Falar Baixinho

Quem nunca pecou que atire a primeira pedra

Não é só colocar um filho no porta-bagagens que o coloca em perigo. É não lhe colocar o cinto, falar ao telemóvel no carro, enviar mensagens, arriscar um sinal vermelho, passar o limite de velocidade, uma infinidade de coisas, e isto só para falar do que se passa quando estamos a conduzir. 

No passado domingo, a leviandade com que foi dada uma notícia extremamente delicada reuniu a mistura perfeita para incendiar as redes sociais e despertar a revolta das pessoas. A notícia avançava que uma mãe alcoolizada, após festejar a vitória do Benfica, teria colocado a filha na bagageira de um carro sobrelotado e, ao entrar numa rua em contramão, teria sofrido um choque frontal que levou à morte da filha. Na realidade, a mãe regressava do café com a filha, teria bebido umas duas cervejas e deu boleia a outros amigos que moravam a dois passos dali, pelo que as duas crianças foram no porta-bagagens a brincar. Num cruzamento, quando o carro entrava por uma rua em que por alguns metros o trânsito só é permitido a pesados, um outro carro embateu em excesso de velocidade na traseira. O desfecho já conhecemos.

Não precisei de saber a notícia verdadeira para me solidarizar com a mãe e estranhei o sentido oposto em que seguiam outras pessoas. Os comentários, alguns feitos até por outras mães na página do agrupamento da escola, eram extremamente agressivos. Do fanatismo do futebol à urgência da prisão perpétua, passando pelos insultos e pelo desejo de que lhe retirassem os outros filhos, eram de uma falta de humanismo incalculável. Esta mãe cometeu um erro crasso que foi o de colocar a filha no porta-bagagens, fosse ele aberto ou fechado, numa distância grande ou pequena. É óbvio e inegável. Mas isso não a torna uma má pessoa, não faz dela uma má mãe, não a transforma numa assassina. É uma pessoa como qualquer outra, mas que cometeu um erro irreparável. Com o avançar das notícias acabei por aperceber-me de que conheço bem esta família porque frequento com regularidade o seu supermercado. Era uma família muito simpática, séria e feliz, que vivia em torno dos filhos. Imagino que perder um filho seja como arrancarem uma parte de nós e não sei se algum dia conseguirão recuperar a sua paz e alegria.

No dia seguinte ao acidente fatal surgiram as notícias da possibilidade de prisão por dois crimes. Embora ache que a lei deva ser cumprida, neste caso não vejo qualquer vantagem em prender a senhora, que tem aliás mais dois filhos pequenos para criar. Seria bom que o tribunal encontrasse uma solução adequada, pois a prisão não a tornará uma mãe mais responsável, nem irá fazer com que outras pessoas pensem duas vezes antes de incorrerem em situações que possam pôr em risco os seus filhos. O maior castigo será mesmo o de ter sobrevivido ao acidente e de ter de carregar este peso esmagador até ao último dia sem nunca poder pedir perdão.

O que podemos tirar deste triste caso? O ensinamento de não facilitar, em caso algum, alguma desgraça que possa acontecer. Os nossos filhos são o nosso bem mais precioso. Confiam totalmente em nós e é nosso dever e nossa obrigação fazer tudo para os proteger. Simplesmente não os podemos perder. Não é só colocar um filho no porta-bagagens que o coloca em perigo. É não lhe colocar o cinto, falar ao telemóvel no carro, enviar mensagens, arriscar um sinal vermelho, passar o limite de velocidade, uma infinidade de coisas, e isto só para falar do que se passa quando estamos a conduzir. Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra.