Opiniao

As ‘chicuelinas’ de Costa e de César

Em novembro de 2018, há pouco mais de seis meses, no debate parlamentar imediatamente seguinte à ‘rebelião’ da bancada socialista que, sob a direção de Carlos César, impôs ao Governo a redução do IVA para as touradas – contrariando a orientação do líder do partido e do Executivo –, António Costa disse que não valia a pena tentarem ensarilhar e arranjar questões entre ele e Carlos César, porque ambos estariam sempre concertados e do mesmo lado das trincheiras.

Ou seja, entre o chefe do Governo e secretário-geral do PS e o líder da bancada e presidente dos socialistas há um entendimento tão forte e um alinhamento tão inquestionável que, mesmo quando discordantes, eles estão afinados pelo mesmo diapasão.

Claro que Costa, no que a querelas públicas diz respeito, não perde uma oportunidade de dar uma alfinetadazinha a César (como a todos os demais, como ainda esta semana o fez em relação ao Presidente Marcelo, a propósito do «otimista irritante»), mas, como diz o próprio líder parlamentar, a relação entre ambos é «à prova de bandarilha».
E a verdade é que, continuando na linguagem tauromáquica, os dois passam a vida a tourear-nos a todos. 

A começar pelas outras bancadas parlamentares, sejam as da esquerda da ‘geringonça’ em que se apoiou o Governo socialista, sejam as da direita que Costa e César tão bem estão a manipular para tentarem que o seu próximo Governo conte com maioria absoluta.

António Costa, em coerência com o que sempre disse nos últimos mais de três anos e meio, não pode pedir a maioria absoluta ou sequer «uma maioria expressiva» para «evitar bloqueios e inércias». 
Carlos César pode. 
E, por isso, fê-lo.
César é da ala menos socialista e mais social-democrata do PS. 

Por César, a ‘geringonça’ já deu o que tinha a dar e só existiu enquanto mal necessário e meio para o PS atingir um fim impossível de outra forma.

Mais, com maioria absoluta, César ainda pode sonhar com a presidência da Assembleia da República. Sem ela, a coisa fia mais fino, porque o BE dificilmente lhe dará o seu voto.

Curiosamente, António Costa, nas mesmas jornadas parlamentares em que César ‘arrasou’ a ‘geringonça’, nem nela tocou.
Donde se pode inferir que não a deseja mas não a afasta – se tiver de ser...
Costa é, acima de tudo, pragmático.

E sabe que o PS só pode chegar à maioria absoluta se conquistar votos ao centro.

Para isso, o discurso certo é o de que o PS é, hoje, o partido que dá garantias de rigor nas contas públicas – e a famigerada história dos professores ajudou-o de sobremaneira, por ineptidão do PSD e do CDS – e que se assume como força política moderada e ponderada – e o PSD de Rui Rio, com a sua disponibilidade para fazer acordos em matérias chave, como na Lei de Bases da Saúde, dá-lhe sustentação.

António Costa ainda não se esqueceu que em 2015 perdeu as eleições para Passos Coelho e Paulo Portas, que personificavam a austeridade e quatro longos anos de sacrifícios nunca antes vividos.

O discurso do facilitismo não é nem nunca foi o mais popular junto do eleitorado de que precisa para fazer a diferença.
Ou, pelo menos, para o PSficar à menor distância possível da maioria absoluta parlamentar – isto é, à distância de um PAN ou de um Aliança, que não deixem o PSrefém do PCP nem sobretudo do BE.

Ora, e ainda que involuntariamente, quando o PCP e o BE (que andaram a amparar o Governo ao longo de toda a legislatura) encostam o PS à direita e quando o PSD de Rui Rio (agora que a legislatura está a chegar ao fim) abre portas ao diálogo com o Governo de Costa e o CDSse afasta do PSD e o tenta colar ao PS,o que estão a fazer, todos, é a cair no engodo dos socialistas.

Voltando à linguagem da tauromaquia, estão, todos, a deixar-se tourear como touro manso na arena, cego pelas capas do bandarilheiro e do matador. 
Sendo que as bandarilhas estão a cargo de César, reservando-se Costa, sempre, para a estocada final.