Biblioteca Pessoal

A mais elitista das revistas de arte

Quando era estudante e visitava com frequência a Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, enquanto esperava que os livros requisitados emergissem da cave num pequeno elevador semelhante aos que há nos restaurantes ia-me entretendo com outras leituras. Tanto podia ser um verbete de um dicionário de música ou duma enciclopédia como um artigo de revista. Se queria ficar a par das tendências da arte contemporânea, pegava na ArtForum; para um vislumbre do mercado da arte e dos milhões que movimenta, pegava no The Art Newspaper; se estivesse mais virado para estudos sérios e aprofundados, sobretudo de arte antiga, tirava da estante a Burlington Magazine.

Fundada em 1903 por um grupo de historiadores da arte, a Burlington Magazine é talvez a mais elitista das revistas de arte. Tem entre os seus redatores e colaboradores a nata do meio e uma assinatura anual de 12 números custa a módica quantia de €314. Nos seus exemplares antigos podemos encontrar textos assinados por grandes figuras da história da arte do último século, como Bernard Berenson, o expert do Renascimento Italiano que aconselhava museus e magnatas e recebia chorudas comissões por isso; Roger Fry, um membro do grupo de Bloomsbury (que incluía Virginia Woolf e o seu marido, Leonard) e autor de um livro célebre sobre Cézanne; John Pope-Hennessy, o ‘papa’ incontestado da história escultura italiana; Herbert Read, o mais conceituado crítico do seu tempo e fervoroso apologista da arte moderna; e John Richardson, o biógrafo e amigo de Picasso que faleceu aos 95 anos a 12 de março último.

Além dos artigos de fundo, por vezes sobre temas ultraespecíficos e artistas obscuros, a Burlington oferece também notas mais breves sobre exposições, recensões de livros de história da arte acabados de publicar ou pequenos obituários de personalidades do meio. Estes textos podem trazer a assinatura de figuras de alto gabarito como Kenneth Clark, o criador da série Civilização, da BBC, ou Ernst Gombrich, autor do livro de história da arte mais popular de todos os tempos.

A Burlington tornou-se com naturalidade uma bíblia para os estudantes e historiadores da arte e o que nela aparece escrito é lei. Por isso, quando em 1937 o erudito professor Abraham Bredius escreveu nas suas páginas sobre uma nova pintura de Johannes Vermeer, a notícia correu mundo. Aliás, Bredius descrevia a sua ‘descoberta’ como o momento maravilhoso por que qualquer historiador da arte anseia toda a vida. E ia mais longe: a tal pintura não era apenas um Vermeer, era a «obra-prima» do mestre holandês.

Alguns anos mais tarde viria a revelar-se que a obra-prima de Vermeer era, afinal, uma falsificação do famoso pintor Han van Meegeren, que enriquecera de forma fabulosa graças ao seu talento para imitar o inimitável pintor. Foi um golpe terrível para Bredius, que viu a sua reputação manchada. E também para a Burlington. De tempos a tempos, até a bíblia comete um deslize.