Sociedade

Luís Graça: ‘É uma tristeza deixar o SNS chegar a este ponto’

O Governo diz que as grávidas serão encaminhadas pelo INEM para a urgência que estiver aberta. É comum as grávidas ligarem para o 112?

Não, na maioria das vezes as grávidas chegam aos hospitais pelos seus próprios meios. É um disparate. Obviamente que, chegados a este ponto, de uma depauperação brutal dos médicos de ginecologia e obstetrícia nos hospitais de referência, se calhar não haverá outra solução e é a única forma de informar a população. Não se conseguem contratar médicos à pressa. Reformei-me há três anos. No Hospital de Santa Maria já havia défice de médicos, mas ainda dava para orientar as equipas de urgência. Nestes últimos anos têm saído vários e só nos últimos três meses saíram três especialistas de Santa Maria. Só foi admitido um. Não existe planeamento.

O problema é não abrirem vagas ou os salários no Estado não concorrerem com os do setor privado?

É um círculo vicioso. Quando de um determinado serviço saem dois ou três médicos, não pode haver autorização para contratar apenas um, que é o que tem acontecido. Para mim, o mais trágico é que há médicos que estão disponíveis para serem contratados, a autorização para contratar é que não é dada. É óbvio que recorrem a quem lhes dá emprego, que são os privados. O planeamento da ACSS e da ARS é inexistente. 

Mas a diferença salarial entre público e privado é relevante?

Tem influência, mas há muitos internos que acabam a especialidade e querem ficar na Alfredo da Costa ou em Santa Maria. Não ficam porque não há vaga. Neste último concurso abriu uma vaga para Santa Maria quando já havia défice de quatro ou cinco médicos. 

Quanto é que o privado oferece a um obstetra em início de carreira?

À volta de 2500/3000 euros, o que significa pelo menos mais mil euros do que recebem no SNS. Mas os médicos novos, mesmo os especialistas, querem ficar nos hospitais públicos pelo menos alguns anos. É onde se adquire experiência. 

Concorda com a ideia de um pacto de permanência no SNS?

Antes disso deviam abrir as vagas, mas seria uma atitude correta, porque a formação custa muito aos contribuintes. Como não há dinheiro, prefere-se que saiam, se não abriam as vagas.  Isto é uma pescadinha de rabo na boca e tem sido gerida com os pés.

A Ordem dos Médicos estima que faltem 150 médicos obstetras no SNS. A sociedade tem a mesma estimativa?

Sim, entre 150 a 200 médicos. Se fosse possível contratar todos, ficaríamos bem, mas seria um bom princípio contratar todos os anos as necessidades indicadas pelos hospitais. Estou certo de que muitos médicos mesmo a trabalhar no privado regressariam ao SNS.

Que cenário antevê para o verão?

Se para Lisboa são necessárias quatro maternidades e estão habitualmente à cunha, se fecha uma, as outras três unidades vão ficar a deitar por fora. Não há explicação ter-se deixado a situação chegar a este ponto com todos os alertas que tem havido. Desde há 12 anos os Governos têm negligenciado a obstetrícia. Houve um franco alívio da pressão com a abertura dos hospitais privados, mas a qualidade é francamente inferior à dos hospitais públicos. Têm uma média de cesarianas de 60% e os hospitais públicos uma média a 25% a 30%. Esta diferença marca uma défice de qualidade. As pessoas sentem-se bem, parece um hotel, mas a qualidade é pior. É uma tristeza um país que tem um SNS que é considerado dentro dos dez melhores do mundo deixar as coisas chegar a este ponto por não se investir no número mínimo de profissionais, médicos e enfermeiros, necessários.