Politica

A Europa é dos jovens, mas o voto nem tanto

A abstenção é um problema generalizado na Europa. E mais grave ainda quando se considera apenas a faixa etária dos eleitores entre os 18 e os 24 anos. E é pior ainda em Portugal.

Os jovens europeus são muito pouco dados ao voto. Segundo o Eurobarómetro, a participação da juventude nas eleições europeias de 2009 situou-se abaixo dos 30%. E a situação em Portugal é ainda mais grave: nas últimas eleições (de 2014), só foram às urnas 19% dos portugueses com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos.

Aliás, pelo Eurobarómetro da primavera deste ano, Portugal é o país onde menos jovens estão seguros de que votarão nas eleições de amanhã: somente 3% dos inquiridos afirmou ser «extremamente provável» ir votar.

Com o intuito de compreender este cenário, o SOL esteve à conversa com estudantes, dirigentes políticos, militantes, candidatos ao Parlamento Europeu e com a historiadora Raquel Varela.

 

Votar: mais do que um direito?

Quatro amigos vão às urnas: este podia ser o título de um livro mas, na verdade, é a descrição daquilo que acontecerá no seio de um grupo de amigos de Oeiras. Débora Monteiro tem 20 anos, encontra-se no segundo ano da licenciatura em Órtoptica e Ciências da Visão e, para ela, a política é uma ciência tudo menos cativante. Ainda que para a futura ortoptista votar constitua «a chance que cada um tem de participar na determinação do futuro de variados assuntos», fá-lo-á pela primeira vez no âmbito das Europeias de amanhã e, apesar de achar que se sentirá «pressionada a tomar uma decisão acertada», a mesma terá de a deixar tranquila.

João Subtil, da mesma idade e aspirante a engenheiro biomédico, já votou e sentiu que «cumpriu um dever». O rapaz não gosta de se focar somente num partido – pois «nenhum é perfeito» – mas de uma coisa tem a certeza: não concorda com a extrema-direita.

Já Francisco Mendes, também de 20 anos e estudante de Enfermagem, confessa que foi convidado para integrar juventudes partidárias, mas recusou sempre. E vai votar.

Daniel Silva, aos 21 anos e a estudar Engenharia da Energia e do Ambiente, adianta que votar é o instrumento que os cidadãos têm para «poder decidir, mostrar e apoiar o que acham melhor para sociedade» e, quando o fez, sentiu «o poder de apoiar aquilo que é o melhor».

«A política é uma das minhas grandes paixões: é como se fosse um jogo de xadrez e fascina-me», afirma Luís Carvalho, que não é militante de nenhum partido mas diz que se identifica com os ideais da esquerda «progressista, inspirada nas ideias do humanismo e da preservação do ser humano acima de quaisquer interesses». Aos 26 anos, é finalista da licenciatura em Jornalismo e afirma que «votar é sempre especial, constitui uma experiência carregada de simbolismo». Mas, critica a campanha que tem sido levada a cabo pelos partidos lusitanos nestas eleições: «A visão europeísta do país é condicionada por aquilo que acontece em território nacional». E acrescenta que o conceito de transnacionalidade, por vezes, é esquecido por quem alcança cargos cimeiros.

 

Anatomia da perda de confiança

Lígia Lima tem 27 anos e é finalista de Enfermagem Veterinária. Para a jovem cujas paixões passam pelos animais e pela escrita criativa, «exercer o direito de voto foi confuso», pois sentiu que nenhum dos candidatos apresentava elevada fidedignidade e objetivos realistas. A rapariga conhece a missão das eleições europeias mas não sabe quais são as dezassete listas portuguesas concorrentes. A política não é um assunto que lhe suscite curiosidade na medida em que «os políticos são todos corruptos com propósitos muito próprios que os favorecem mais a eles próprios do que à população em geral». A futura enfermeira expõe também que, nos comícios e nos discursos, «os políticos prometem mundos e fundos» mas, posteriormente, «esquecem-se daquilo que prometeram».

 

Longe de casa, longe do voto?

Entre as 8h e as 19h do dia 19 de maio, os eleitores recenseados em território nacional que se encontravam deslocados da sua zona de residência tiveram a oportunidade de votar antecipadamente, numa mesa de voto em mobilidade. Para isso, tiveram de manifestar a sua intenção à Administração Eleitoral da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna entre 12 e 16 de maio.

Eduardo Filipe, de 23 anos, votou a 19 de maio. Atualmente, frequenta uma pós-graduação em Realização, na Escola de Tecnologias Inovação e Criação (ETIC). Natural de Castelo Branco e a viver em Lisboa desde 2014, quando ingressou na licenciatura em Audiovisual e Multimédia, na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), para ele, votar «é a responsabilidade social mais séria que existe» e que é «muito subvalorizada pelos portugueses». Apesar de não ter votado nas eleições europeias de há cinco anos por «imaturidade», hoje, o aspirante a realizador multicâmara acredita que se identifica mais com um posicionamento político «mais à esquerda» e «com uma perspetiva muito humana além daquilo que é económico».

 

Voto aos 16 anos

A proposta foi avançada por André Silva, porta-voz do Pessoas-Animais-Natureza (PAN): se a partir dos 16 anos é possível contrair casamento, ser imputável pelo código penal, distinguir o que é bom daquilo que é mau e trabalhar, então a maturidade e capacidade também se aplicam àquilo que diz respeito ao voto. No entanto, apesar do partido ter acreditado que «o momento certo» para trazer a questão a debate era agora por não existir «pressão eleitoral», a tentativa saiu gorada no Parlamento, a 14 de maio. Mas a verdade é que o debate fora dos grandes palcos políticos não cessou.

«Não concordo nem discordo porque, como não sou politicamente ativo, não é uma coisa importante para mim» confessa Guilherme Carreiras, estudante do curso científico-humanístico de Ciências e Tecnologias, na Sobreda, em Almada. Prestes a completar 16 anos, nunca votou mas «acredita que se sentiria realizado». Desconhece as listas concorrentes às eleições do próximo dia 26 e não é simpatizante de qualquer partido, admitindo que não é politicamente ativo e que a esfera política «nunca foi uma coisa» que o atraiu.

«Votar é ser finalmente uma cidadã plena, ter um papel ativo nas decisões que influenciam também a minha vida» explica Patrícia César Monteiro, de 17 anos. A jovem estudante de Línguas e Humanidades, em Vila Nova de Gaia, é militante de um a força política com assento parlamentar desde há um ano e teme que esta ideia, se implementada, possa ser «utilizada de forma inapropriada por certos partidos que usam inclusive assinaturas de menores para a sua formação». Na ótica de Patrícia, existem prós – os mais novos podem ter uma voz ativa, ganhar outro tipo de visibilidade e ser mais interventivos – mas também contras – como participar no futuro do país estando «desinformados» e sem «politização».

Militante de um partido de esquerda, Samuel Oliveira, de 19 anos e estudante de Ciências Socioeconómicas, em Lisboa, assume que o sufrágio não deve ser alargado aos adolescentes porque, «aos 16 anos, existe muita falta de consciência política e de maturidade» e se este direito fosse consagrado contribuiria para uma «maior percentagem de abstenção».

 

A influência da família

Débora Lagrange tem 18 anos e é estudante de Ciências Socioeconómicas em Palmela, no distrito de Setúbal. Para quem atingiu a maioridade no mês em que vai exercer o direito de voto pela primeira vez, este é «um dever cívico e serve para eleger o melhor candidato». Para a jovem que não está filiada em nenhum partido, o dia 26 de maio é sinónimo de eleger  alguém de um novo partido, pois a mãe é apoiante do mesmo e tem ouvido «várias ideias sobre a nova força política».

Já Cristiano Luís Gaspar, de 23 anos, finalista da licenciatura em Direito e líder de uma juventude partidária no Fundão, lembra o dia pelo qual sonhou durante anos, nas Europeias de 2014: «Fui com a minha família. Aperaltámo-nos como quem vai à missa de domingo e fomos todos votar. Não diria que estava nervoso, mas senti-me dotado de uma grande responsabilidade e poder, sentimento certamente inflamado pela consciência de que era, pois, também uma primeira pedra na construção da minha vida adulta. Não tive de trocar de boletim, nem me enganei nas cruzes».

 

A abstenção vista pelos dirigentes

Joana Dinis tem 26 anos e o seu interesse pela política surgiu pela «vontade em colaborar na mudança pelo bem-estar dos portugueses e dos europeus». Questionada acerca da experiência que tem tido enquanto dirigente da  juventude de um partido sem assento parlamentar, a jovem natural de Tomar é assertiva: «Tem sido enriquecedora, trabalhosa e extremamente cativante. Estou com o partido para o bem e para o mal».

Para esta dirigente partidária juvenil, de um partido que tem como principal missão a defesa dos «valores ocidentais», os temas que devem ser tidos em conta no momento de votar são «a islamização da Europa, a perda de soberania dos países, entre outros».

«Somos o futuro e, se o futuro não se interessar, a manipulação por parte de quem está no poder torna-se muito mais eficaz», diz Joana, para quem o desinteresse que os mais novos nutrem pela política é, em parte, motivado pelo «facto da mesma não ter evoluído e não se ter tornado cativante». A alguém que não queira ir votar e que se situe entre a faixa etária dos 18 e dos 24 anos, a dirigente explica: «Não temos o direito de nos queixar quando não lutamos e não fazemos a mudança».

 

Adoramos o ‘deixa andar’

«Nunca deixem que decidam o vosso futuro por vocês! Nunca deixem de acreditar que é possível construir um amanhã melhor! Nunca abdiquem de algo tão belo e importante como é o voto! Digam sim ao futuro!», é este o apelo de Diogo Fraga, de 25 anos, candidato de um novo partido. O mestrando em Fisiopatologia Cardiovascular nutre um «interesse de longa data» pelas causas públicas e define, como marco importante e porto de partida para a atividade política, «a participação numa das sessões distritais do Parlamento dos Jovens» onde sentiu um «imensurável entusiasmo».

O rapaz apoiante do partido que conta com quatro anos de história, acredita que estas eleições são essenciais porque «vivemos tempos de tremenda incerteza e concomitantemente desafios que necessitam de uma resposta imediata». Para que a mesma exista, Diogo aconselha a quem pensa que a abstenção é a solução que reflita acerca de questões que considera fulcrais: «A criação de emprego digno entre os mais jovens, a proteção ambiental e a interligação indesmentível entre economia/crescimento /emprego e entender que é possível colocar em prática uma verdadeira estratégia de apoios e programas às mesmas» e, para que sejam criadas estratégias, «o primeiro passo é ir votar já no domingo».

Iniciou-se ativamente na vida política como membro de uma juventude partidária em Fafe, em 2012, sem qualquer background familiar. Cinco anos depois, Ruben Sousa foi eleito presidente da mesma organização e, hoje, concilia esse cargo com o de vice-presidente da Associação Académica de Lisboa. Após uma «análise a nível ideológico», o licenciado em Relações Públicas e Comunicação Empresarial compreendeu que era atento às questões sociais, acreditava num Estado social, na ajuda e na melhoria das pessoas que são mais favorecidas mas, ao mesmo tempo, «pretendia uma economia mais livre e mais centrada no privado» e, assim, distanciou-se do espetro de esquerda.

«Estamos a ser atacados constantemente e adotámos uma postura de ‘deixa andar’» responde Ruben quando perguntado acerca da grande questão que deve estar em cima da mesa na hora de exercer o direito ao voto no domingo. Para o ex-conselheiro distrital, isto aplica-se tanto à «crise de refugiados como a extremismos de esquerda e de direita» e devem ser tomadas medidas pelos decisores europeus. «Os jovens têm de pensar naquilo que tanto a democracia como a Europa lhes deram», diz o antigo conselheiro nacional desta juventude partidária, reconhecendo que os jovens não se sentem representados e, acima de tudo, «não compreendem a importância de participar nestas eleições, pois sempre que não votam deixam que outras maiorias tomem a dianteira». Na perspetiva de Ruben, o segredo para lutar interiormente contra a indiferença é perceber «aquilo que cada partido faz, os porquês e as consequências».

 

O candidato mais novo a Bruxelas

Gonçalo Madaleno, de 24 anos, é cabeça de lista de um pequeno partido e sucede ao pai, Amândio Madaleno, que liderou a lista há cinco anos. O mais jovem candidato a Bruxelas começou a acompanhar o trabalho do partido através da realização de «trabalhos administrativos que ninguém queria fazer», como o envio de cartas. Hoje, já a exercer advocacia, recorda que começou a contactar com os cidadãos – «tanto do partido como pessoas que apareciam nas ações de campanha» – por intermédio da partilha dos problemas do quotidiano.

Questionado acerca da relevância das eleições de domingo, no panorama europeu, o candidato realça que «há poderes muito importantes conferidos à União Europeia (UE), como a garantia da qualidade de vida dos cidadãos» e, desse modo, acredita que algumas das bandeiras do seu partido vão ao encontro desse pilar: a defesa da educação, o reforço do programa Erasmus, a redução das taxas de juro e a facilidade no acesso à habitação.

«Quem lá está não tem feito um bom trabalho e, infelizmente, isso é cada vez mais visível no nosso dia a dia», refere Gonçalo, que, se tivesse a oportunidade de chegar ao maior órgão legislativo da UE, criaria de imediato uma bolsa de arrendamento – com a finalidade de tornar as zonas nobres das cidades mais democráticas – e combateria as alterações climáticas com medidas como a criação de postos de trabalhos verdes – isto é, empregos no setor dos bens e serviços ambientais.

 

O que falha no projeto europeu?

Filipe Martins Vaz, de 23 anos e mestrando em Gestão de Serviços e Tecnologia, aprecia «a política e aquilo que se move em seu redor, desde pequeno». Poucos meses depois de completar 18 anos, filiou-se num partido e, em 2014, votou nas europeias. Mas, reconhece, as decisões emitidas pelos grupos parlamentares não são «comunicadas eficazmente, resultando num grande isolamento, como se pode observar através do controverso artigo 13 (diz respeito à criação de um mecanismo para controlar o material carregado nas plataformas online por parte dos utilizadores)».

Tomás Cardoso Pereira, de 25 anos, decidiu «levantar-se do sofá e construir um projeto político» e, agora, é candidato ao Parlamento Europeu. O fundador do Fumaça, um órgão de comunicação de investigação de esquerda, acha que o desinteresse dos jovens se manifesta especialmente no contexto das Europeias porque «a Europa parece ser uma coisa distante e pouco palpável».

 

‘Os jovens estão infantilizados’

É historiadora, investigadora e professora universitária. Conhecida por tratar as temáticas das relações laborais e dos conflitos sociais, publicou a obra Breve História da Europa no ano passado, considerando que é grave ainda não se ter produzido nada em termos historiográficos sobre Portugal no contexto europeu. Raquel Varela, de 41 anos, para quem a Europa é uma «ideia que contém dois projetos antagónicos», considera que existe uma Europa da resistência antinazi que, por momentos, «unificou setores revolucionários socialistas e os democráticos» mas também a Europa dos capitais, a do Estado social, a do conflito entre o Norte e o Sul: em suma, «há muitas Europas». Mas, que continente existe hoje? A investigadora julga que há cada vez mais «uma divergência entre classes que se reflete na abstenção», porque há uma mistura entre funcionalismo, tecnocracia e vontades nacionais.

Segundo o Eurobarómetro do Parlamento Europeu para a primavera de 2019, os temas que mais preocupam os jovens entre os 18 e os 24 anos são a economia e o crescimento bem como a proteção social. Porém, a historiadora acha que os eleitores devem focar-se no desemprego e na ameaça que este constitui, «porque condiciona o acesso à maturidade – ter casa, ter filhos, ser independente».

«É preciso largar essas campanhas paternalistas com slogans como ‘vá votar porque é o seu dever’», responde Varela quando confrontada com os seguintes dados do mesmo inquérito: 55% dos inquiridos votará apenas porque acredita que esse é «o seu dever como cidadão» e 33% dos inquiridos sente que o «seu voto não mudará nada». A académica considera que «é preciso devolver a democracia substancial às pessoas», pois as pessoas têm de intervir em locais que lhes são mais próximos geográfica e pessoalmente, como a escola dos filhos ou o local de trabalho.

«Há um desinteresse geral pelas eleições porque as eleições estão desinteressadas pelo povo» – a docente chega mesmo a declarar que a política nunca esteve tão afastada dos cidadãos como hoje. E, acima de tudo, longe dos jovens, que estão «infantilizados, não veem perspetivas de carreira nem de desenvolvimento pessoal e têm perspetivas de vir a viver pior do que os pais».