasse para o campo dava mau resultado. Aconteceu viver nesta cidadezinha porque o meu marido dá aulas na universidade de Williamstown. Há muitas coisas na vida daqui que eu aprecio – por exemplo, consigo ver as montanhas da minha janela. Mas não acho que viver no campo seja mais ecológico do que viver na cidade.

Uma última questão. Qual foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça quando soube que tinha ganho o Pulitzer?

Na altura estava na Europa, na Alemanha, a fazer um perfil de Christiana Figueres, a chefe do Quadro da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Estava a preparar-me para ir para a cama e as pessoas começaram a mandar-me emails. Foi assim que descobri que tinha ganho. Não consigo lembrar-me com clareza de qual foi o meu primeiro pensamento. Só me recordo de, de repente, imensas pessoas quererem entrar em contacto comigo e de haver uma grande... atividade.

Era alguma coisa com que sonhasse?

De modo nenhum. Claro que qualquer jornalista quer ganhar um Pulitzer, mas há muitos candidatos. A pessoa não pode pensar nisso porque as hipóteses são ínfimas. Escrevemos um livro porque acreditamos nele e achamos que temos alguma coisa para dizer, não porque achamos que vai ganhar um prémio. Atualmente estou a escrever um novo livro e todos os dias digo isso a mim própria.

E consegue continuar a viver uma vida normal? Não tem muitas solicitações?

Tenho uma vida completamente normal. As coisas não mudaram por aí além.