Sociedade

Tancos. Investigação concluída em julho

Já se sabia que a procuradora Cândida Vilar, segundo a PJ, interveio no processo de Tancos para prejudicar a investigação. Mas há outras duas magistradas na mira dos investigadores: uma de Loulé e outra do DCIAP de Lisboa.  

 

Três magistradas do Ministério Público tentaram boicotar a investigação sobre o reaparecimento das armas furtadas em Tancos, para favorecer a cúpula militar que participou na operação. A suspeita é da PJ - e duas das procuradoras foram já alvo de um inquérito-crime, com origem numa certidão extraída do processo e que está a ser investigada no Tribunal da Relação de Lisboa. A terceira magistrada foi, por enquanto, apenas ouvida como testemunha. 

O primeiro caso envolve Cândida Vilar que, segundo o MP, terá aconselhado Vasco Brazão, major da Polícia Militar, a negar informação ao MP e à PJ, nomeadamente sobre as matrículas das viaturas envolvidas na farsa da recuperação do armamento de guerra. O segundo caso diz respeito a uma procuradora colocada no DIAP de Loulé, Helena Miguel.

Ex-diretor da PJ avisou suspeitos das escutas

A relação das representantes do MP com alguns dos arguidos ter-se-á iniciado quando a dupla constituída por elementos da GNR e da PJ militar foi informada de que estaria a ser investigada pela Unidade Nacional Contra Terrorismo (UNCT).

Segundo fonte policial, terá sido o então diretor da PJ, Almeida Rodrigues, quem avisou Luís Vieira, o cérebro da ‘geringonça’, que chegou a estar em prisão preventiva, de que ele e outros colegas estavam sob escuta.

A partir dessa data, os suspeitos não só mudaram de telemóveis, para se livrarem da vigilância policial, como se desdobraram em contactos utilizando quem melhor se mexia no próprio aparelho judicial.

Enquanto a PJ Militar se socorre de Cândida Vilar em Lisboa, em Loulé foi Lima Santos, responsável do núcleo local de investigação criminal da GNR (NIC), quem tentou a sorte com duas procuradoras. 

Uma delas - Helena Miguel -, colocada no DIAP de Loulé, que o MP suspeita ter passado informações privilegiadas ao coordenador do NIC daquela cidade, chegou a ser intercetada em escutas. No início de 2019, Lima Santos ligou-lhe para se aconselhar, mas ela, sabedora da investigação em curso, disse-lhe que seria melhor falarem por um meio alternativo.

Magistrada escondeu encontro aos colegas

Mas Lima Santos tinha outras ‘fontes’. No interrogatório - para demonstrar que fora enganado pela PJ Militar, que o convencera a colaborar na farsa da recuperação das armas dizendo-lhe que esta era feita em colaboração com a PJ -, é ele quem avança com o último nome do trio de magistradas. Trata-se de Isabel Nascimento, colocada no próprio DCIAP, em Lisboa, onde decorria a investigação.

A partir daqui, as versões são contraditórias. Lima Santos diz ter recebido um telefonema de Isabel Nascimento, no início de 2018, ainda a Operação Húbris não era pública, mostrando interesse em falar com ele. Também ela trabalhara em Loulé e daí o conhecimento. Almoçaram num restaurante no centro de Lisboa. E, julgando que a magistrada era uma emissária da equipa de investigação, ele confessou-lhe toda a história, pensando que depois seria chamado ao processo para depor como testemunha.

Segundo a magistrada, porém, o enredo é outro. O pedido do encontro partiu de Lima Santos, tendo ela garantido não ter qualquer ligação ao inquérito.

Uma fonte próxima da investigação considera que o papel da magistrada não é claro: «O encontro ocorreu efetivamente. Independentemente de quem o marcou, não se compreende por que é que Isabel Nascimento não contou aos colegas do DCIAP o que tinha acontecido».