Internacional

Ursula von der Leyen. A amiga de Merkel regressa a casa

Após várias horas de impasse, os líderes europeus chegaram a acordo: a ministra da Defesa alemã foi a pessoa escolhida para suceder a Jean-Claude Juncker na liderança da Comissão Europeia. Só dia 16 será confirmada a sua nomeação. Até lá, continuará a cuidar dos seus sete filhos e a lidar com o escândalo que tem minado os últimos meses da sua carreira política.

iz-se que filho de peixe sabe nadar e que o bom filho a casa torna. São demasiados ditados populares, é certo, mas todos eles se aplicam a Ursula von der Leyen. Nascida em Bruxelas e filha do chefe de gabinete de Hans von der Groeben, um dos dois membros alemães nomeados para a Comissão Europeia, a atual ministra da Defesa alemã pode vir a tornar-se a primeira mulher a presidir este órgão europeu. O seu nome ainda tem de ser confirmado pela maioria dos eurodeputados na sessão plenária de 16 de julho. Mas quem é Ursula von der Leyen? Por trás de uma atitude afável e de um sorriso fácil, esconde-se uma personalidade forte, que passou de níveis altos de popularidade na Alemanha para as duras críticas do eleitorado, que agora a associa a escândalos políticos.

Ursula von der Leyen nasceu a oito de outubro de 1958, nove meses depois da criação da Comissão Europeia. O meio político sempre esteve muito presente durante a infância, com o pai, Ernst Albrecht, a dedicar muito do seu tempo ao desenvolvimento de uma Europa unida – segundo o site Politico, Hans von der Groeben, responsável para quem Ernst trabalhava, presidiu o comité que preparou o Tratado de Roma, que deu origem à então Comunidade Económica Europeia (CEE).

Ernst decide regressar à Alemanha quando Ursula tinha 13 anos, dedicando-se então à política interna: em 1976, tornou-se primeiro-ministro da região da Baixa Saxónia, cargo que irá ocupar até 1990. Em 1977, com 19 anos, Ursula rumou a Inglaterra para estudar na London School of Economic. É lá que, para além do francês e do alemão, aprende a falar inglês fluentemente. É também neste estabelecimento de ensino que começa a usar o nome fictício de Rose Ladson – enquanto filha de um político alemão, existia algum receio de que pudesse ser um dos alvos das guerrilhas de extrema-esquerda que operavam na zona da Alemanha Ocidental. 

Em 1980, decidiu mudar de curso e matriculou-se na Escola de Medicina de Hanover, tendo terminado o curso de medicina sete anos depois. Entre 1988 e 1992, exerceu a sua profissão numa clínica, mas acabou por se mudar para os EUA nesse ano – o seu marido, o médico Heiko von der Leyen, foi convidado para dar aulas na Universidade de Stanford. Quando vai viver para a Califórnia, Ursula já era mãe de gémeos. Entretanto, terá outros cinco filhos. 

Ursula começa a sua carreira política em 1990, quando se inscreve na União Democrata-Cristã (CDU), partido do seu pai. No entanto, só se começa a envolver ativamente nas iniciativas partidárias em 1999. Em 2003, é eleita para o Parlamento da Baixa Saxónia. Mais tarde, chega a ministra do Governo daquela região. Daí até à política nacional é um pulinho: em 2005, é nomeada ministra da Família pela chanceler Angela Merkel, em 2009 chega a ministra do Trabalho e dos Assuntos Sociais e, em 2013, torna-se ministra da Defesa, sempre com o apoio de Merkel .

Agora, Ursula está a um passo de assumir um dos cargos mais poderosos no mundo. Na Alemanha, já foi uma das figuras mais populares do panorama político, mas hoje em dia nem todos gostam do seu trabalho, pelo que a sua partida para Bruxelas é vista com bons olhos. Mas a ainda ministra parece estar vacinada contra as críticas. 

«Von der Leyen é a nossa ministra mais fraca», escreveu esta semana no Twitter o antigo presidente do Parlamento Europeu, o social-democrata Martin Schulz. Muitos dizem que o departamento da Defesa nunca esteve tão fraco e tão mal organizado como agora. Num relatório publicado em janeiro, o deputado social-democrata Hans-Peter Bartels escreveu que «não há pessoal nem material suficiente [nas Forças Armadas]. As tropas estão longe de estar bem equipadas».
Além disso, escreve o site Politico, o ministério liderado por Von der Leyen está a ser investigado por suspeita de irregularidades na contratação de trabalhos de consultoria externa, pelo que foi criada uma comissão de inquérito para perceber se houve práticas de corrupção.

Apesar deste escândalo e dos vários pedidos por parte dos seus opositores para que se demita, Ursula von der Leyen mantém-se firme e não cede. Vai contando com o apoio dos poucos – mas todo-poderosos – amigos que tem em Berlim.

Um deles é Wolfgang Schäuble, presidente do Parlamento alemão, com quem toma o pequeno-almoço uma vez por semana, há mais de uma década. Outra é a própria Angela Merkel – as duas mulheres mais poderosas da Alemanha são unha com carne há vários anos e mantêm uma relação de grande proximidade. A ida para a Comissão Europeia é uma promoção política ou uma forma de se distanciar das polémicas internas? Seja como for, é provável que, mesmo em Bruxelas, continue a pedir conselhos aos poucos amigos que a apoiaram nos bons e nos maus momentos da vida política na Alemanha, ajudando-a a levar para a frente algumas das ideias já defendidas, como o corte das relações entre a UE e o Reino Unido após o Brexit, a criação de um exército europeu ou uma maior defesa dos direitos das mulheres. 

 

David Sassol

Uma alemã na Comissão Europeia, um italiano no Parlamento Europeu. Nascido em Florença, em 1956, David Sassoli representa o pouco que ainda existe do Partido Democrático (PD) e uma resposta a Matteo Salvini, que, segundo o próprio primeiro-ministro português, António Costa, usou o seu «canto de sereia» para bloquear as negociações e dividir a Europa.

Sassoli, por outro lado, tem uma postura muito diferente do ministro do Interior italiano. Começou a carreira jornalística na década de 70, em jornais locais. Mais tarde, tornou-se editor do jornal Il Giorno, com sede na capital. Nos anos 90, começa a dar passos na televisão e, com o passar dos anos, chega à direção do canal público TG1. Torna-se, então, um dos jornalistas mais conhecidos de Itália.

Em 2009, Sassoli, casado e pai de duas crianças, toma a decisão de deixar a carreira jornalística e dedicar-se à política. Inscreve-se no PD para concorrer às eleições europeias daquele ano e acaba por ser eleito. Aliás, entre 2009 e 2014, liderou o PD no Parlamento Europeu. Pelo meio, mais precisamente em 2013, candidatou-se à Câmara de Roma, mas foi vencido por Ignazio Marino. Em 2014, foi reeleito para o Parlamento Europeu, acabando por assumir um dos postos de vice-presidente.

Agora, o seu nome foi proposto pela Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D) para a presidência do Parlamento Europeu. Sucede ao também italiano Antonio Tajani – Sassoli será o sétimo italiano a ocupar este cargo. Questões ligadas à imigração ilegal – um assunto tão importante na sua terra natal - e às alterações climáticas vão ocupar grande parte do seu tempo em Bruxelas. Ao seu lado, terá Pedro Silva Pereira, que foi eleito para uma das 14 vice-presidências do Parlamento Europeu. 

Christine Lagarde

Caso se confirme a sua nomeação, Ursula von der Leyen poderá vir a fazer história ao tornar-se a primeira mulher a assumir o cargo de presidente da ComissãoEuropeia. Mas certo é que ela já domina o pódio: Christine Lagarde vai claramente à frente na ‘corrida dos recordes’. É que depois de se ter tornado a primeira mulher a liderar o Fundo Monetário Internacional (FMI), esta será também a primeira vez que o Banco Central Europeu (BCE) terá uma mulher aos comandos. Mais: pela primeira vez, a política monetária da zona euro será gerida por uma pessoa que não é economista de formação (Lagarde é advogada).

Christine Lagarde, de 63 anos, nasceu em Paris e há muito que usa o chapéu de pioneira: deu nas vistas ao tornar-se a primeira mulher a fazer parte da direção da firma internacional de advogados Baker & McKenzie, entre 1999 e 2004. O salto para a política surgiu no ano seguinte, quando se tornou ministra do Comércio, cargo que ocupou até 2007. Nesse ano, torna-se ministra da Agricultura e da Pesca, mas rapidamente chegou a ministra das Economia, Finanças e Indústria (entre 2007 e 2011). Em 2009, é considerada a melhor ministra das Finanças da zona euro.

Conhecida por se empenhar na defesa dos direitos das mulheres e pelas suas capacidades de negociação, a advogada francesa chegou ao cargo de diretora-geral do FMI em 2011. Lagarde substituiu Dominique Strauss-Kahn, que abandonou o cargo na sequência de um escândalo sexual.

Em 2018, a revista Forbes disse colocou-a no terceiro lugar da lista das mulheres mais poderosas do mundo, apenas atrás de Angela Merkel e da primeira-ministra britânica Theresa May.

Os especialistas acreditam que Lagarde irá seguir o legado de ‘Super Mario’: enquanto diretora-geral do FMI, sempre mostrou o seu apoio à estratégia de Draghi.