Sociedade

Mais casos de violência contra profissionais de saúde

No primeiro trimestre foram reportados à DGS 383 casos de violência contra profissionais nos serviços de saúde. Uma médica e uma enfermeira que já o sentiram na pele relatam o que veem no dia a dia

Um cirurgião esfaqueado por um doente em pleno serviço. Aconteceu em fevereiro no Hospital de Peniche e até então a instituição nunca tinha tido um incidente com esta gravidade. Foi também o caso mais mediático desde o início do ano, mas o fenómeno da violência contra profissionais de saúde é considerado um problema pela Organização Mundial de Saúde, que estima que 50% dos profissionais sofram pelo menos uma agressão física ou psicológica a cada ano. 

Dados do Sistema Nacional de Notificação de Incidentes, gerido pela Direção Geral da Saúde (DGS), revelam que só nos primeiros três meses do ano foram reportados 383 incidentes, o que dá quatro casos por dia, o dobro da média do ano passado.  Podendo haver mais casos notificados, uma médica e uma enfermeira que já passaram por situações destas acreditam que tem havido mais conflitos nas instituições. E se nem tudo pode ser prevenido, podia ser feito mais para proteger os profissionais da insatisfação e impulsividade de alguns doentes e famílias, na maioria das vezes os agressores.

‘É preciso criar regras mínimas de segurança’
Nídia Zózimo é médica no Hospital de Santa Maria e dirigente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), com vários anos de experiência a chefiar equipas. Entre os casos que aconteceram consigo e os que envolvem colegas, não tem dúvidas de que este é um fenómeno muito pouco reportado em Portugal, sobretudo da parte dos médicos, e a que não tem sido dada suficiente atenção. E está a tornar-se mais frequente, alerta: «As pessoas descarregam a espera e as expectativas todas em quem as atende». 

O caso mais grave de que se recorda foi vivido por um colega cirurgião, a quem um doente partiu um dedo há uns anos. Em cada situação, é preciso ver o contexto, pois por vezes são pessoas com quadros de confusão mental até por alcoolismo. Mas mesmo nesses momentos, o sentimento muitas vezes é de que faltam barreiras de segurança. «A situação que tive de maior risco ao início nem me apercebi. O doente estava deitado no banco para primeira observação e por instinto dei um salto para trás. Tinha uma faca de ponta e mola. Só não fui esfaqueada no abdómen porque saltei», recorda.

Noutra noite nas urgências, apareceu um doente a exigir uma consulta. Depois de lhe explicar que não seria possível, foi ameaçada de morte. «Abriu o casaco e estava armado. Primeiro tentou comprar-me e depois disse: ‘quando sair tratamos do assunto’». Já foi esbofeteada por uma doente que repetidamente tratava mal a equipa e a quem tentou chamar a atenção mas, no dia a dia, descreve, o mais frequente são os insultos. É isso também o que mostram os dados da DGS, com o assédio moral e a violência  verbal a dominarem as 4639 notificações recebidas desde o início da monitorização em 2007. 

É o que se torna mais difícil de gerir, porque implica não só lidar com a situação mas também olhar para todo o sistema. «O que causa mais stresse e mais burnout nem é a agressão física, porque essa de um modo ou de outro fica curada e é menos frequente. A agressão psicológica, as ameaças, o doente dizer ao médico que é incompetente, chamar nomes, essa parte desgasta muito». 

E se é preciso lidar com cada doente, até para que não se mine a relação de confiança necessária para prosseguir uma consulta ou tratamento, outras vezes seria preciso um trabalho maior de sensibilização, a par do reconhecimento de que é necessário investir mais nos serviços. 

«Por vezes temos situações em que os doentes com pulseiras verdes têm seis ou oito horas de espera, a maioria não devia estar no hospital. Basta um doente começar a protestar que começam outros a insultar, às vezes a entrar gabinete dentro. O segurança sozinho não consegue controlar, só chamando a Polícia». 

É o que fazem, já que o hospital tem um posto da PSP. Mas muitas vezes os doentes não percebem o que se passa lá dentro, explica. «Temos perdido médicos especialistas. Atualmente quando estou a chefiar um banco temos equipas muito novas, com internos. As pessoas acham que os médicos estão a demorar muito. Estão a demorar porque podem ter dúvidas e vão tirá-las com quem tem mais experiência. A perceção de quem está de fora é que trabalham pouco e nem chamam os doentes. Não termos suficientes elementos diferenciados nas equipas e capacidade de resposta está a gerar muitos conflitos».  

A falta de barreiras de segurança é, ainda assim, dos problemas que mais preocupa a médica. Porque, de facto, circula-se no hospital com facilidade. 

Uma preocupação que esta semana a Ordem dos Médicos manifestou em relação a outras unidades, depois de serem conhecidos resultados auditorias feitas pela Inspeção Geral das Atividades em Saúde a hospitais de Coimbra, Porto, Évora e Faro. Segundo noticiou o Público, foram detetadas falhas nos sistemas de alarme e portas de encerramento automático, em sistemas de vigilância e até em pulseiras eletrónicas de recém-nascidos. 

Mesmo que não fosse possível prevenir tudo no que respeita a reações mais agressivas, Nídia Zózimo acredita que dois fatores fariam a diferença. Por um lado, reforçar a ideia de que tal como há direitos na saúde também há deveres e explicar o funcionamento do sistema de saúde à população. «A própria instituição quando não cria regras de acesso está a deseducar os doentes e as famílias». Já a segurança exigiria procedimentos que tornassem mais difícil que pessoas estranhas aos serviços possam facilmente entrar em contacto direto com os profissionais.  

‘É contra nós que os doentes se revoltam’
Maria (nome fictício) é enfermeira num hospital da zona norte. Em 20 anos de profissão, o episódio de violência que mais a marcou aconteceu no ano passado. Um doente que estava a ser acompanhado por si e por uma psicóloga agrediu-a na cara. 

As sequelas físicas passaram mais depressa do que as emocionais. «Era um doente inimputável, teve um comportamento agressivo no contexto da doença. Fui eu como podia ter sido outra pessoa qualquer, mas é uma situação que nos fragiliza». 

A enfermeira acredita que a escassez de recursos humanos até para apoiar atendimentos mais complexos, quando os doentes estão mais agitados ou têm limiares de frustração reduzidos e  há dificuldade em aceitar as regras do internamento, acaba por deixar as equipas mais expostas. «Tem havido vários alertas para os baixos rácios de enfermagem. Quando tudo corre bem pode não se notar, mas quando há estas situações é que se nota que os serviços não estão a funcionar no seu apogeu em termos de recursos humanos. Há um risco acrescido». 

Fez notificação do incidente à DGS e lamenta não ter tido qualquer feedback. «Estamos na linha da frente. Quando há problemas é contra nós que os doentes se revoltam».