Cultura

Agustina a sagrada escritora

Passou os últimos anos arredada da vida pública, depois da grande notoriedade que atingiu nas décadas de 80 e 90, e que culminou com a atribuição do Prémio Camões em 2004.

O seu último romance, A Ronda da Noite (uma história familiar que girava em torno de uma cópia da famosa pintura de Rembrandt) foi publicado em 2006. No ano seguinte teve um AVC que a deixou incapacitada. Nunca mais trabalhou, mas os seus livros continuaram a ser publicados, primeiro pela Guimarães de Paulo Teixeira Pinto, mais recentemente pela Relógio d’Água. Maria Agustina Bessa-Luís morreu na passada segunda-feira na sua casa da Rua do Gólgota, no Porto, aos 96 anos. Passou os últimos anos retirada da vida pública. Em março, a filha, Mónica Baldaque, revelava em entrevista ao SOL: «Levanta-se todos os dias, passeia quando o tempo está bom, recebe os netos e os bisnetos, e come sozinha, e dorme bem. Quer dizer: ela está bem. Está é com uma dificuldade ao nível da fala. E não é só isso; está também cansada. Está ausente. Mas está ausente porque quer. Não é por doença, é porque, realmente, chegou ao fim do que considerou ser o destino dela».

Nascida a 15 de outubro de 1922 em Vila Meã, Amarante, em pequena não lia livros infantis mas os folhetins do Jornal de Notícias. O pai, um «rico emigrante» regressado do Brasil, tinha a concessão do casino da Póvoa e a infância e juventude de Agustina foram repartidas por várias localidades do Norte. «Acho que o meu talento o orgulhava, mas impedia um pouco que me amasse mais», escreveu Agustina. «Dizia que eu podia ganhar milhões se escrevesse os segredos do mundo do jogo. Não com a publicação, mas porque me pagariam para não publicar o livro».

Foi sempre pela escrita que traçou o seu destino. Conheceu o marido através de um anúncio que colocou n’O Primeiro de Janeiro (de que mais tarde viria a tornar-se diretora): ‘Jovem instruída procura correspondência com pessoa inteligente e culta’. Agustina e Alberto Luís, um advogado ‘inteligente e culto’ com gosto pelos livros e que além disso tinha um enorme talento para desenhar (deixou-nos belos retratos da escritora), casaram-se em 1945. Ao longo da vida, seria sempre ele que lhe datilografaria os manuscritos densos, torrenciais, numa caligrafia nem sempre fácil de decifrar.

O seu primeiro romance, Mundo Fechado, apareceu em 1948. Confiante do seu talento, enviou-o aos «escritores mais famosos» daquele tempo: Aquilino, Ferreira de Castro, Miguel Torga, Teixeira de Pascoaes. «Responderam-me com entusiasmo». O seguinte, Os Super-Homens (1950) desencadeou uma polémica com o crítico Jaime Brasil. A relação de Agustina com a crítica nunca foi de amor correspondido mas, pelo contrário, de desconfiança mútua: «Os críticos são pessoas que não contemplam as árvores», escreveu um dia. «Pessoas assim andam perto de enlouquecer e sofrem de dores de cabeça permanentes».

De resto, conservadora como era e segura como estava do seu talento, nunca se esforçou por agradar. Os seus romances eram, como os seus manuscritos, densos, sinuosos, exigentes. Mais de um especialista notou que nem tudo neles é passível de ser cabalmente esclarecido. «Reler Agustina é também sentir o prazer do risco de nunca saber nem compreender totalmente, o risco de, afinal, nunca regressar a nada, ficando entregue à volúpia de nos perdermos pelo caminho», escreveu o ensaísta Álvaro Manuel Machado n’O Significado das Coisas. Eduardo Prado Coelho também sublinhou esse traço: «Aceitar que muitas vezes o que diz não é para entender por inteiro é uma das imensas qualidades de Agustina».

A ascensão ao estatuto de «grande senhora das letras portuguesas» (como lhe chamou Eduardo Lourenço) deu-se com A Sibila, de 1954, um regresso às origens amarantinas, impregnado de referências  autobiográficas. Um livro difícil que chegou a ser de leitura obrigatória para alunos do ensino secundário, provocando dissabores e anticorpos em muitos jovens.

‘Deusa única e incontestada’

Habituada ao privilégio da burguesia abastada, a esquerda olhava-a com suspeição e o 25 de Abril votou-a a um certo ostracismo. Interrompeu inclusivamente a colaboração na imprensa.

Recuperaria em pleno a dimensão pública ao assumir a direção do Teatro Nacional D. Maria II, a convite de Santana Lopes, em 1990, um ano depois de publicar um dos seus livros mais célebres, A Corte do Norte. Ter colocado uma peça de revista, Passa por mim no Rossio, no principal palco português não foi visto com bons olhos por muita gente, mas terá ajudado a equilibrar as contas.

«Se há em Portugal um escritor que participe da natureza do génio, é Agustina Bessa-Luís», escreveu José Saramago. Frederico Lourenço, num número especial que a revista Egoísta dedicou à autora em 2007, dizia que no meio onde cresceu e foi educado, «Agustina era, na prosa portuguesa do século XX, a deusa única e incontestada».

A atribuição do Prémio Camões em 2004 consagrou-a definitivamente. Mas nem na hora da sua morte - apesar do luto nacional e dos elogios vindos de todos os lados - a excelência da sua obra reúne o consenso.

Agustina por ela própria

«O meu pai foi para o Rio tinha doze anos. Nesse tempo era a cidade de Machado de Assis, os homens usavam fatos de seda crua e frequentavam os casinos. Meu pai viveu com aparato e grandeza, tinha punhos de oiro, ratinhos de oiro pousados num brilhante»

 

«Sou muito pouco participante das ideias feministas, desse provincianismo feminista que existe e que se desenvolve por toda a parte, hoje»

 

«Para mim é fácil ser sincera quanto à minha insinceridade»

 

«Sou uma pessoa pacata, comodista. Uma pessoa comodista nunca pode ser perversa, a não ser na imaginação»

 

«Em certo aspecto, sou o que se chama ‘conservadora’. No que se refere a um enraizamento que constitui o melhor da minha cultura»

 

«Vocação. Eu tenho só uma, que é escrever. Usar a palavra, dar-lhe vida, confiar nela para que nela vejam verdades poderosas, como a de sermos destinados a coisas maravilhosas»

 

«Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo [...]. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas integração social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque se escreve, não se sabe exactamente». 

 

«Não vamos ignorar que ler os meus livros obriga a uma determinada preparação, cultura, conhecimento, e até a um amor pelas coisas que nos rodeiam»

 

«Teria sido facilmente muito rica se pusesse o espírito financeiro acima do espírito das letras»