Internacional

Pompeo recusa pôr Arábia Saudita na lista de países que usam crianças-soldado

A recusa terá sido à revelia de especialistas do próprio Departamento de Estado, que acusaram Riade de colocar em combate crianças sudanesas no Iémen.

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, bloqueou a inclusão da Arábia Saudita na lista de países que utilizam crianças-soldado. Segundo a Reuters, decisão terá sido tomada à revelia de especialistas do Departamento de Estado, que ctiveram em conta os relatórios de várias ONG's de direitos humanos, que acusam o reino saudita de recrutar crianças sudanesas para combater no Iémen, pela coligação liderada pela Arábia Saudita e apoiada pelos Estados Unidos. A lei norte-americana obriga a que todos os anos seja compilada uma lista de países que usam crianças em combate, que seria entregue esta quinta-feira. O países identificados ficam impedidos de receber ajuda dos Estados Unidos, levando ao fim de treinos conjuntos e de vendas de armas - a não ser que as sanções sejam levantadas pelo Presidente, por motivos de "interesse nacional".

Dificilmente seria de esperar que a Arábia Saudita entrasse na lista. Há muito que o Executivo de Donald Trump é acusados de fechar os olhos aos crimes de Riade, a troco da manutenção da venda de armamento, do acesso ao petróleo saudita e da manutenção da sua influência na região - cada vez mais essencial com o escalar das tensões com o Irão. 

A recusa de Pompeo foi confirmada por três fontes da Reuters, e terá resultado de divergêncas entre os especialistas e outros funcionários, sobre se as crianças estariam sob controlo de oficiais do Sudão ou da coligação liderada pelos sauditas. Mas a distinção parece ténue, dado o grau de influência de Ríade sob o Conselho Militar de Transição sudanês, que governa o país africano. Até Washington tem consciência disto, como mostrou um comunicado do próprio Departamento de Estado, que exigiu à Arábia Saudita que pusesse fim à repressão militar no Sudão.

Recorde-se que desde dezembro do ano passado que a oposição sudanesa exige o fim do regime militar, então liderado por Omar al-Bashir. O ditador sudanês tomou o poder num golpe de Estado, em 1989, e teve a dúbia distinção de ser o primeiro Presidente em funções condenado pelo Tribunal Penal Internacional, pelo genocídio do Darfur. Face à intensidade dos protestos, Bashir caiu a 11 de abril, derrubado pelos próprios militares que o colocaram no poder. E que continuam a comandar o país, após massacrar pelo menos 100 civis, num protesto pacífico em Cartum, segundo noticiou o the Guardian

Não é segredo para ninguém as ligações diretas entre a Arábia Saudita e os líderes da junta militar, em particular Mohamed "Hemeti" Hamdan Dagolo, líder das Forças de Resposta Rápida, compostas sobretudo por antigos Janjaweed - as mílicias de nómadas islâmicos responsáveis pelos maiores abusos no Darfur. Num encontro pessoal com Bin Salman, a 24 de maio, Hemeti prometeu manter as suas tropas no Iémen, em apoio aos sauditas - e seria entre estas tropas que estariam muitas das crianças soldado.

O porta-voz da coligação saudita, Turki al-Malki, garantiu que "as alegações do recrutamento de crianças soldado são completamente incorreta e não são baseadas em nenhuma prova", garantindo que essas práticas eram exclusivas dos seus adversários. Mas ainda em dezembro, combatentes sudaneses no Iémen relataram ao New York Times como comandantes sauditas e dos Emirados Árabes Unidos lhes davam ordens a uma distância segura, lançado-os contra os combatentes houthis, apoiados pelo Irão - um elemento chave da recusa de Pompeo em hostilizar Ríade.