A moda dos mercados

Gosto muito do que está a acontecer com os tradicionais mercados, nomeadamente os Mercados de Lisboa. Espaços renovados, mais serviços e melhor oferta, zonas de lazer e restauração, tornam estes espaços, até há bem pouco tempo esquecidos da maioria da população, polos de atração. Ganharam uma nova vida, a população aderiu, ganhou a cidade uma…

Mas há outro tipo de mercados. Os marketplaces digitais, apesar de mais recentes não são propriamente uma novidade, mas ao que tudo indica, são o formato com melhores perspetivas de futuro no ecommerce. Dividem-se em três tipos: puros, híbridos e híbridos e físicos. No primeiro caso, nos puros, apenas há trocas entre terceiros, vendedores e compradores particulares externos à plataforma. O marketplace pode prestar diferentes tipos de serviços complementares à venda, mas o aspeto mais importante é que não tem inventário. Os híbridos são modelos tradicionais de negócio, mas com uma plataforma de venda por terceiros incorporada na sua atividade online. Os híbridos e físicos acrescentam ao modelo anterior as lojas físicas.

O comércio eletrónico é uma atividade com grande potencial, mas que representa ainda uma percentagem muito pequena da atividade comercial, e com grandes variações entre diferentes categorias. Além do negócio direto que gera, o ecommerce é importante para a maioria das marcas também pelo efeito de montra, mantendo sempre disponível uma ampla gama de produtos. E, claro, o fator preço, pois além de aumentar as opções de escolhas, torna a comparação de características dos produtos muito mais fácil.

Os marketplaces são muito mais do que simples lojas online e têm várias características com potencial para transformar um negócio. Para os donos das plataformas, trata-se da possibilidade de obter receita de uma venda sem ter de adquirir inventário – e ter de realizar todas as operações logísticas que lhe estão associadas – além de uma possibilidade de expandir a oferta, sem fazer disparar os custos ou entrar em áreas de negócio que não dominam. Igualmente importante, é a venda de serviços de apoio às transações que são realizadas na plataforma, que podem ir desde serviços de entrega a seguros que cobrem o risco da venda, nomeadamente fraude. Há muitas possibilidades de crescimento de negócios periféricos nas plataformas de marketplace e ainda estamos a assistir ao princípio do fenómeno.

Tudo começou com uma livraria. Apesar do eBay ser o primeiro marketplace conhecido, a Amazon é sem dúvida o caso de maior sucesso nos tempos que correm. Jeff Bezos é o homem mais rico do mundo segundo a Forbes, ou pelo menos era antes do recente divórcio, o que prova bem a dimensão e valor da plataforma que gere. Claro que apesar de continuar a vender livros, hoje a Amazon é um negócio tecnológico, que produz conteúdos, vende servidores e serviços digitais, e num contexto B2C, dirigido ao consumidor particular, tem nos produtos de retalho, nomeadamente eletrónicos, a sua principal fonte de receita. A título de exemplo, metade das pessoas que compram produtos online procuram pelo menos um produto por ano na Amazon.

Numa recente comunicação aos acionistas, Jeff Bezos definiu a Amazon como um pequeno operador no contexto global do retalho. Foi modesto e, provavelmente, pouco honesto pois apesar do volume de negócios de ecommerce ainda não ser comparável com o retalho físico – as percentagens variam muito consoante a fonte, mas no caso do retalho estima-se que globalmente possa representar cerca 5% do volume total – o ritmo e até o sentido da evolução de uma e outra realidade não é comparável. Há cada vez menos pessoas nas lojas físicas, uma percentagem significativa só vai à loja experimentar, sentir e tocar o produto, para depois procurar a melhor oferta online enquanto que 2/3 das pessoas pesquisam o preço de um produto que querem comprar antes de entrar numa loja. Já no ecommerce o volume de negócios cresce a dois dígitos nos últimos anos e há cada vez mais adeptos à medida que a oferta aumenta, que se vencem as barreiras da segurança e confiança nas transações ou que os processos de entrega se tornam mais céleres.

Um fato curioso sobre o futuro do ecommerce e dos marketplaces, que a Amazon ilustra bem, é a evolução que fazem no sentido de criar experiências físicas das suas marcas, espaços onde as pessoas podem sentir o produto e ter uma melhor experiência de atendimento personalizado. Não deixa de ser curioso que o formato que perde popularidade seja visto pelos operadores que estão a ganhar esse mesmo mercado como o futuro, uma necessidade quase obrigatória para expandirem os seus negócios.

Esta semana foi lançado o dott, um marketplace que se quer afirmar como a grande referência do formato no nosso país, uma parceria entre a Sonae e os CTT que tem, entre outros, o desafio de converter novos públicos para o ecommerce. Por enquanto, o formato dominante são as lojas físicas e tudo indica que vamos continuar a visitar os mercados nos próximos anos, comprando os mesmo produtos, provavelmente às mesmas pessoas. Mas o futuro das lojas físicas implica criar diferenciação, mais serviços e uma experiência mais rica porque caindo na armadilha do preço vai ser muito difícil convencer gerações de nativos digitais, que lidam com este fenómeno desde sempre e que trabalham neste tipo de plataformas a comprar fruta no mercado, muito menos roupa na boutique do bairro. Por muito bom que seja o pregão!

*Responsável Planeamento Estratégico do Grupo Havas Media