Opiniao

Quem vive na Margem Sul não tem direitos?

Quando foi anunciado o passe único e a respetiva diminuição do preço que as famílias teriam que despender com os transportes, achei a ideia fantástica e não liguei muito às críticas que se fizeram sentir. Dizia a oposição, e não só, que a diminuição dos preços dos transportes públicos teria que ser acompanhado por um aumento da frota existente para que a medida se tornasse efetiva. Fossem autocarros, comboios ou barcos. 

Pois bem, passados poucos meses da medida ter entrado em vigor, não faltam relatos de transportes a transbordar de pessoas – nalguns casos optou-se mesmo por retirar cadeiras para poderem viajar mais utentes –, de carreiras que foram suprimidas por falta de tripulantes ou por estarem avariadas. 

Já se sabia há muito que a Linha de Cascais está num estado deplorável, onde as composições estão vandalizadas e as estações fazem lembrar cenários de guerra, mas nada se compara à situação lastimável em que estão os transportes fluviais que ligam as duas margens da Grande Lisboa. Como é possível acabarem-se, de surpresa, com carreiras noturnas entre o Barreiro e Lisboa  obrigando dezenas de utentes a dormirem na estação fluvial? Será que esses cidadãos não merecem ser tratados com dignidade?

Como é possível falar-se em fim de austeridade e os meios de transporte que levam as pessoas aos seus empregos não existirem? No caso daqueles que vivem na Margem Sul o cenário é ainda agravado com a falta de autocarros que levam a população até ao terminal ferroviário e no regresso a casa. Quem passa por esse filme de terror todos os dias, é certo que há horas mais críticas, não sabe o que fazer à vida. Muito resignam-se à sua sorte, outros tentam chegar de outras formas ao trabalho: ou em viatura própria ou à boleia, fazendo com que o dinheiro que gastaram no passe único se transforme num custo em vez de ser uma diminuição das despesas. Isto faz algum sentido?

Quando tanto se fala em diminuir a poluição, o Governo marimba-se para os largos milhares de utentes da Margem Sul? Há dinheiro para pagar as contas a Bruxelas e não há para se fazer uma ala pediátrica do hospital de S. João, no Porto, onde as crianças com cancro são tratadas em contentores? Há margem financeira para se chegar quase ao défice zero e não há dinheiro para comprar barcos e contratar mais mestres de embarcação?

Se os políticos foram tão céleres a mostrar as maravilhas do passe único, porque não voltam ao local do crime à hora de ponta e constatam o pesadelo?

P. S. 1. Milhares de jovens, espalhados um pouco por todo o mundo, escolheram o dia de ontem para protestar contra o aumento da poluição, condenando as gerações mais antigas pelo futuro que lhes vão deixar. Só que não deixa de ser irónico que sejam os mais novos a contribuir enormemente para o aumento da poluição mundial: deixassem de andar tanto de avião e logo veriam como a sua pegada ecológica diminuía drasticamente. Claro que fazem muito bem em alertar para os perigos do aumento da temperatura e as consequências que daí advirão. Mas também não lhes ficaria mal liderarem uma campanha para se viajar menos de avião e mais de comboio. Ah! E podiam também gritar contra a moda de se trocar de telemóvel como quem muda de camisa, já que os aparelhos velhos estão cheios de materiais perigosos para o meio ambiente. 
P. S. 2. A histeria com os carros elétricos ainda terá muitos episódios e são cada vez mais os especialistas que dizem que não há grandes diferenças em relação aos carros tradicionais.