Politica

Combustíveis: Um país parado por 800 homens

Transportes públicos ameaçavam parar, funerárias recusavam serviços e o INEM pedia compreensão aos condutores. Enquanto isso, os manifestantes iam apupando os colegas que traziam algum combustível a quem desesperava.

A greve terminou esta quinta-feira, logo ao início da manhã, mas o caos provocado pelos protestos dos motoristas está longe de ter um fim. O pânico de ficar sem combustível e perder as férias da Páscoa levou os portugueses a encher os depósitos, esvaziando bombas por todo o país e dando força às reivindicações dos grevistas, que assim mostraram ao país como conseguem parar a vida de milhões.

O protesto convocado pelo Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas começou às 00h de segunda feira e em menos de 24h já se sentiam os estragos e antevia-se um cenário negro, que acabou por se verificar. O não cumprimento de serviços mínimos secou os aeroportos de Lisboa e Faro – o do Porto foi exceção por ser alimentado por ‘pipeline’ que vem da refinaria – e lançou o pânico entre os condutores e quem anda de transportes públicos – sim, até as transportadoras começaram a fazer contas às reservas e a ponderar uma redução da oferta.

A resposta do Governo que já havia chegado na manhã de terça-feira com uma requisição civil não aliviou a tensão, cada vez mais forte. Com os aeroportos a ficarem ‘secos’ a partir da hora de almoço de terça-feira, ao Governo não restou outra alternativa que não a de determinar que uma coluna de oito camiões cisterna fizesse o transporte de combustível entre Aveiras e Lisboa, escoltados pelas autoridades. O cenário foi idêntico a norte com três camiões a sair de Matosinhos com combustível para abastecer alguns pontos do Grande Porto. A Braga o reforço acabaria por chegar do país vizinho, com vários camiões espanhóis a cruzarem a fronteira cheios de combustível.

Foi com esses camiões que alguns postos ficaram com uma folga extra para enfrentar as filas intermináveis de carros que se verificavam em muitos pontos do país – ainda não se tinha atingido as 48h de greve, era início de noite de terça feira, e já perto de 600 postos de abastecimento estavam sem gasóleo e gasolina, segundo o site vost.pt. Nessa mesma altura outros 866 estavam sem gasóleo e 223 sem gasolina.

O dia terminou com o Governo a decretar situação de crise energética até ao próximo domingo.

 

Empresas de transporte sem reservas de combustível

E era caso para tal, ainda sem a normalização das reservas nos dois aeroportos, com filas de quilómetros para abastecer e o INEM a fazer apelos aos condutores para darem prioridade às ambulâncias nas bombas até as empresas de transporte coletivo começaram a avisar que não aguentariam esta situação muito mais tempo.

A Transtejo e a Soflusa foram das primeiras. Ambas anunciaram que só conseguiriam garantir o transporte normal de passageiros até quarta e quinta-feira respetivamente, adiantando ainda assim ter já um plano de contingência por via marítima.

Segundo o Público, a Carris, por seu lado, só conseguia garantir os serviços normais até ao fim de semana se nada se alterasse. Na quarta-feira, com os serviços mínimos decretados, conseguiu-se que 40% do abastecimento fosse feito em Lisboa e Porto, o que segundo adiantado por Pedro Henriques, do Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas, correspondia apenas às necessidades acumuladas da Carris e da Sociedade de Transportes Coletivos de Lisboa e Porto.

Também os distribuidores de medicamentos decidiram em alguns casos não fazer as segundas e terceiras entregas diárias de medicamentos às farmácias.

Perante todas as notícias que foram saindo durante as 72 horas de caos, a Câmara Municipal de Lisboa fez questão de usar o seu Twitter para dizer que o melhor era mesmo os lisboetas começarem a pensar em andar de bicicleta Gira: «Aproveite. Estas têm o depósito cheio».

 

Os 310 postos especiais e o limite de 15 litros por carro

O acordo ainda estava muito longe e na quarta-feira à noite, a meio da reunião que viria a acabar só na madrugada de quinta-feira, começaram a ser anunciadas algumas medidas. Uma delas era a criação de uma rede com 310 postos prioritários de abastecimento – o que representa 10% da rede nacional –, desenhada pelo Ministério do Ambiente, com um objetivo claro: «Assegurar a manutenção do funcionamento dos serviços e forças de segurança».

Segundo o definido, estes postos teriam prioridade na hora do abastecimento e não poderiam ser usados pelo condutor comum que pretendesse atestar o seu depósito. Isto porque, como medida acessória, foi pensado um limite de 15 litros de abastecimento por cada veículo particular.

Enquanto isso a situação de caos ia crescendo de norte a sul. Em Lisboa chegou a haver filas de um quilómetro em bombas como as da A5 – autoestrada que liga Lisboa a Cascais.

 

Motoristas 72 horas em luta

Em Portugal há 800 motoristas habilitados a fazer o transporte de combustíveis e matérias perigosas e a adesão aos protestos durante estas 72 horas foi de cem por cento. Uns concentraram-se à porta da Companhia Logística de Combustíveis (CLC), em Aveiras de Cima, outros à entrada da refinaria da Petrogal em Matosinhos e em Loulé.

Durante os últimos dias foram diversos os momentos de tensão, sobretudo quando saía algum comboio de camiões escoltados para amenizar os problemas que se iam sentindo nos aeroportos e nos postos de abastecimento.

Na terça-feira a Unidade de intervenção da GNR teve mesmo de ser acionada em Aveiras para evitar que os manifestantes impedissem o abastecimento dos oito camiões cisterna que mais tarde acabariam por rumar a Lisboa. Mesmo perante os elementos da GNR, os manifestantes continuaram a apupar e a lançar duras críticas à operação de abastecimento. E quando os veículos passavam os insultos continuavam, muitos através de cartazes: «Traidor, cobarde, vendido, és uma vergonha para a nossa classe».

Em Loulé, os protestos chegaram mesmo a travar a saída dos camiões que na terça-feira deveriam seguir para abastecer o aeroporto de Faro.

Na quarta-feira o cenário estava a deteriorar-se. Mesmo com os 40% de abastecimento garantidos para todo o país e os serviços de saúde e aeroportos assegurados, havia serviços a serem recusados, inclusivamente algumas trasladações por parte de agências funerárias.

Poucas horas antes do acordo que pôs fim à greve eram já cerca de 2000 os postos de abastecimento sem combustível.