Opiniao

O país da rosa com algemas na foice e martelo

A greve dos camionistas de materiais perigosos seria uma oportunidade de ouro para o BE e o PCP encherem, horas e horas, as televisões com a sua solidariedade aos trabalhadores em luta. 

Seria também uma excelente oportunidade para a CGTP se concentrar em Aveiras, Sines e Matosinhos, locais de onde saíam os camiões que levavam o combustível para os aeroportos e hospitais, onde Arménio Carlos gritaria contra as injustiças salariais e diria palavras de ordem contra o patronato.

Seria, de facto, uma excelente ocasião, não fosse o caso de existir uma ‘geringonça’ que podia ter como símbolo uma rosa a algemar uma estrela e uma foice e um martelo. Não há memória de o país estar paralisado e o PCP e o BE estarem escondidos nas suas sedes partidárias à espera que tudo se resolva. Mas foi o que se passou nos três dias em que os camionistas, sem apoios de nenhuma central sindical, conseguiram mexer com a vida de milhões de pessoas sem que os paladinos da justiça social abrissem a boca. O que teriam dito o PCP e o BE se a greve tivesse ocorrido durante um Governo de direita? O que teriam dito quando militares da GNR entraram em camiões de empresas particulares e levaram eles o combustível para o aeroporto de Faro?

Num país onde é mais fácil falar com um prémio Nobel da Ciência do que com um subsecretário de Estado dos ‘Assuntos Sem Pasta’, é natural que os partidos consigam gerir a sua agenda de acordo com as suas conveniências. Fosse noutro país onde a população não passou a ver a realidade pelas redes sociais e veríamos se os políticos poderiam fugir com tanta facilidade. Mas é o que somos, um povo que adora ir atrás da carneirada e que se mobiliza quando no WhatsApp e no Facebook todos copiam e se identificam com uma foto, seja ela de uma desgraça ou de um feito caseiro.

Outro dado curioso da semana, politicamente falando, diz respeito à entrevista que Cavaco Silva deu à Rádio Renascença onde afirmou, sem paninhos quentes, o seguinte: «Há muitos políticos, neste momento, a serem comentadores na televisão, mas eu nunca fui comentador televisivo e acho que é um dos grande males neste momento em Portugal». A ferroada do antigo Presidente daRepública, que tem (tinha?) vários amigos políticos no comentário televisivo, não mereceu a resposta de nenhum. Porque será?

É certo que Cavaco podia estar a referir-se ao seu sucessor, numa daquelas indiretas de que tanto gosta, mas dizer que um dos grandes males do país é haver políticos comentadores televisivos é um pouco forte demais para ficar sem resposta. Mas, como disse, vivemos no país das redes sociais, onde as pessoas cada vez mais querem ser menos informadas e mais animadas com likes e emojis. 

Voltando à greve, o que pensarão os outros trabalhadores que se sentem injustiçados? Que se radicalizarem a sua luta conseguirão alcançar os seus objetivos? Poucos setores da vida portuguesa têm tanta força como os camionistas, que conseguem paralisar o país, mas o Governo que se prepare para um verão bem quente no que diz respeito à contestação social.

Por fim, não deixa de ser curioso que quem está a ganhar votos, de acordo com as sondagens, devido às guerras abertas com os professores, enfermeiros e camionistas, entre outros, seja um partido que está praticamente morto: o PSD. O BE e o PCP – principalmente este –, como estão algemados, não podem ganhar votos com a contestação. Mas, diga-se, Costa também deu uma grande ajuda ao PSD quando nomeou Pedro Marques, uma não existência, como cabeça-de-lista às europeias e manteve um dos mais ferozes socratistas nas listas: Pedro Silva Pereira. Palavras para quê?

vitor.rainho@sol.pt