Cultura

O enigma da Vinci

Dia 2 de maio passaram 500 anos da morte de Leonardo da Vinci, o génio do Renascimento. Tentamos aqui decifrar este enigma através de dez pontos-chave da sua vida e obra.

Infância na Toscana

Nascido a 15 de abril de 1452, Leonardo foi registado como «filho não legítimo» de um notário, Ser Piero Fruosino di Antonio da Vinci. Embora a família pertencesse à fidalguia local, não teve problemas em assumir a ‘bastardia’ da criança. Leonardo viria a escrever mais tarde: «Se as relações envolverem um grande amor e desejo de ambas as partes, a criança será de grande inteligência, humor, vivacidade e graça». Parece ter sido o caso. O seu biógrafo Giorgio Vasari diria, em 1550: «Para onde quer que essa pessoa se volte, cada uma das suas ações é muito divina, de modo que deixa para trás todos os outros homens [...]. Foi o que viram os homens em Leonardo da Vinci, em que, além da beleza do corpo, nunca elogiada o suficiente, era a graça mais que infinita em qualquer de suas ações; e a virtude era tão grande que tornava fáceis as coisas difíceis. A força nele era grande e combinava-se com destreza, alma e valor, sempre real e magnânimo».

Processo por sodomia

Tendo mostrado cedo dotes para a pintura, o seu pai colocou-o como aprendiz na prestigiada oficina de Andrea del Verrochio, em Florença, para a qual entrou aos 14 anos (1466) e permaneceu durante uma década. Reza a lenda que terá sido ao ver um anjo pintado pelo discípulo que Verrochio terá decidido abandonar os pincéis. Neste período, segundo o historiador da arte Kenneth Clark, terá passado largo tempo «a não fazer nada: a aperaltar-se, a conversar, a domar cavalos, a aprender a tocar alaúde, a aprender a tocar flauta, a saborear os hors d’oeuvres da vida, até o seu génio encontrar a sua verdadeira direção». Exatamente em 1476 foi alvo de uma denúncia anónima por sodomia, que envolveu um outro jovem de 17 anos. O processo não foi avante por falta de provas, mas Leonardo nunca se livrou da fama de homossexual. Freud construiu uma teoria acerca disso e o facto é que, além de nunca se ter casado, os seus herdeiros foram dois discípulos, possivelmente seus amantes, Francesco Melzi, a quem deixou os manuscritos, e Salai, a quem anos antes tinha chamado «ladrão».

A dignidade da pintura

Leonardo escreveu um tratado sobre pintura em que tentava explicar por que era uma espécie de arte total que exigia o domínio de uma série de disciplinas, como a perspetiva. Aí encontra-se a célebre afirmação: «A pintura é coisa mental». Ao ler esse tratado, já após a morte do seu autor, o pintor Anibale Carracci terá dito que, se o tivesse conhecido antes, tinha poupado vinte anos de aprendizagem.

O sorriso indecifrável da Mona Lisa

Pintada cerca de 1500-1503, a Mona Lisa é uma consubstanciação dos conhecimentos de Leonardo. Além da subtileza dos contornos, da paisagem fantástica no fundo, trata-se de um expoente da perspetiva atmosférica, uma técnica segundo a qual os objetos à distância não só surgem mais pequenos como apresentam uma cor alterada. No entanto, a característica mais notória deste retrato é o sorriso da mulher, que se pensa ser Lisa Gherardini, esposa de Piero Francesco del Giocondo. Este sorriso enigmático tem sido alvo de várias teorias e interpretações - assim como a própria pintura. Houve quem visse nela um autorretrato do pintor (uma hipótese que os peritos rejeitam liminarmente) e Umberto Eco disse até que parecia um travesti.

A rivalidade com Miguel Ângelo

Leonardo e Miguel Ângelo, dois dos gigantes do Renascimento, odiavam-se um ao outro. A emulação atingiu o ponto mais alto com dois grandes frescos (já desaparecidos) no Pallazzo Vechio, de Florença. Para ridicularizar o seu rival, que se dedicava sobretudo à escultura, Leonardo escreveu um texto satírico, em que dizia que o escultor parecia «um padeiro», por causa do pó de mármore que o cobria.

Anjos e caricaturas

Os anjos pintados por Leonardo (e que segundo alguns se inspiram nas feições do próprio artista), constituem o cânone de beleza ocidental daquele período. Mas o artista apreciava os contrastes e fez também desenhos que tentam representar o paradigma da fealdade. Para isso, conta Vasari, perseguia na rua pessoas com características invulgares, como um queixo enorme ou uma grande testa, que depois passava para as suas caricaturas.

O Despertador

Para conseguir dedicar-se a tantas e tão diferentes áreas, Leonardo tinha de aproveitar bem o tempo. Assim, entre os seus muitos inventos, encontra-se um despertador original que funcionava com água. Quando o nível de um depósito de um lado superava o do lado oposto, a água caía sobre os pés do utilizador, que assim acordava e podia ir trabalhar.

O filósofo 

Reza a lenda que Rafael fez um retrato de Leonardo no fresco A Escola de Atenas, no Vaticano, sob a figura de Platão, que aponta para cima. De facto, além de artista e engenheiro, Leonardo era também considerado um filósofo. Vinte anos após a sua morte, era assim que o Rei de França Francisco I o recordava, dizendo a Benvenutto Cellini que acreditava que nunca ninguém tinha sabido tanto quanto Leonardo «tanto em escultura, pintura e arquitetura, como em filosofia. Era um grande filósofo». 

O preço de uma lenda 

Hoje existem apenas cerca de 20 pinturas saídas da mão esquerda de Leonardo, e cada uma delas constitui uma coroa de glória para a instituição que a possui. A fama do artista é tão grande que, apesar das dúvidas acerca da atribuição, o Salvator Mundi atingiu em leilão, em 2017, o valor astronómico de 450 milhões de dólares. A pintura, que pertencerá ao príncipe herdeiro Salman da Arábia Saudita (embora oficialmente o comprador fosse o ministério da Cultura de Abu Dhabi), devia figurar na grande exposição que o Louvre vai dedicar ao mestre do Renascimento em outubro. No entanto, ninguém sabe do seu paradeiro.

Leonardo e Portugal

Existe apenas um pequeno desenho atribuído a Leonardo em Portugal, de uma mulher a lavar os pés a um bebé. Pertence à Faculdade de Belas Artes do Porto e esteve excionalmente exposto por um dia, a 2 de maio. Normalmente encontra-se guardado, a salvo da luz, dada a sua fragilidade. Além deste, sabe-se que houve um cartão para uma tapeçaria qeu Leonardo fez para o Rei de Portugal, mas há muito que desapareceu. Poderá ter sido destruído pelo terramoto de 1755.