Cultura

Solar da Pena. O vinho que esconde segredos medievais

Foi a casa de muitos nobres e pertenceu a uma série de personalidades notáveis da cavalaria medieval portuguesa. Hoje, o Solar da Pena renasceu como marca de vinhos pelas mãos do empresário José Correia. O b,i. foi até lá.

Solar da Pena, o vinho que esconde segredos medievais, do Minho profundo, oriundo dos tempos remotos das nossas escaramuças com os vizinhos galegos, castelhanos e leoneses, para o consolidar da nacionalidade lusa, está finalmente de regresso, qual D. Sebastião, após longo interregno. Um projeto que conta com largos anos de maturação atingiu agora o seu ponto ideal, tendo começado a entrar nos mercados internacionais, através da Dinamarca e da Bélgica.

Mas para aqui chegarmos há que não saltar centenas de anos de história que se confundem com a História do país. Fundada no Século XV, logo após a Batalha do Salado, a Quinta Solar da Pena é uma herdade com cerca de 22 hectares, a que se junta mais abaixo a Quinta da Ombra e ainda a Quinta de Moure, uma propriedade situada já perto da margem esquerda do Rio Cávado.

O Solar da Pena foi doado ao arcebispo D. Gonçalo Pereira, clérigo guerreiro, avô de D. Nuno Álvares Pereira, tendo sido propriedade de vários nobres, até que, já no Século XX, pertenceu a António Pinto Machado – homem ligado à construção do Palácio de Cristal, no Porto.

A imponente propriedade do Solar da Pena integra-se na Região Demarcada dos Vinhos Verdes, tendo sido um importante ponto de passagem da Geira Romana que ligava Braga a Astorga, por Terras de Entre Homem e Cávado, onde avultam as vinhas, as culturas de kiwis e as árvores de fruto, como citrinos e maçãs, a par de belas oliveiras.

A frontaria do Solar ostenta uma imponente pedra de armas, com destaque para as quinas e os cervos, oferecidos pelos Reis Afonso IV de Portugal e Afonso XI de Castela, estando em recuperação o património edificado, entre o qual a capela, a casa senhorial, anexos e uma adega onde se produzem e engarrafam todos os cinco vinhos da exploração Solar da Pena.

Agora, o Solar da Pena renasceu como marca de vinhos, às mãos do empresário José Correia (JC Group), que traz consigo a «vontade férrea de fazer renascer» três propriedades, de um grande valor patrimonial e todas outrora de notáveis personalidades da cavalaria medieval portuguesa.

Hoje a quinta dispõe de uma vinha de 18 hectares, presentemente dominada por castas brancas, e uma adega, projetando para um futuro próximo inaugurar uma unidade de turismo rural, com óbvia vertente enoturística e a cultura associada, na freguesia de Pousada, em Braga.

 

Duas gamas de vinhos

Apresentações feitas, vamos então ao sumo dos Deuses. Os vinhos Solar da Pena compreendem duas gamas, uma Folclore, assim denominada por expressar um perfil mais tradicional, com maior rusticidade (Branco, Tinto e Rosé), bem como outra gama mais complexa e de maior charme, que adota o nome do Solar da Pena (Batonnage & Oak e Arinto), onde se procuram novas expressões do vinho verde, vinhos mais profundos, secos e minerais, segundo explicou ao b,i. a gestora de produção, Débora Sousa.

«Recentemente estivemos numa prova de vinhos na Dinamarca e a recetividade foi muito boa, na sequência de uma ação promovida pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, tendo sucedido o mesmo na Bélgica», diz a responsável.

«A indissociável componente gastronómica e cultural é muito importante para o Solar da Pena, pois o vinho é um produto alimentar sui generis, sendo natural por essência, oriundo da terra e sujeito a uma transformação também ditada pelas leis da natureza, ao mesmo tempo profundamente estético, refletindo a imagem de quem o compra, nomeadamente pelo rótulo ou o ritual ligado ao seu consumo e partilha, fenómenos que compreendemos também ocorrerem no domínio da gastronomia moderna», sintetiza Débora Sousa antes de prosseguir com a explicação.

«A nossa gama de vinho é oriunda de três parcelas, todas com um grande valor histórico, em que a nossa mais-valia é sermos independentes, isto é, controlamos toda a produção, desde a uva até à garrafa: nunca compramos uvas nem vinho a ninguém. A matéria-prima é toda nossa, o que nos permite um rigor absoluto em relação ao produto final», refere ainda Débora Sousa, ladeada pelo enólogo Pedro Campos, no Solar da Pena.

«Por isso é nosso o desejo acompanhar e integrar o processo de promoção da gastronomia e as iniciativas a ela ligadas, refletindo os nossos valores enológicos, isto é, sempre com os melhores ingredientes, as melhores uvas – e a noção de terroir (as melhores regiões e práticas) associando-nos a marcas e a ideias que partilhem connosco os mesmos valores, demonstrando as potencialidades dos nossos vinhos para acompanhamento dos variados pratos».

 

Batonnage & Oak, Arinto e Folclore

A explicação prossegue para voos mais altos. «Temos dois vinhos de gama alta, o Batonnage & Oak, e o Arinto, que vêm de parcelas únicas», continua a enóloga Débora Sousa, dando a conhecer as características dos vinhos.

Segundo a especialista, o Batonnage & Oak é um «vinho seco temperado com baunilha, entrelaçado com o aroma a frutos tropicais, sendo fresco e estruturado, tendo o potencial de acompanhar uma variedade de pratos e de ocasiões».

Já o Arinto, «recomenda-se ser servido bem gelado, mostrando a natureza refrescante e delicada de Arinto, pois é um vinho seco, com notas de citrinos e maracujá», acrescenta.

E no Solar da Pena há vinhos para todas as mesas. «A marca Folclore é a nossa gama de entrada, sendo um vinho mais corrente, mas muito ao gosto do consumidor com teor de açúcar mais elevado e mais gás, tem o seu mercado próprio, com três variedades, o Branco, o Tinto e o Rosé», salienta a gestora de produção. «Na gama Folclore, o Branco é um vinho exuberante, que mostra a riqueza aromática de duas das nossas variedades favoritas, Loureiro & Arinto, a par do Tinto, que deverá ser servido ligeiramente gelado, por ser refrescante com notas de frutos silvestres, enquanto o Rosé é um vinho refrescante com notas de morango», pormenoriza ainda
Débora Sousa.

Tudo com o selo de uma quinta cuja História, só por si, vale a visita.