Causa-efeito

A reforma do capitalismo segundo Dalio (Parte 1)

Uma das minhas maiores referências pessoais no mundo dos investimentos sempre foi Ray Dalio. 


Ray fundou a sua empresa de investimentos – a Bridgewater Associates – a partir do seu apartamento em Manhattan, em 1975. Nos 44 anos seguintes a Bridgewater cresceu ao ponto de empregar 1700 pessoas na gestão de cerca de 125 mil milhões de dólares em ativos. Obviamente que os seus retornos sólidos e consistentes valeram-lhe reconhecimento generalizado no mundo financeiro, porém para mim as suas contribuições mais relevantes foram feitas nos domínios de metodologias inovadoras tanto a nível de gestão de risco como em termos de gestão de uma empresa de sucesso – a famosa ‘meritocracia de ideias’ que foi refinando ao longo do tempo na Bridgewater.

Qualquer investidor no domínio de macro global, no qual Ray se notabilizou, necessita de estar constantemente atento aos vários ciclos e paradigmas históricos da economia, política e até sociologia. Dalio sempre se destacou nestas áreas e para além dos lucros que gerou tem uma extensa e interessante bibliografia de inúmeros papers sobre estes temas. A sua mais recente intervenção foca-se numa questão cada vez mais pertinente para as sociedades democráticas e abertas de hoje – a reforma do sistema que fomentou integração e crescimento mundial desde o pós Grande Guerra mas que hoje arrisca não estar a funcionar para todos – o capitalismo.

Ray analisa a questão do ponto de vista americano, contudo os diagnósticos e propostas oferecem lições importantes para grande parte do mundo desenvolvido. A base do diagnóstico centra-se em torno de uma divisão de sociedade pouco comum – os 40% que recebem mais rendimento e os 60% que recebem menos. Desde os anos 80 que estes dois segmentos têm tido evoluções distintas, com um gradual aumento para os primeiros, e uma total estagnação para os últimos em termos reais. Sendo que estes 60% já constituem maioria democrática, se o sistema não se reformar a bem é provável que se altere de forma mais disruptiva – e o recente surto populista é bem sintoma disso.

Segundo Ray, existe uma dinâmica que está a auto reforçar o fosso de rendimento-educação-riqueza-oportunidade. Nos EUA a componente de igualdade de oportunidade na educação está particularmente ameaçada por efeitos perversos do financiamento ao nível local. Pontos geográficos mais ricos conseguem maior investimento por aluno, e o ciclo exacerba-se. Esta desigualdade de raiz propaga-se nas restantes, o problema aumenta e esmaga a mobilidade social cada vez mais. O paper aponta também a resposta monetária à recente crise, a tal morfina que demonstrei em fevereiro tem catapultado para outro nível a desigualdade em termos de riqueza financeira.

O texto está repleto de estatísticas e observações relevantes, pelo que recomendo a sua leitura através da página de LinkedIn do autor, dado que este curto resumo é manifestamente insuficiente. A lista de soluções – que irei abordar num próximo artigo – dependerá sempre da boa vontade dos agentes em mudar o status quo – se isso fosse fácil não teríamos chegado a este ponto.