Desporto

Boavista. O passo trocado

Em 1933, os axadrezados tornavam-se pioneiros: adotaram o profissionalismo. Foram vítimas de boicotes. A experiência abortou.

O Boavista não pode ser separado das suas inequívocas origens inglesas. Instalada na zona da cidade do Porto com o mesmo nome, a fábrica têxtil Graham tinha uma casta  que não enganava ninguém. Foram os técnicos britânicos e os operários portugueses da Graham que começaram a praticar o ‘foot-ball’ nuns terrenos junto à antiga Rua da Mazorra que se transformaria, mais tarde, na Ciríaco Cardoso.

Para quem quer conhecer a história do futebol no Porto, nada como deitar mão ao excelente livro de Manuel Dias, aquele que foi o Manel Dias do Janeiro, camarada entretanto desaparecido de uma indiscutível qualidade profissional e que nos deixou páginas de intensa investigação às quais não falta a sua dose de chiste. É ele que nos fala do aparecimento, em 1 de agosto de 1903, de um clube apelidado de The Boavista Footballers, fundado em ata conforme a lei e que teve como ideólogos Frak Jess, Harry Robinson, Brindle Holroyd, Francisco Bastos, Joaquim Ferreira e Manuel Ribeiro.

Esta aliança luso-britânica durou pouco. Apenas dois anos. E por um motivo que não sendo de somenos não deveria ter valido o divórcio. Os ingleses queriam jogar aos sábados, segundo a tradição da Grande Ilha para lá da Mancha, e os portugueses insistiam nos domingos. Teimosos, uns e outros, e logo que uns e que outros!, arrastaram a contenda até 1909 quando, por via do voto em Assembleia Geral, o domingo saiu vencedor. Contrariando a fantástica tradição tão britânica do fair-play, os ingleses levaram a mal. E foram-se. Deixaram não apenas o clube como se desligaram dos direitos que detinham sobre um terreno que fora alugado a António da Costa Mascarenhas na zona do_Bessa e onde haviam desenhado um campo de futebol. E os The Boavista Footballers acharam por bem trocarem de denominação: passaram a Boavista Football Club.

 

Profissionais

O profissionalismo no futebol foi amplamente discutido antes da sua implantação praticamente definitiva após a I_Grande Guerra. Claro que também nisso, os ingleses foram pioneiros. Na primeira década do Século XX já havia em Inglaterra clubes completamente compostos por jogadores assalariados, algo que serviu para manter uma certa distância em relação ao que se passava no_Continente.

Os ingleses não se mantiveram apenas snobes na sua atitude de superioridade, declarando-se demasiado fortes para disputarem partidas com equipas inferiores (não se esqueçam que a Inglaterra só aceitou participar no Campeonato do_Mundo em 1950, sob a reserva de que não querer pôr em jogo o seu auto-titulado melhor futebol do mundo), como olharam com desprezo para o amadorismo conservador dos outros países.

Em 1920, o clube vienense do Áustria seguiu o exemplo inglês e declarou o profissionalismo. Não tardou que em França, em Espanha e na Itália outros fossem pelo mesmo caminho. Portugal, como de costume, atrasou-se.

O Boavista sempre se considerou, orgulhosamente, como o mais antigo clube português de futebol até que, em 1988, uma corrente revisionista resolveu datar a fundação do FC_Porto de 1893, ignorando a anterior, datada de 1906, por Monteiro da Costa. Mas não restam dúvidas que foi o primeiro a adotar o profissionalismo entre nós, no ano de 1933. A medida fez-se sentir. Não tanto no âmbito do_Campeonato de Portugal mas, sobretudo, em desafios disputados contra equipas de Lisboa, entre as quais Sporting e Benfica.

Agarrados ao amadorismo como lapas a rochas batidas pelo mar, os outros clubes do Porto, apoiados pela generalidade dos clubes nacionais, avançaram para um boicote. Não havia competição possível. Os dados estavam viciados e as condições de equidade irreversivelmente alteradas.

A experiência foi brutalmente interrompida pela decisão administrativa de impedir os axadrezados de participarem no_Campeonato do Porto, deixando assim de poder aceder ao Campeonato de Portugal. Os dirigentes do_Boavista cederam e o profissionalismo posto na gaveta por mais uns anos. Poucos. Mas a iniciativa não se apaga das páginas da história.