Desporto

TAÇA. O encontro sempre adiado

Depois de deixar o nome de Campeonato de Portugal e passar a ser Taça, foi preciso esperar até 1977 para uma final Sporting-FC Porto.

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A RTP estava zangada. Incapaz de chegar a acordo com a Federação Portuguesa de Futebol para a transmissão em direto da final da Taça de Portugal, emitiu mesmo um comunicado no qual deixava sublinhado o seu embezerramento: «Restringiremos ao mínimo a divulgação e propaganda das provas organizadas pela FPF, passando a privilegiar, na nossa programação, outras das muitas modalidades que se praticam no país».

O presidente federativo era António Marques e imagino-o ralado com uma ameaça tão pífia. Bilhetes a preços valentes, de 150 a 400 escudos, e as declarações de Seninho (FC Porto) e Salif Keita (Sporting) que estava na hora das despedidas, o primeiro a caminho do Cosmos de Nova Iorque, com Pelé à espera, o segundo de regresso ao seu Mali natal, ocupavam bem mais espaço na imprensa do que dirigentes da televisão espinafrados. Além disso, desde 4 de Julho de 1937, no ainda chamado Campeonato de Portugal, que portistas e sportinguistas não se defrontavam no jogo derradeiro. Já estava na hora.

O que se passou no Jamor no dia 17 de junho de 1978 não foi próprio para almas mais sensíveis. Ao favoritismo do FC Porto, campeão nacional, respondeu o Sporting com uma gana que superou as ausências forçadas de Baltasar e Jordão.

Francisco Lobo, o árbitro, não fez jus ao nome e portou-se como um borrego timorato. Gabriel, o defesa direito dos portistas teve a desfaçatez de tirar a camisola e enfiá-la pela cabeça do fiscal de linha, Arlindo Rodrigues, sem sofrer consequências. O caldo entornou-se de vez aos 58 minutos, exatamente cinco minutos depois de Fernando Gomes ter aberto o marcador para o FC Porto. Keita isolou-se, Fonseca saiu ao seu encontro, o maliano caiu, Lobo andava longe, exibindo algumas rotundidades excessivas para a função que lhe fora destinada, seriam os gestos de Arlindo, agarrado à bandeirinha, que o alertaram e, vai daí, apitou para o penálti. «O bandeirinha estava perdido de todo», diria Octávio no final. «Gritou-me que eu tinha a mania que era o maior de Palmela e mandou-me para a puta da minha mãe. Um desgraçado!». Francisco, Lobo de seu nome, tornou-se de imediato a vítima do público afecto aos portistas: «Palhaço! Palhaço! Palhaço!». O coro prolongou-se. Pelos vistos também no o incomodou por aí além: «Foi penálti! Sem dúvida! Mas houve algumas reações chatas...». Como a de Gabriel, pela certa.

Meneses não falhou a oportunidade e empatou.

Ferveu bordoada. Murça saiu de maca, o treinador do Sporting, Rodrigues Dias, substituiu Barão por Ademar, por perceber que não evitaria um cartão vermelho, tal como do outro lado, Ademir não o evitou depois de ter acertado em cheio em Artur num daqueles abalroamentos de partir um homem em dois.

Não havia forma de encarrilar o que descarrilado estava. 

Entre contos e porrada

Meia-hora de prolongamento dedicada ao murro e à cacetada e eis que António Marques, mal o tal de Lobo mandou todos para as cabinas, esfregou as mãos de contente. A federação embolsara 7.700 contos e, como não houvera acordo entre as partes, tratou de agendar o desempate para o sábado seguinte, pelas 16 horas, no mesmíssimo palco do Jamor. Vendo bem, para que precisava ele da RTP se mais um bolo vinha a caminho. E tudo no curto espaço de oito dias. Era de truz!

De um lado e do outro, razias completas. O primeiro jogo deixara marcas irremediáveis. Sporting sem Barão, Baltasar, Fraguito, Manaca, Jordão e Da Costa; FC Porto sem Freitas, Ademir, Oliveira, Vital, Murça e Gonzalez.

Na manhã seguinte à finalíssima, seguiria a comitiva leonina para a China numa viagem de pompa e circunstância de fazer inveja ao próprio Elgar. 

No entretanto, Francisco Lobo, o acobardado cordeiro, fora empurrado pelo coronel Saldanha Ribeiro, secretário de Estado dos Desportos, para a lista formalizada pela Comissão de Arbitragem a entregar à FIFA para promoção a internacional.

Um escândalo! Mas, no fundo, o povo, que queria era bola, estava-se nas tintas. Que tintas, essas, gastassem os jornais com tais matérias! Mas também já fosse futebol a mais para algibeiras depauperadas. Se António Marques estava à espera de voltar a carregar a mala, pôde tirar bem cedo o cavalinho da chuva. Apareceram 25 mil pagantes, a receita não foi além dos 2.200 contos, e a tão esperada finalíssima, embora agora marcada por um arbitragem impecável de Mário Luís e por um cavalheirismo exemplar dos oponentes, acabou por se transformar naquilo que o divino Eça gostava de chamar uma grandessíssima estucha. Esperto! Na véspera entrara em acordo com a RTP, selaram-se de vez os amuos, a malta teve bola na televisão e a FPF remendou os prejuízos.

As ausências fizeram-se notar, como costuma dizer o povoléu de Guilhabreu a São Paio de Gramaços. Relva escorregadia, lentidão em excesso, uma chuvinha miúda, daquela de molha-tontos. Defenderam-se os portistas, atacaram os leões, Manuel Fernandes transformou-se na grande figura do encontro, contribuiu para o 1-0 de Vítor Gomes (55 minutos) e marcou logo em seguida (62). A taça não sairia de Lisboa. Mesmo que Seninho, o rapaz dos sprints e ziguezagues inconformados, permitisse uma ligeira dúvida até final com um pontapé certeiro ao minuto nº 80.

Vasco Resende, ligado à Associação Democrática de Amizade Portugal-China, sportinguista convicto, desceu à cabina e tratou de convidar Mário Luís a seguir para o Oriente com a comitiva. O árbitro de Santarém abriu a boca de espanto e acenou que sim. Ficaria conhecido por ‘O Chinês’...